‘Há algo de ameaçador num silêncio muito prolongado’
Sófocles, dramaturgo grego
Alexandre Ferreira (PSDB) se aproxima de completar um mês no comando da prefeitura de Franca. Diferente de muitos eleitos que assumiram administrações desestruturadas, com as finanças combalidas e sem mínimas condições de manter até mesmo o funcionamento de serviços essenciais, o novo chefe do Executivo de Franca não teve do que reclamar. Cofres cheios, dívidas equalizadas e uma máquina pública eficiente estavam à sua espera.
É claro que o cenário favorável não implica dizer que inexistam problemas - e muitos desafios - no horizonte próximo. Três deles, em especial, são críticos. Eclodidos nos instantes finais da gestão Sidnei Rocha, não receberam do prefeito que saiu a atenção devida. Muito pior, não despertaram ainda, no prefeito que entrou, a urgência necessária para o seu enfrentamento. Pairam sobre o paço municipal, à espera de um movimento de sua autoridade máxima.
Viaduto, lixo e ônibus são os três indigestos abacaxis que Sidnei Rocha legou a Alexandre Ferreira no meio de um fausto banquete. Até agora, o prefeito que se orgulha de seu perfil técnico, de trabalhar muitas horas e de decidir rápido não mostrou utilidade para tantas virtudes diante dos abacaxis rocheanos. O governo está paralisado. Não há movimento, não há sinalização, não há diretriz, não há nada além de hesitação diante destes problemas.
O viaduto é o maior exemplo. A obra deveria ter sido entregue em 28 de novembro. Dois meses depois do prazo previsto, o viaduto ainda é só uma estrutura que deve demorar outros dois meses para ser concluida. O atraso, ruim para os motoristas e muito pior para os comerciantes do entorno, está longe de ser a pior notícia. A dúvida que cerca a necessidade de alargamento do córrego Cubatão é o pior problema.
O estudo técnico que fundamentou as especificações da licitação pública, que definiu a empresa responsável pela obra, foi elaborado por engenheiros da prefeitura, sob responsabilidade da então secretária de Obras e Serviços, Valéria Marson, hoje vereadora. A vencedora da licitação foi a empresa Leão Engenharia, que cobrou R$ 9,3 milhões pela obra.
Tudo corria bem até que o governo Sidnei Rocha anunciou a necessidade de aditar o contrato, para alargamento de um trecho do córrego Cubatão não previsto inicialmente, ao custo de R$ 2,3 milhões adicionais. Não pegou bem. Houve muita reclamação e o Ministério Público ameaçou intervir. Sidnei Rocha, no crepúsculo de seu mandato, recuou e cancelou o aditamento.
Na última semana, houve uma reviravolta. O secretário de Urbanismo e Habitação, Wilson Teixeira, disse em entrevista ao programa Hora da Verdade, da rádio Difusora, que estava praticamente certa a abertura de uma nova licitação para as obras de alargamento do trecho adicional do córrego. Tudo para evitar alagamentos, tidos como inevitáveis se nada for feito. Nesta semana, outro revertério. Fontes ligadas ao prefeito Alexandre Ferreira garantem que os ventos mudaram de direção e que a tendência, agora, é que o viaduto seja entregue sem o tal alargamento. E que, se essas obras forem feitas, serão realizadas num outro momento, mais à frente.
Erros acontecem, problemas surgem, mas o que se vê no viaduto ‘Dona Quita’ é simplesmente incompreensível. É um assunto essencialmente técnico, que deveria ter uma solução técnica, acompanhada de uma explicação técnica. Afinal, não sobram assim tantas opções. Se o alargamento é necessário para que se evitem alagamentos no entorno, então que se faça, acompanhado de uma explicação à população. Porque, salvo melhor juízo, ou a equipe da ex-secretária Valéria Marson cometeu um erro primário, e tem que se desculpar à população, ou estamos diante de uma manobra que pretendia favorecer a empreiteira com um adicional de 27% no valor do contrato, sabe-se lá por qual razão. Não consigo imaginar outra opção.
Há ainda a questão do contrato com a São José, flagrantemente desrespeitado pela concessionária do transporte coletivo, que simplesmente se recusa a cumprir com suas obrigações, conforme denúncia exclusiva do Comércio. Há tipos de ônibus, de linhas e de serviços previstos no contrato assinado pela empresa que são simplesmente ignorados. Para piorar, o caso foi parar na Justiça - ironicamente, por iniciativa da São José, que busca autorização para deixar de fazer aquilo com o que se comprometeu quando participou da licitação. É difícil de engolir, ainda mais pelo silêncio complacente do prefeito municipal, que relegou a questão a sua área jurídica. Até agora, palavra sua sobre o imbróglio ninguém ouviu nenhuma.
Por fim, há o problema do lixo. Desde que assumiu o serviço de coleta e varrição a Leão enfrenta críticas. A população tanto reclamou que a nova Câmara Municipal resolveu agir. Instalou uma Comissão Especial para analisar o contrato, o serviço e pode, dependendo de suas conclusões, encaminhar tudo ao Ministério Público. A comissão foi criada por iniciativa de Adérmis Marini (PSDB), vereador que estreou no mandato já como líder do governo. Curiosamente, o governo do qual é o representante na Câmara ainda não moveu uma palha para resolver os problemas. Ou, se o fez, não contou para ninguém.
Viaduto, ônibus e lixo são três grandes desafios que o novo prefeito tem que enfrentar. É exatamente para resolvê-los - e o que mais surgir no caminho - que Alexandre Ferreira foi eleito, além de pensar e preparar a cidade para o futuro. Nada mais do que isso é o que espera a população de Franca. Nada menos do que isso é o que merece sua gente.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br
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