A história começou assim...
A irmã que mora no sul escreveu e mandou sugestão para ser copiada: seu filho, professor de Informática, encontrara aplicativo no qual Papai Noel em ‘carne e osso’ aparecia, conversava diretamente com uma criança – no caso, Júlia, a sobrinha. Dava-lhe as boas-vindas, mostrava-lhe o livro com sua fotografia, fazia referências à sua personalidade, temperamento, idade.
A impressão é que ele realmente acompanhava no cotidiano a menina – como afirmava no vídeo – ao cumprimentá-la pelo bom comportamento durante o ano, ao convidá-la para ir até a oficina a fim de mostrar seu presente, que já estava pronto, e a rena que estaria sendo treinada para fazer o transporte dele e dos presentes na Noite de Natal. Fiquei entusiasmada.
Com a ajuda do caçula produzi vídeo idêntico para o neto Lucas que, como Júlia, é inglês nativo. Peguei a foto dele, escolhi as opções para tornar mais crível a fala do ‘Santa Claus’. Conferi a obra. Estava perfeita. Mandei o vídeo para os pais do Lucas e fiquei, ansiosa, esperando o efeito. Foi semelhante ao do tsunami.
Lucas ficou extasiado diante da tela. Papai Noel ‘conversa’ com ele, diz-lhe que está crescido nos seus seis anos, que sabe que ele ‘tem se esforçado para ser um bom menino’, inclusive comendo ‘tudo que sua mãe põe no prato’.
Ele viu a primeira vez, mudo. Na sexta ou décima vez – hoje os pais contabilizam umas oitocentas – começou a comentar, admirado: ele sabe onde moro! Ele pegou o ‘meu’ livro na biblioteca que estava perto do livro da Melissa, que estuda na minha escola e o do Daniel, que está na minha classe! (Há a cena onde o Papai Noel vai até imensa biblioteca e ‘retira’ da prateleira o livro encadernado em cuja lombada está escrito Lucas (virtualmente), a mesma onde estivera o nome de Júlia, entre o de ‘Melissa’ e ‘Daniel’ - estes, nomes permanentes.) O primo de Lucas, Oliver, da mesma idade, que o visitava então, ficou inquieto: ‘E para mim? Ele não vai mandar para mim?’ Alguém respondeu que sim, com certeza mandaria: o Papai Noel não devia ter o e-mail do pai dele, ao que o garoto completou: e nós mudamos da Nova Zelândia para cá, ele está confuso, não sabe onde estou!’ Todos confirmaram.
Os pais de Oliver foram dormir tarde produzindo o vídeo porque a angústia do filho era maior que o sono deles. Lucas sumiu e, quando achado, estava no banheiro, pijama sobre a cama, tentando abrir o chuveiro para não ‘dar trabalho para os pais e mostrar que é, mesmo, um bom menino, para Papai Noel’. Para quem geme, chora, resiste às ordens, faz a mãe descabelar com teimosia e preguiça em comer, este foi grande passo em direção à organização pessoal e doméstica. Fiquei emocionada enquanto minha filha contava a reação do filho. Fiquei comovida com a inocência, com a credulidade, com a capacidade demonstrada de acreditar no sonho, como só as crianças possuem. Se o espírito de Natal foi deturpado ao longo do tempo; se os adultos usam a data para comércio e lucro; se os próprios cristãos não percebem que é época de parar, refletir e mudar diante de tudo que significa a figura de Jesus, o aniversariante; se há pessoas que se aproveitam da data para botar para fora a angústia acumulada durante o ano todo e, ao invés de alegria, júbilo e renovação como propósitos diários que possam fazer do Natal data permanente dos outros trezentos e sessenta e quatro dias sentem tristeza e choram; se a bondade e delicadeza no trato com o semelhante estão escassas e quase desaparecidas ... ainda restam as crianças que acreditam, sonham, aguardam, têm esperança e confiam.
DESEJO
Que a criança esquecida, mas latente em cada um de nós, desperte nesse Natal. Que possamos abrir nossos corações para a alegria e para compartilhar a felicidade – de tamanhos diferentes e em suas formas individuais. Que a esperança de conquistar a felicidade – seja ela qual for e de acordo com significado pessoal – volte a morar junto de cada adulto. Feliz Natal!
LINK
Se houver interesse – ou curiosidade em conhecer o aplicativo citado –, acesse http://www.portablenorthpole.com/watch/gj1tpJ0gnP1hqsD6s4WyOsg e, a partir dele, produza outro com o nome e foto da criança que você quer homenagear. Há duas versões: com a mensagem em inglês ou francês. Infelizmente não disponho de outra, em português. Mas acredite no seu filho, ou sobrinho, ou vizinho mais moço, que ‘sabe mexer no computador’: eles já nasceram sabendo o funcionamento da maquininha...
PROTOCOLO
Todos os anos, desde que nasceu, Lucas prepara a sala na noite de 24 de dezembro para a visita do Papai Noel: põe uma mesinha com toalha em frente à lareira. Sobre ela, o copo de leite e o bolo recheado com passas e chocolate – comprado no supermercado – destinado exclusivamente ao ilustre visitante que virá durante a noite; coloca uma cenoura escolhida a dedo; guardanapos. Papai Noel vem, come a metade da fatia de bolo, toma metade do leite. A rena do trenó come a metade da cenoura. São muitas as casas onde eles passam, não podem comer tudo numa noite apenas. Deixam os presentes, e vão embora.
DESMENTIDO
Concordo, é mentira o que contamos às crianças sobre a existência de Papai Noel. A neta de oito anos essa semana questionou a mãe: é verdade ou não é? Ele existe ou não? A mãe, com habilidade, desmentiu. Não, não existe. É fantasia que contamos às crianças para tornar a data ainda mais mágica. Luzes, colorido, Papai Noel, renas, trenó. Tudo isso para fazer crescer a expectativa do presente. Ela, desapontada, pontuou: ‘Nossa! Que coisa mais chata e sem-graça ficou o Natal!’. Nem sempre a verdade é bem-vinda.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.