Na lousa de uma das mais de 30 salas, ainda resiste ao tempo a última lição de matemática. No pátio que foi palco de brincadeiras e descobertas, as plantas tomam conta do concreto e das paredes. Onde um dia funcionou a pré-escola, hoje só restam lembranças. Um dos prédios mais antigos do Centro de Franca está sendo demolido.
O edifício de dois andares na rua Campos Salles, que já abrigou uma das primeiras escolas técnicas da cidade, o IFE (Instituto Francano de Ensino), o Ateneu Francano, começou a ser destruído há cerca de um mês. Um dos pavimentos com pelo menos oito salas de aula já não existe.
Preocupado com o destino que terá o prédio, um grupo de artistas, comerciantes e ex-alunos resolveu apelar à internet para pedir ajuda. A ideia é parar as obras de demolição e convencer o poder público municipal a desapropriar o prédio para a instalação de um centro de cultura ou educação.
O movimento começou assim que as obras de demolição tiveram início. “Eu estava trabalhando aqui um dia, quando comecei a escutar um barulho forte vindo do prédio. Quando fui ver, vi que eles estavam destruindo uma parede. Achei uma pena”, disse o comerciante e ambientalista Christian Mehdi.
Ele comentou com alguns amigos sua indignação e logo ganhou apoio. “Eu sou carioca. Vim para Franca há um ano e me apaixonei pela cidade. Acho esse prédio lindo e fiquei mesmo triste em ver ele sendo demolido. Quando comentei com o pessoal, todos se indignaram. Então resolvemos fazer a petição pública.”
O documento está registrado no site Petição Pública Brasil, na internet (http://www.peticaopublica.com.br/ PeticaoVer. aspx?pi=P2012N33099), e pode ser assinado por qualquer pessoa. Nele, o grupo pede o fim das obras no prédio e sua preservação como patrimônio histórico da cidade. Até o início da noite de ontem, 81 pessoas haviam assinado o documento.
Além do site, o movimento também tem sido divulgado nas redes sociais. “O que queremos mesmo é chamar a atenção da população para a necessidade de preservar a história da cidade. Esse prédio está abandonado. É verdade, mas preferimos o abandono do que o fim, a demolição”, disse Mehdi.
Segundo os vizinhos e trabalhadores da demolição, o prédio, que está abandonado desde o final da década de 1990, deve ser transformado em um mini-shopping com estacionamento. “Não precisamos de mais um ponto de comércio. O que a cidade precisa é de lugares que fomentem a cultura, a educação e a arte. Esse espaço seria perfeito para isso.”
O produtor de arte Murilo Aleixo é um dos que apoiam o movimento. “Eu cresci neste prédio. Meu pai era professor de educação física do colégio que funcionou aí. Quando era criança, vinha acompanhá-lo no trabalho. Depois comecei a estudar. Fiquei nesta escola até os 10 anos e visitar o prédio agora sendo demolido é muito triste. Sinto como se estivessem apagando um pouco da minha história.”
A comerciante Cacá Bordini também estudou no prédio e hoje mantém um brechó ao lado do edifício. “Olho para o prédio e me lembro de quando corríamos pelos corredores. Fiz muitos amigos aí que carrego até hoje. Não queria que esse prédio se transformasse num estacionamento. Ele tem um valor muito grande para mim.”
Na Prefeitura, o registro ainda consta no nome dos antigos proprietários do prédio, que o venderam há mais de 20 anos. Ninguém soube informar o nome dos novos proprietários.
Segundo o grupo, a ideia agora é levar o caso para o Condephaat (Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Arquitetônico e Artístico) de Franca para pedir o tombamento do edifício. “Lançamos esse movimento para ver se conseguimos impedir essa demolição. Agora, o próximo passo é lutar para a preservação”, disse Christian Mehdi.
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