‘Se não se passou pela obrigação absoluta de obedecer ao desejo do corpo, isto é, se não se passou pela paixão, nada se pode fazer na vida’
Marguerite Duras, escritora e cineasta francesa
A menos que você tenha passado os últimos meses em coma profundo, jamais converse com mulheres ou more numa ilha deserta, é praticamente impossível que você não saiba alguns detalhes sobre o tórrido - e pouco convencional - relacionamento que une Christian Grey e Anastasia Steele.
Se você acabou de sair do coma, vive num ‘Clube do Bolinha’ ou é um eremita, aqui vai o essencial. Christian Grey é um empresário de 28 anos, bonito, inteligente, educado, sedutor, atencioso, articulado, bem-sucedido, dominador e muito, muito rico. Ganha R$ 200 mil - por hora. Mora numa cobertura envidraçada de 630 metros quadrados em Seattle, fria capital do estado de Washington, no norte da costa oeste americana, fronteira com o Canadá. Tem muitos brinquedinhos - de jato que faz questão de pilotar a um Audi R8 Spyder para dirigir por aí. Anastasia tem 21 anos e estuda literatura na Universidade de Vancouver, no Canadá, onde vive. É uma morena interessante, mas não especialmente linda. Tem a pele clara, grandes olhos azuis, é muito magra e, apesar de ter morado em Las Vegas, nunca teve namorado e continua virgem. Ou, mais precisamente, continuava até conhecer Grey. O relacionamento começa com uma forte e recíproca atração, passa por muito sexo - com direito a fetiches e práticas sadomasoquistas de toda sorte - e termina , claro, com final feliz.
Seria tudo perfeito, a não ser por um detalhe. Christian e Anastasia não existem a não ser na literatura - e, muito em breve, nas telas do cinema. Os dois são personagens da trilogia Cinquenta tons... (de Cinza, Mais Escuros e de Liberdade), romances escritos e publicados pela autora britânica Erika Leonard James ao longo dos últimos meses.
O sucesso é global. Até agora, foram vendidos 40 milhões de livros em 37 países. É um feito, mas não é só. Cinquenta Tons... transformou-se em fenômeno social. Pauta conversas, inspira - ou aniquila - relacionamentos, alimenta sonhos, promove discussões. De quebra, inaugurou um novo gênero na literatura, o ‘mummy porn’, ou pornô para mães, livros com conteúdo erótico para quem já deixou a adolescência.
É muita coisa, especialmente se considerado que a obra marca a estreia da romancista, uma discreta inglesa que antes de se aventurar pela literatura era uma produtora de TV sem qualquer brilho. E que, pelo menos em Cinquenta tons..., não demonstra muita preocupação com o esmero da linguagem ou com a profundidade dos personagens. Despretensioso, não foi escrito por intelectual nem pretende ser mais do que é. Talvez por isso, funcione tão bem.
Quanto ao enredo propriamente dito, não é preciso ser gênio para concluir o óbvio. Cinquenta tons... agrada porque é uma versão atualizada - e bastante apimentada - dos clássicos contos de fadas. Num mundo de relações frívolas e superficiais, onde os homens desaprenderam como tratar uma mulher, um livro que mostra um sujeito bem-sucedido, bonito, inteligente, que diz coisas relevantes, sabe seduzir e corre atrás do que quer preenche o vazio dos maltratados corações - e corpos - femininos. Por isso mesmo, o livro faz tanto sucesso entre as mulheres.
No mundo de hoje, homens que convidam uma mulher para sair e pagam a conta são cada vez mais raros. Isso nada tem a ver com capacidade financeira. Se o sujeito não pode pagar a conta do restaurante, que leve a mulher para comer pizza, mas arque com a despesa. Se ainda assim for caro, que compre esfiha na padaria, mas não peça o papel para, caneta em punho, dividir o valor por dois. É antes de tudo gentileza, atributo cada vez mais raro. Vale o mesmo para a incapacidade masculina de elogiar sua mulher/namorada/ficante ou o quer que seja, de reconhecer seus talentos, de enaltecer quando ela se esforçou para ficar linda. Some-se a isso a dificuldade masculina atual de decidir. Os homens não sabem mais pedir um vinho ou escolher o prato de quem os acompanha, desaprenderam de fazer surpresas, não sabem definir um roteiro de viagem, escolher um presente ou mandar flores. Tanto pior, não sabem mais ouvir. São tão independentes que ficaram inseguros - e toscos.
Christian Grey não tem nenhum desses problemas. É assertivo, educado, inteligente, gosta de dar presentes, sabe elogiar - o que não quer dizer que seja desprovido de defeitos. Mesmo porque, se fosse, não seria crível. Mas seus problemas - o principal deles, gostar de praticar sexo sadomasoquista no famoso ‘Quarto Vermelho da Dor’, o que, convenhamos, nem chega a ser um drama desde que seja consentido e com limites - não eclipsam sua capacidade de encantar e seduzir, o que funciona na ficção com Anastasia e na vida real com suas milhões de fãs.
Sim, todas as mulheres querem Christian Grey. São tantas que sei tudo isso sobre ele e Anastasia sem ter lido uma única linha dos livros. Nas redes sociais, nas conversas com amigas e conhecidas, nos artigos em jornais e revistas, é impossível passar incólume. Há algumas leitoras, mais apressadinhas, que já venceram os três volumes e que agora estão órfãs de Christian Grey. Sentem falta do príncipe que as acompanhava nos sonhos enquanto o sapo dormia ao lado. Num mundo cada vez mais árido e esquisito, o homem que faz a cabeça das mulheres é obra de ficção. É a vida, sempre engraçada.
PS: encomendei a trilogia para mim. Pelo sim, pelo não, acho melhor conhecer com mais detalhes Christian Grey. Com sorte, dá para aprender alguma coisa e evitar que minha mulher, ao olhar para o lado à noite, veja um sapo na cama.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br
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