‘O homem fraco teme a morte, o desgraçado a
chama, o valente a procura. Só o sensato a espera.’
Benjamin Franklin, jornalista e inventor americano
Quais seriam as suas últimas palavras antes de morrer? É pouco provável que você já tenha pensado seriamente nisto. A morte não é exatamente um assunto popular, do tipo capaz de animar as conversas nas festas de fim de ano ou de provocar deleite em quem, apesar da inconteste morbidez, dedique algum tempo ao assunto.
Há exceções. Os depressivos crônicos, os suicidas, os assassinos contumazes e os filósofos certamente lidam com o assunto com alguma frequência. Imagino também que, em certa medida, médicos e enfermeiros que cuidam de pacientes terminais, legistas, funcionários de funerárias e, obviamente, jornalistas, num momento ou noutro de suas atividades cotidianas, acabam impelidos a pensar no que diria alguém que não tivesse tempo adicional para falar coisa alguma.
Existe uma outra categoria seduzida pelo tema. Os escritores. Não faltam livros nos quais, em alguma das suas páginas, resvalem nas ‘últimas palavras’. Há sempre alguém com uma frase definitiva, um arremate perfeito para um capítulo qualquer que termine com a morte de um personagem relevante. Ou ainda, no caso dos não-ficcionistas, uma frase garimpada de um personagem relevante que tenha tido uma grande história de vida capaz de justificar uma biografia.
É por esta última seara que envereda Ray Robinson, escritor americano quase desconhecido que, nem por isso, produziu uma obra menos instigante. Robinson reuniu num pequeno volume as últimas palavras, ditas por pessoas famosas de todos os tempos, instantes antes de morrer. O título do livro é óbvio: ‘Últimas palavras de pessoas célebres’. O resultado, surpreendente e, a despeito do que se poderia imaginar, bastante divertido.
É possível reunir num grupo, por exemplo, aqueles que não tinham a menor noção do que estava prestes a acontecer. ‘Nunca me senti melhor’, garantia o ator Douglas Fairbanks a um visitante, em 1939. Recuperado de um ataque cardíaco, o atlético e bonito ator assegurava estar em perfeitas condições. Morreu naquela noite. Idêntica percepção equivocada teve o também ator Rudolph Valentino, até hoje considerado o maior galã de todos os tempos. Vitimado por uma úlcera suporada, Valentino agonizava, ainda que não percebesse a gravidade do quadro. Instantes antes de falecer, disse aos criados que o asssistiam. ‘Não baixem as persianas. Sinto-me bem. Quero que a luz do sol me receba’. Não houve tempo. Mesmo assim, nenhum destes ‘tropeços sensitivos’ se compara à miopia premonitória do general John Sedgwick, comandante das tropas da União na guerra da secessão americana. Sedgwick estava no campo de batalha, zombando dos adversários confederados, que segundo ele tinham péssima pontaria. ‘Eles não conseguiriam acertar num elefante a esta dist-’. A frase foi interrompida subitamente por um tiro no rosto de Sedgwick, disparado por um inimigo confederado. O general morreu na hora.
Há um outro tipo de gente que, pressentindo o fim que se aproxima, se mostra absolutamente tranquila. Tão à vontade que se permite até mesmo instruções práticas. ‘Tens que mostrar a minha cabeça às pessoas - vale a pena vê-la’, recomendou o revolucionário francês Danton que, depois de cair em desgraça junto aos seus companheiros de batalha, acabou condenado à morte na guilhotina. A espiã Mata Hari, presa em Paris acusada de passar segredos para os alemães durante a Primeira Guerra Mundial, compartilhou com uma freira designada para confortá-la antes do seu fuzilamento o que pensava da vida. ‘A morte nada é, nem a vida, para o caso. Morrer, dormir, passar ao nada, o que importa? Tudo é uma ilusão’, filosofou.
Há aqueles revoltados diante da morte. Carl Panzram, um idiota que matou 12 pessoas no Mississipi, nos anos 30, revelou nas suas últimas palavras como um ser humano pode ser completamente desprovido de remorso ou arrependimento. ‘Quem me dera toda a raça humana tivesse um só pescoço e eu as minhas mãos em torno dele’, bradou, instantes antes de ser executado.
Tem também os engraçadinhos, incapazes de perder a piada. John Keynes, cujas teorias econômicas influenciaram gerações, não reclamou de nada. Só de ter sorvido menos álcool do que gostaria. ‘Quem me dera ter bebido mais champagne’, afirmou, instantes antes de morrer. O dramaturgo americano George Kelly, vencedor de um prêmio Pullitzer, no seu leito de morte, recebeu a visita de uma sobrinha, a quem não perdoou a deselegância. ‘Minha querida, antes de me dares um beijo de despedida, arranja o cabelo. Está uma lástima’. O poeta galês Dylan Thomas tinha 39 anos e uma coleção de internações para tratar de alcoolismo quando foi levado a um hospital americano durante uma turnê pelo país. ‘Acabei de beber 18 uísques de enfiada. Creio que é um recorde’. Pode ter sido, mas foi também seu último porre. Dali, saiu para o cemitério.
Difícil superar as tiradas daqueles que são capazes de ser irônicos nos instantes derradeiros de vida. O pirata inglês Walter Raleigh é um exemplo do como gente espirituosa segue assim até o fim. ‘Isto é um medicamento extremo, mas remédio santo para todos os males’, disse ao carrasco que o enforcaria, já no cadafalso. Arrancou risadas de quem assistiria a sua morte. O espanhol Pablo Picasso, um dos maiores gênios da pintura de todos os tempos, morreu já idoso, aos 91 anos. Não sem antes fazer uma recomendação expressa. ‘Bebam à minha saúde’.
Mas imbatíveis são as declarações finais de duas senhoras. A primeira, a Condessa de Varcellis. Era 1728 e a nobre francesa agonizava. Peidou diante de um visitante constrangido, mas não corou. ‘Ótimo, uma mulher que peida não está morta’, comemorou. Foi em vão. Pouco depois, morreu. A segunda foi Lady Astor, célebre deputada inglesa. Aos 85 anos e enferma, acordou e percebeu que havia uma parentada no quarto. Saiu-se com essa. ‘Estou morrendo ou é meu aniversário?’. Decididamente, não era dia de festa para lady Astor, o que não impediu que seu humor continuasse afiado até o fim. Pode não prolongar a vida, mas atenua o peso da partida.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br
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