O garoto do Cambuí


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Há seres humanos ruins, maus, com péssima índole e deficiências de caráter tão grandes que terapia - ou ‘política pública’ - nenhuma vaõ dar jeito
Há seres humanos ruins, maus, com péssima índole e deficiências de caráter tão grandes que terapia - ou ‘política pública’ - nenhuma vaõ dar jeito

‘Desde que alberguemos uma única vez o mal, este não volta a dar-se o trabalho de pedir que lhe concedamos a nossa confiança’
Franz Kafka,
escritor alemão


O Comércio publicou, no último sábado, detalhes da longa e conturbada relação de um garoto de 15 anos com os moradores do jardim Cambuí, na zona Norte de Franca. Diz a conselheira tutelar Rilda Dias, que acompanha o caso, que desde os cinco anos de idade há registros de problemas relacionados ao comportamento do garoto. ‘Ele não aceita regras e limites’, sintetiza.

Ao longo desta década, não foram poucos - e muito menos elogiáveis - os seus ‘feitos’. A sua ficha corrida é típica de marginal tarimbado. Ele é líder de gangue, autor de agressões, suspeito de envolvimento com furtos e acusado de invadir e depredar incontáveis vezes a escola pública ‘Maria Cintra Nunes Rocha’, onde estudou até o sexto ano. Desde a noite da última quinta-feira, incorporou mais um item ao seu vergonhoso ‘currículo’. Agora é também traficante de drogas. Foi preso em flagrante, ou mais precisamente em tempos de ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), ‘apreendido’. No Brasil, o políticamente correto criou esta distinção inócua. Maior de idade é ‘preso’, menor de idade é ‘aprendido’.

Tanto faz. O importante, para a população do jardim Cambuí, é que o garoto está fora de circulação, ainda que temporariamente. Ele foi ‘apreendido’ quando, durante patrulhamento de rotina, uma guarnição da Polícia Militar o avistou dentro de um boteco retirando um volume. Abordado, nem se preocupou em dissimular. Explicou que havia comprado a droga para ‘consumo próprio’ e também para revender nas proximidades da escola. Pagou R$ 50 por nove porções de maconha. Foi levado ao plantão policial junto com o dono do boteco. Com o flagrante, o garoto foi encamihado para a Fundação Casa e o fornecedor, para o CDP (Centro de Detenção Provisória).

Imaginar que um jovem de 15 anos esteja no comando de uma gangue que depreda escolas, furta residências, ameaça populares e trafica drogas é bastante desconfortável. Pior ainda é constatar que a triste história está longe de ser episódica. Acumulam-se casos de menores criminosos, em algumas vezes com acusações ainda piores como assalto a mão armada e assassinatos. Mas nada é tão nefasto quanto concluir que, por razões diversas, que vão da hipocrisia à inocência dos legisladores, a sociedade civil está absolutamente refém destes marginais precoces. Pouco - para não dizer nada - pode ser feito hoje para nos proteger destes garotos que, sob os auspícios de uma legislação que os livra de punições severas, roubam, aterrorizam, matam.

É parte intrínseca da alma brasileira uma vocação quase insana para a esperança desmedida, o que não deve ser confundido com o sempre bem-vindo otimismo. Mas o brasileiro típico mantém uma crença pueril permanente, em quaisquer circunstâncias, por pior que seja o cenário, por mais difícil que seja a situação, por mais grave que seja o delito cometido. Acreditamos que, por uma razão qualquer, as coisas amanhã vão ser diferentes, como num ‘milagre’. Que o bandido, ‘tocado’, vai se recuperar. Neste contexto, culpar ou atribuir responsabilidade é um ‘excesso’, quase uma crueldade. Parte-se da premissa de que todos sempre têm que ter ‘mais uma chance’.

Quando alguma coisa não funciona, a culpa nunca é do indíviduo. Se o sujeito rouba, mata ou trafica, é porque ‘não teve apoio’, ‘não foi compreendido’ ou ‘estimulado’. Negamos as características ruins das pessoas como se todos fossem bons, honestos e dignos na mesma medida. Não é assim.

No caso do menino do Cambuí, a conclusão da conselheira Rilda Dias, que merece todo o respeito pela dedicação e empenho, é um exemplo perfeito de como funciona a alma brasileira. Rilda acredita que o garoto do Cambuí é ‘vítima’ de uma família desestruturada, marcada pelo alcoolismo, e que a situação só chegou aonde chegou porque faltaram ‘políticas públicas’. O curioso é que a mesma conselheira afirma que ele já passou por neurologistas, psiquiatras, psicólogos, terapeutas e cursos diversos. Nada funcionou. Ainda assim, ela defende que a culpa é do ‘sistema’. Fico pensando no que mais o Estado poderia ter feito.

Não acredito na tese da conselheira. Sou bem mais fatalista. Há gente que não presta, simplesmente, e a psicologia tem inúmeros estudos que demonstram isso. Há seres humanos ruins, maus, com péssima índole e deficiências de caráter que terapia - ou ‘política pública’ - nenhuma vão dar jeito. Nasceram assim, muitas vezes com o agravante de terem sido piorados pelo ambiente em que se desenvolveram. Mas isso não signifca dizer que, ainda que tivessem famílias estruturadas e condições ideais, não seriam delinquentes. Não faltam exemplos de pessoas que cresceram na mais absoluta miséria e, adultos, se tornaram grandes homens e mulheres. Isso é a regra, não exceção.

Um pouco de pragmatismo não nos faria mal nenhum. Bandidos contumazes têm que ficar presos. Não para que melhorem, mas para que estejamos minimamente protegidos deles. Vale o mesmo para os marginais precoces. Quanto mais tempo este bandido de quinze anos ficar na Fundação Casa, melhor. No mínimo, para a tranquilidade da população do Cambuí, gente honesta que trabalha, luta e vive com dignidade. É a esses que deve servir a ‘apreensão’ do garoto. E é neles - e em todos nós - que o Estado brasileiro deveria prestar um pouco mais de atenção. Menos pena de bandido e mais respeito por quem vive com dignidade não fariam mal nenhum à nação brasileira.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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