Bolhinhas de sabão


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“Não pedi coisas demais para não confundir Deus que à meia-noite de Ano Novo está tão ocupado”  Clarice Lispector, escritora brasileira

As festas de Natal e Réveillon sempre foram períodos intensos e agitados em casa durante os anos 80 e 90, época da minha infância e adolescência. Papai adorava reunir a família – toda ela, ou pelo menos o maior número possível de seus integrantes – para ceias intermináveis. Como eram nove os irmãos apenas da linhagem paterna, a profusão de tios, primos, agregados e afins formava um mosaico de tipos interessantíssimo.

É claro que não havia entre nós nenhum asceta, abstêmio ou vegetariano, e como a tradição ítalo-portuguesa da família seguida à risca por mamãe exigia mesas tão fartas quanto se pode imaginar, o ambiente era simplesmente perfeito para quem gostava de comer, beber e rir muito com as histórias que se multiplicavam no ritmo das garfadas.

Nunca faltavam nestas ceias, que reuniam umas cinquenta pessoas, pernil, leitoa, cabrito, frango recheado, peru – este, pouquíssimo sedutor diante do resto – farofa, maionese, arroz, feijão tropeiro, molho de cebola (fantástica execução da minha mãe, capaz de elevar qualquer carne à categoria de iguaria), doces e compotas, pães, azeitonas, muitos queijos e toda a sorte de castanhas que se possa imaginar. Para beber, vinhos, champagne, cerveja, refrigerantes.

A preparação deste banquete exigia um certo esforço. Tudo começava com a encomenda de alguns dos assados na Panificadora Pucci, que os preparava à perfeição. Quem não reservava com antecedência, ficava sem. Leitoa e frangos eram feitos em casa, bem como os acompanhamentos, com exceção dos doces, comprados na Valdete.

O time das crianças dava a sua contribuição na preparação das castanhas. Num tempo em que o hipermercado mais próximo ficava em Ribeirão Preto e que supermercado em Franca era praticamente só o Granero, comer nozes e castanhas era um processo complicado. Você as comprava a granel – e com casca. Portanto, meu irmão, meus primos e eu passávamos tardes inteiras quebrando nozes, castanhas e avelãs uma a uma, removendo as partes não comestíveis e eliminando as “vencidas” ou “murchas”. Cada sacão de nozes com casca resultava em pouco mais de um pires das mesmas frutas prontas para comer. É claro que o esforço infantil em prol da causa do Natal não era em regime de dedicação excluiva. Tinha que sobrar tempo para brincar. E muito. De mocinho e bandido, de bicicleta, de cabaninha, gol de classe (ou melé, para os primos de São Paulo), bola e bet, e, claro, de fazer bolhinha de sabão.

Assim como comer castanhas, fazer bolhinhas de sabão era um processo complexo, artesanal. O dispositivo variava de acordo com o que tínhamos à mão. Podia ser canudinhos de plástico, vareta de bambu com um laço amarrado na ponta ou galhos de mamona. Para a mistura, doses generosas de detergente com água. Dava trabalho conseguir uma grande, reflexiva e bela bolhinha de sabão. Os mais hábeis conseguiam bolhas imensas, que flutuavam rumo ao infinito por longos segundos. Sempre morri de inveja de quem conseguia. No meu caso, depois de muito soprar, nunca obtive nada além de umas pelotas mirradas que desapareciam quase instantaneamente.

Por isso mesmo, quase morri de espanto ao chegar em casa uma noite dessas e encontrar meu filho, João, brincando na varanda com centenas de bolhinhas de sabão. A admiração instantânea com o belo espetáculo logo deu lugar a uma inquietação. Como uma criança de dois anos e meio conseguia fazer sozinha centenas de lindas e perfeitas bolhinhas de sabão?

A explicação estava nas mãos do João. Uma “metralhadora” de plástico, presente da tia, havia transformado meu filho num exímio atirador capaz de alvejar qualquer um com seus lúdicos projéteis. É tudo automático, inclusive o “pente de balas”. No caso, um refil com uma mistura que produz bolhinhas uniformes. É só inserir o refil e disparar. Não faltarão bolhinhas reluzentes.

Neste Natal que passamos, como quase sempre, no rancho, João incorporou mais uma arma ao seu arsenal. Desta vez, presente da vó Sônia, certamente com o objetivo secreto de se vingar de alguma traquinagem que eu aprontei na infância. Indiferente à capacidade infantil de torturar os pais com dispositivos sonoros, minha mãe presenteou João com uma pistola plástica que faz bolhinhas de sabão enquanto reproduz uma medonha melodia. João amou o presente, o que implica dizer que estamos todos obrigados a ouvir a maldita musiquinha sem interrupção. Mas as bolhinhas – e as risadas do João – são um belo consolo, ainda que minha mulher às vezes pareça estar à beira da loucura.

Vivemos outros tempos, em que festas de Natal e Ano Novo como as da minha infância são cada vez mais raras. As famílias encolheram. Todos têm menos irmãos, tios, primos. Hábitos saudáveis impõem ceias menos calóricas, ainda que a leitoa resista – felizmente – com bravura. Comer castanhas não exige qualquer esforço. Você encontra as mais variadas, limpas e prontas para consumo, em qualquer mercado. A Pucci não faz mais os assados de fim de ano, a Valdete de tantos doces morreu e criança nenhuma precisa de canudinho para fabricar suas bolhas de sabão. Bebe-se menos, come-se menos, reúne-se menos gente. Ainda que não seja pior, é sensivelmente diferente, de modo especial para quem viveu aquela época.

Por isso mesmo, quando vejo o João metralhando mãe, avó, tios e amigos com suas bolhinhas de sabão enquanto dança embalado por Michel Teló, ou quando penso na minha filha em Buenos Aires com a tia, trilhando seus próprios caminhos, sinto que mudou a escala, mas não a essência. Os personagens são sempre mais importantes do que os cenários. Feliz Ano Novo.

CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br
 

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