Não, não volto


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Estávamos na cozinha, a pergunta caiu sobre a mesa feito massa de pão, gorda e pronta para ser moldada. ‘Você não gostaria de voltar a lecionar?’

Surpreendi-me quando respondi no bate e volta: ‘Não! Não suportaria conviver com pais de alunos.’ Não é a verdade completa, confesso. Não teria mais paciência para ensinar coisas básicas que foram delegadas aos professores, entre elas a simples utilização de expressões como ‘por favor’, ‘dá licença’, ‘muito obrigado’, ‘desculpe’, a bem da verdade em desuso há muito tempo, talvez antes da minha saída. Não tinha, e continuo não tendo paciência para explicar método e técnicas para fazer meu aluno pensar sobre ou questionar qualquer besteira que leiam ou escutem em casa, na sala de aula, nas rodas de amigos, nas revistas, jornais, televisão, ou nas igrejas que frequentam. Nunca soube bem o significado de tabu ou proibição e não estou com disposição para aprender agora.

Sinto saudades, sim. De alunos questionadores e assíduos como o Marcial, adulto, que assistia praticamente sozinho as aulas de sexta-feira que começavam às 20h30min e terminavam depois das 23h. Tinha o maior prazer em conversar com ele e alguns poucos que ficavam para assistir nossos debates: ele perguntava, trocava informações, falava do futuro. Pensava. Não esqueço do Raul, adolescente que, pego de supetão, declarou em voz alta, dentro da sala de aula, que ‘Filosofia era uma bosta, mas a professora era o máximo!’. Da Eneida, que me brindava com seus bilhetes líricos e emotivos. Da púbere, cujos pais se separaram e ela, inconformada, me escreveu sobre a preocupação com o pai: se ele adoecer, quem vai cuidar dele? Partiu-me o coração. Mas também arrepio quando lembro da mãe que levou o caderno de Filosofia para o padre de sua paróquia ler e concluir que eu estava subvertendo os adolescentes com idéias anti-religiosas, que eu era perigosa, nefasta e péssima influência para eles. Ou quando os pais vinham questionar a metodologia usada, se não era melhor eu ficar no feijão com arroz da filosofia ao invés de falar de mitologia porque as crianças, sabe? podem fazer analogias e isso é perigoso. Ora, desde quando pensar é perigoso? Desde quando não concordar se confunde com atacar a ideologia de alguém? Desde quando ensinar a não aceitar imposição é corromper? Desde quando questionar é arriscar-se à marginalização? Só em lugares subdesenvolvidos, mesmo.

Tentei, mas um dia abri as janelas do meu quarto que dá para o gramado verde, olhei lá fora, deu-me preguiça de voltar à batalha de driblar a ignorância, altercar com a mesmice e polemizar através da minha certeza de quando a gente dá exemplos e ensina, o aluno aprende.

Durante anos lutei para dar sentido e significado a palavras como Limites, Obrigações, Compromisso, Dever, Responsabilidade. É para trazer material? Não trouxe? Não entra em sala. Era para fazer pesquisa e não fez? Vai para a biblioteca e faça. Entregue após a aula. Fez qualquer trabalho mal feito? Apague e faça novamente. Entrego de qualquer jeito o material para vocês? Então não me obriguem a aceitar algo que não tenha sido feito com capricho e esmero. Não sei se eles se lembram dos assuntos de filosofia, mas aposto como aprenderam a exigir o máximo de si mesmos.

Não, não volto. Como Lili, do filme, penso que o que passou, passou. Foi bom, durou pouco, mas passou.

ORGULHO
Em 18 de novembro o maestro Nazir Bittar recebeu a ‘Láurea Mérito Cultural Maestro Carlos Gomes’, concedida pela Sociedade Brasileira de Artes, Cultura e Ensino Carlos Gomes, em São Paulo. Destacam-se, entre os laureados, os maestros Aylton Escobar, João Carlos Martins, Diogo Pacheco e Benito Juarez. Uma curiosidade, a sociedade foi fundada em janeiro de 1970 – ano e mês do nascimento do maestro. Parabéns, maestro Nazir. Franca tem mais um motivo para se orgulhar de você.

LIMITES
À Francesa. ‘As crianças devem dizer: olá, tchau, obrigada e por favor. Isso vai ajudá-las a entender que não são as únicas com sentimentos e necessidades. Quando elas se comportarem mal, use a tática dos olhos grandes – um olhar muito severo de repreensão. Lembre seus filhos de quem é o chefe. Pais franceses dizem: sou eu quem decide. Não tenha medo de dizer ‘não’. As crianças precisam aprender a lidar com alguma dose de frustração.’ (Revista Cláudia, março de 2012)

SORTE
‘Por um bom tempo, eu mesma acreditei, como todo mundo, que tive muita sorte. Mas hoje acho que sorte é uma mistura de preparo, obstinação, desejo e foco.’ (Grazi Massafera)

FERIADOS
O calendário inglês prevê vários holiday bank durante o ano. Mas o calendário francano de novembro supera qualquer expectativa de descanso no trabalho. Quatro diferentes dias de folga, estrategicamente colocados em cada uma das quatro semanas deste mês fizeram a alegria dos funcionários públicos, domésticos, operários e comerciais. A cidade parou, ladrões tiveram oportunidade ímpar de ação, o tempo colaborou e os ranchos se encheram, o comércio sentiu e Ribeirão Preto riu, de tanto contentamento.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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