Voltaria sim, para cá


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Seria diferente se a cegonha que me trouxe ao mundo não tivesse confundido Franca com França naquele endereço ao qual estava destinada

Diferente, não necessariamente melhor. Eu teria nascido no final da Segunda Guerra, pegaria racionamento, viveria processo de reconstrução do país, iria para a escola e falaria o francês que eu sonho falar. Não teria que me deslocar por sobre um oceano inteiro para, sem a frequência aspirada, andar pelas ruas da Ilê-de-France, Côte D’Azur, Picardie – que conheci recentemente, Normandie, Alsace ou de Auvergne. Talvez eu cruzasse nas ruas com o Alain Delon, com Charles Aznavour. Ou Jean-Paul Belmondo, sei lá. Poderia ir ver ópera, todo ano. Toparia trabalhar como bordadeira da Maison Chanel, empacotadeira de joalheria na Plâce Vendome. Quem sabe? Frequentaria os cafés e nas mesas leria jornais diariamente, perto de Jean-Paul Sartre: teria sido sua amiga? Seria conhecidíssima no Museu D’Orsay e faria piquenique todo domingo na Plâce des Vosges. Levaria um vidão, eu acho. Ah! Moraria em Montmartre. Fui trazida para Franca. Muito menos charme, concordo, mas também divertido. E muito bom.

Abordam-me sempre, o que me deixa honrada, para comentar que tenho boa memória, que conto casos, que provoco desejo em leitor, ao ler reminiscência que resgato, pôr-se a pensar nas suas próprias. Todo mundo tem lembranças, todo mundo tem passado. A diferença, é que gosto da minha vida. Tenho prazer em me lembrar das coisas que fiz, que não me envergonho de admitir que se fui deusa algumas vezes, fui bruxa em outras tantas. Que tive vida simples, que sou filha de bancário e boleira, que estudei em escolas públicas, que privo da amizade de gama extensa e variada de pessoas desde quando passei a admitir as diferenças e experimentar seu doce sabor. Ou desde que parei de procurar culpados pelas mazelas e admitir que sou a única responsável pelas minhas escolhas. Então comecei a gostar de viver aqui. Em assim sendo, consigo ver minha cidade sem hipocrisia, sem lamentar que ela seja assim ou assado, sem criticar seu atraso com relação a outras do mesmo porte e origem parecida. Aí passei a gostar daqui, a não desejar
viver em outro lugar, a ter saudades quando me afasto e a lutar para modificar nela, aquilo que me incomoda.

Franca tem clima privilegiado. Tem brisa que sopra com constância e balança as cortinas de casa, galhos de árvores e inspiram canto de sabiás e bem-te-vis. E imagino que seja para mim. As paisagens que a cidade oferece são lindas. Do Aeroporto, consigo ver as montanhas verde-azuladas lá para trás de Patrocínio Paulista e imagino que dentro em breve nossos limites se confundirão. Lá no final da avenida Brasil, lá depois do Jardim Panorama, consigo avistar os morros de Claraval, reproduzidos magistralmente por Cariolato em uma das aquarelas com as quais me presenteou em meu casamento. (Se morasse em Paris, nem Picasso, nem Dali, nem George Mathieu me dariam presente assim.) Franca é cidade hospitaleira? Nem tanto. É desconfiadíssima. Só depois que mede, avalia, bajula, experimenta, apalpa e testa o recém-chegado é que completa o ‘apareça-lá-em-casa’, e fornece o endereço.

Franca mudou? Bastante. Era mais provinciana do que hoje se mostra. Moralista? Demais. Porém, convém analisar se isso não seria reflexo daquilo que projetamos nela. É terra de trabalho – antes das cinco da manhã as pessoas já se locomovem. E, benza Deus, tem o pôr-do-sol no Inverno mais lindo do mundo, de deixar o do Caribe com inveja e pálido, pálido. Aqui nasci, vivi, tive filhos, plantei árvores, tive amigos, amei e fui amada, criticada, dei minhas mancadas e é onde, um dia, alguém se incumbirá de jogar minhas cinzas. No Córrego dos Bagres. E, se tiver outra vida, depois, não me importarei de ser trazida para cá, de novo.

O MELHOR DE FRANCA?
Gritante: o amor dos francanos pelo esporte. A esperança renitente de sucesso e o incentivo ao time da Francana. A adoração ao basquete. Os trabalhadores, e o recente fenômeno da diversificação da indústria francana: sapatos masculinos, femininos, infantis, bolsas, lingeries, perfumaria, doces. Diamantes.

O INCOMPREENSÍVEL?
Memória curta. O abandono de locais como o Museu Histórico. A homenagem a Regina Duarte e o mudismo com relação a figuras importantíssimas que construíram a cidade, como Alfredo Palermo.

O MAIS BONITO?
A solidariedade do povo francano. Geral e irrestrita.

CARACTERÍSTICA POSITIVA?
Capacidade de trabalho do povo e adaptação ao novo. Jogo de cintura.

DEFEITO?
O quêzinho de inveja, manifesto nas cópias e nas imitações – de produtos, atitudes, reconhecimento, idéias, composições.

ORGULHO?
Dos músicos francanos – antigos e novos. Do talento francano para a literatura. Dos artistas francanos em geral. De vários francanos, em particular.

VERGONHA?
A rotatividade e a impermanência de livrarias da cidade.

SAUDADE?
Das sirenes no passado, nas fábricas de calçados anunciando o começo e o fim das atividades nas mais de trezentas e cinquenta unidades que foram desaparecendo com o tempo.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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