Maria Goret Chagas. O nome pode ser associado a uma professora universitária aposentada; à mulher que pinta com a boca e os pés; a uma palestrante motivacional. Os títulos são múltiplos, mas a história é apenas uma: essa mulher nasceu para protagonizar um milagre digno de um conto de Natal. Concebida com os membros superiores e inferiores atrofiados, ela desafiou diagnósticos médicos e passou a andar. Foi além. Tornou-se uma artista plástica de sucesso tendo sua obra divulgada em mais de 70 países, deu aulas em uma universidade e promove palestras motivacionais por todo o País. Conheça a sua história:
A INFÂNCIA
Não muito longe daqui, em uma pequena cidade nos limites de Minas Gerais conhecida como Delfinópolis, uma garota especial foi motivo de felicidade no seio da família Chagas. Maria Goret chegou em 1951 e, embora ninguém pudesse imaginar, veio ao mundo para protagonizar um milagre. Seus membros nasceram atrofiados; pernas e braços não podiam se mover. Por esse motivo passou parte de sua infância sobre o balcão do comércio de seu pai, localizado na esquina de uma praça naquela cidade. Ali, quando já havia começado a andar, dentro de seus limites, rabiscava desenhos com os pés e a boca. “Às vezes eu também sentava no chão da calçada para ver o movimento... A garotada brincando. Que vontade de brincar!” Mas não se atrevia. Embora fosse sapeca, sua condição física foi motivo de bullying. “Algumas crianças judiavam de mim. Davam tapas, beliscões e saiam correndo... Até que aprendi a morder.” Seus olhos marejaram ao falar sobre essa passagem, mas sem ressentimento. Talvez solidariedade em relação a garota do passado.
Momentos difíceis? Com certeza, mas a vida lhe reservou também sorrisos. “Eu tinha um galo de estimação. Penteava sua crista, enrolava igual a uma boneca. E o melhor: ele ‘topava’!”
O cenário rural de Delfinópolis ilustra ternas lembranças. Os caminhos e trilhas da Canastra eram um mundo a ser explorado. “Da minha infância lembro dos passeios até às cachoeiras... Um Jeep cheio de crianças. A matula: frango com farofa. Havia muita alegria e a disposição incansável de meu pai.”
Além das brincadeiras, o estudo foi parte importante em sua história. Por dois anos Goret recebeu a visita de uma professora em casa. Alfabetizada e com condições intelectuais perfeitamente compatíveis com as das crianças de sua idade, a instrutora decidiu que era o momento de integrá-la. “Com boa vontade a professora Silvia adaptou em sala de aula, do modo dela, uma carteira para que eu pudesse escrever com os pés.”
O tempo que passou em sua cidade natal foi feliz, mas curto. Quando completou 10 anos, seus pais e os oito irmãos juntaram seus ‘santos e coisas’ e rumaram à Franca. Aqui Goret completou os estudos até o ensino superior. Formou-se em Letras, Educação Artística e especializou-se em semiótica.
O MILAGRE
Aconteceu quando Goret tinha 5 anos. Sua mãe preparava quitutes para celebrar a Festa do Divino Espírito Santo. “Eram os quitutes para a noite da festa. Durante o dia, apareciam vários pedintes e ela oferecia delícias como: bolos, rocamboles, doces, frangos... e assim ia organizando tudo. A festa duraria três dias.” No primeiro dia, Goret caiu enferma. Febre, dores terríveis nas pernas e uma afirmação atípica para uma criança de 5 anos. “Eu gritava: vou morrer ou andar.” Diante do quadro, os adultos determinaram que o melhor a ser feito era deixar a menina em casa. Ela não participaria da festa. “Quero ir! Eu esbravejava e chorava. Costumo dizer que ganhei no grito o direito de ir”, relembrou.
O nome da mulher que a carregou nos braços durante o grande momento de sua vida não poderia ser mais apropriado. “Estava no colo de Auxiliadora. A missão era dela. Me auxiliou durante a intervenção divina”, disse. “Gritei tão forte, me assustei... desci e andei... fui andando à procissão!” Para os médicos, nada que pudesse ser explicado. Para Goret, a prova viva de Deus.
AS CONQUISTAS
Em 1971 Goret ingressou no ensino superior e formou-se em Letras. Em 1975, voltou aos bancos da universidade e concluiu também o curso de Educação Artística. Não satisfeita, especializou-se em semiótica em 1980. Dedicou-se a lecionar durante 28 anos e, após aposentar-se, conheceu a Associação dos Pintores com a Boca e os Pés. “Tenho um contrato com a APBP. Mando de quatro a seis quadros para a Suíça todos os meses.” Essas obras tornam-se calendários e cartões que são distribuídos em 70 países. Além disso, as obras podem ser vendidas no exterior.
Inquieta, Goret se mete em vários projetos. Em 2008 lançou o livro Realize...Tudo O Que Seu Coração Deseja e hoje promove pelo País palestras de cunho motivacional. “As empresas me contatam através do meu site (www.artgoretchagas.com). Eu adapto o tema de minha palestra à necessidade do contratante. É um trabalho que tem dado muito certo”, afirmou.
A conquista mais recente de Goret será lançada no segundo semestre de 2013. Trata-se do livro A Estrela De Uma Ponta, financiado pelo Proac (Projeto Arte E Cultura - Governo Do Estado De São Paulo) e que terá uma tiragem de 10 mil cópias convencionais e mil em braille. “É um livro infantil com enfoque inclusivo através da arte. Biográfico, a estrela de uma ponta é, metaforicamente, o referencial da inclusão, ou seja, a minha vivência como deficiente diante da vida superando, com sucesso, os limites.” As ilustrações foram feitas pela autora com o pé e a boca. As cópias serão distribuídas, sendo proibida a sua comercialização.
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