Faz 29 anos


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Em 1983 a Francal seria realizada em São Paulo. Deixara o berço, crescera e iria para o grande centro

Junto com a Couromoda e a Fenac era responsável pela divulgação do setor coureiro-calçadista e atraía comerciantes do Brasil inteiro, além de importadores dos Estados Unidos e da Europa. Foi perda grande para os francanos. Operários e industriais se orgulhavam dos produtos expostos e, durante sua realização, havia como uma grande festa na cidade.

No espaço ao lado dos pavilhões – depois de ser realizada no esqueleto da construção do atual prédio da sede da prefeitura; no Palmeirinhas e na Ceagesp, foram especialmente construídos dois pavilhões longe do centro – havia parque de diversões, shows com artistas famosos (um dia eu conto da Fafá de Belém que contratada veio, mas achou por bem dar os canos e foi embora, escondida), havia barraquinhas que vendiam de produtos de couro a maçã do amor e ainda oferecia lazer infantil durante o dia. Tudo acontecia ali, naquele espaço, por quase duas semanas.

À noite, as festas. Jantar no Decolores, na casa da dona Tizira, na Chácara do Samello. As esposas dos industriais desmontavam suas casas para montar os estandes das fábricas dos maridos: não se dispunha de mão de obra ou de material especializado para isso. João Batista de Lima, Luiz Neto, sr. Américo Pizzo, Miguel Bettarello e Carlos Brigagão, já envolvidos com a organização e direção da feira, sumiam de casa até a big festa terminar. As esposas dos dois últimos, muitas vezes dormiram na madrugada sobre toscos cobertores nos pavilhões ao acompanhar os maridos durante o período da montagem ou ajudar no que fosse preciso. (Frio de matar!).

Miguel Bettarello vislumbrou o futuro, se entendeu com a diretoria e levou a Francal para São Paulo, onde havia infra-estrutura para a feira de calçados não definhar: hotéis, restaurantes, lazer, facilidade de locomoção, aeroportos. Perdeu-se muito em alguns aspectos, como o burburinho urbano, mas a mudança acelerou o crescimento da própria Francal Feira e da empresa de mesmo nome hoje responsável pela realização de outras feiras tão importantes quanto a célula inicial. Naquele ano, a Francal seria realizada no Hotel Hilton, nos moldes das feiras americanas.

Horas antes do coquetel de abertura, que seria no próprio hotel, uma quase tragédia. Corredores e quartos foram invadidos por fumaça que ninguém sabia de onde vinha: incêndio? Hóspedes desceram as escadas internas apavorados. Gritaria, confusão, choro. Desci vinte e seis andares correndo, apavorada, sempre com medo de encontrar o foco do incêndio imediatamente no andar de baixo. Não era nada grave: apenas entupimento da chaminé da cozinha. Subi e não desci mais por dois dias. Não parava em pé, com náusea e estranho intumescimento na barriga. Discreto sangramento vaginal. No terceiro, fui levada para o médico do hotel que me examinou, fez perguntas e com tranquilidade deu o diagnóstico dividido em quatro: ‘Você está grávida. Com risco de aborto’. Desconheceu meu espanto e continuou: ‘O bebê nasce no começo de janeiro. Ligue para seu ginecologista’. Poderia ter ligado, mas fiquei estupefata por algum tempo.

Passado o assombro, o medo: nem sonhava com mais um filho. Os outros eram crescidos, sabia da trabalheira, temia começar tudo de novo, a partir do enxoval. De repente, ficamos todos grávidos e começamos a adorar a idéia de bebê novo em casa envolvendo fraldas, choro, mamadeiras, papinhas, parque infantil, portas trancadas, escadas protegidas, febres, diarréias, catapora, sarampo. Dia 24 de dezembro encontro com amiga no centro da cidade: para quando? perguntou. Acho que Nossa Senhora e eu teremos bebês no mesmo dia, respondi. Mas não, ele ficou quietinho. Aí outra amiga me emprestou lindo vestido preto, preparava-me para o réveillon, quando no dia 29 de dezembro, às 17 horas, ele chegou para nós e fez a diferença. Nossa vida mudou. Faz vinte e nove anos hoje.

TRANSFORMAÇÃO
O bebê transformaria toda a dinâmica de casa. Sua chegada, coincidente com o início de novo ano dois dias depois, causou em todos nós as mais diversificadas, conflitantes e prazerosas emoções. À de seu nascimento, que materializava e antecipava a renovação familiar pela qual passaríamos, juntamos a esperança e total mudança de nossas expectativas com relação ao Ano Novo. Aquele bebê saudável e risonho era 1984 que batia à nossa porta pedindo acolhimento, disposição, coragem, aceitação, trazia alegrias insipientes, prováveis angústias, dando-nos a certeza da necessidade de adaptação às mudanças provocadas pela nova configuração da família. Desde então tornou-se inevitável associar a chegada do bebê às emoções da mudança de ano. Daquele, e de todos os anos que se seguiram.

VOLTA
Espetáculo que acontece de trezentos e sessenta e cinco dias em trezentos e sessenta e cinco dias há muito – desde que o ser humano houve por bem dividir o tempo em períodos definidos, provavelmente para sua organização mental – o Ano Novo nada mais é que o início de mais uma volta que o planeta Terra dará em torno do Sol. É o mero movimento de translação transformado em poesia. As festas e as comemorações dizem mais respeito à necessidade humana de tornar mágico e promissor o prosaico momento para justificar a sensação de esperança que brota diante da suposta substituição do velho, pelo novo. De qualquer velho, por qualquer novo.

DESEJOS
De qualquer forma, amigo leitor, diante das minhas lembranças e analogias, peço licença para lhe desejar que o próximo período a ser inaugurado seja como um bebê rosado, saudável, cheio de energia, que chegue para transformar sua vida e lhe traga: 1. Dias felizes; 2. Sonhos realizados além de sua expectativa; 3. Alegria; 4. Maturidade + Consciência + Sensação de poder mudar além do seu entorno, nosso futuro; 5. O prêmio da Mega Sena. Feliz Ano Novo!

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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