O que temo, é a Saudade


| Tempo de leitura: 5 min

A cena está perfeita na memória. Sessão de análise, dezoito horas. Cheguei aturdida ao consultório médico

Recém operada para retirada de câncer da bexiga, o pavor de deixar minha vida boa, netos, filhos, irmãos, a grande família e amigos me baqueou. Fui lá em busca de conforto, de alento, de colo do meu terapeuta. Você está com medo de quê? ele perguntou. De morrer. (Fui curta e grossa). Ele me olhou espantado, ficou um segundo mudo, curvou-se para a frente e mais curto e grosso ainda, respondeu, como falando a uma menininha de cinco anos: mas você vai morrer. Você, eu, sua mãe, seu pai já foi, seus irmãos, o Papa, o Lula, seus amigos, seus conhecidos, seus filhos, familiares, marido, netos: a população inteira do mundo uma hora, vai.

Todo mundo vai morrer. É a única certeza que temos. Quando, onde, como e porquê, isso ninguém sabe. E essa é a angústia maior do ser humano. É por isso que ele tem enorme dificuldade de lidar com a morte, sendo-lhe mais fácil negá-la, de todas as formas - com a arrogância, com o desprezo por si mesmo e pelos outros, por exemplo. Ele não a entende e sabe que é imprevisível. E inexorável. A morte acaba com seu sonho de grandeza, de superioridade, de onipotência. Os cemitérios estão cheios de poderosos reis, vaidosos políticos, lindas mulheres, inteligentes cientistas, operários, trabalhadores, médicos, de gente boa, de gente ruim: a morte não poupa e leva todos.

Suavizar minha dor ou confortar meu coração, isso ele não fez. Apenas abriu meus olhos e me fez pensar sobre a morte de um prisma diferente. A valorizar mais a vida – que passei a considerar maior mistério, se isso é possível, todavia sem conseguir definir e muito menos entender a morte... Deve ser em decorrência dessa dificuldade, que as sociedades e suas diferentes religiões inventam reações diferentes ao Inevitável. No México, as festas em casa e nos cemitérios, que são vistas pelo estrangeiro como verdadeiro carnaval: cores, música animada, mariachis, tequila, comida, caveiras enfeitadas, bandeirolas de papel de seda picotado em desenhos artísticos. É farra, que se prolonga pela noite, dentro dos cemitérios. E em casa, claro. Consideram que nesse dia os mortos voltam para o reencontro com aqueles que amava e que foi obrigado a deixar. Assim, faz-se festa: não é assim que fazemos com aqueles que retornam? Mesas bonitas, rendas, prataria. Muita comida, muita música e muita bebida!

As contradições humanas me encabulam. A morte é passagem para uma vida melhor, afirma-se. Se é assim, qual o motivo de expressarmos nossa dor com desespero, na partida da pessoa doente ou com vida vegetativa ou em sofrimento? Isso não seria egoísmo? A morte é chamado de Deus. Se é assim, como nos revoltarmos ao desejo divino? Por que os que acreditam na vida após morte, se insubordinam e questionam, se vamos nos encontrar depois da nossa morte com todos aqueles que amamos na vida? Não sei responder. Não paro muito para pensar no assunto. Minha grande preocupação é viver aqui e agora, buscar a felicidade, não respostas, já que descobri, há muito, no que se refere a mim, que temo mais a Saudade que a própria Morte.

COSTUMES
Diz que havia dois túmulos lado a lado num cemitério. Um pertencia a uma família japonesa o outro, a uma família de ocidentais. Certo Dia de Finados as famílias foram homenagear os respectivos mortos, vizinhos de tumbas e que nem se conheceram em vida. Os japoneses levaram arroz , os ocidentais, flores. Um engraçadinho da família ocidental perguntou a um familiar do japonês quando é que seu morto viria comer o arroz ali depositado à guisa de consideração e respeito. O japonês, delicadamente, respondeu que seria quando o morto ocidental viesse cheirar as flores, que lhe foram oferecidas.

ONTEM
No passado, Dia de Finados era dia triste e de respeito. Era dia de recolhimento e contrição. As famílias colhiam flores – que floricultura não existia – nos seus quintais e jardins, cultivadas especialmente para serem levadas ao cemitério. Levavam-nas em silêncio e cabisbaixas. Nas rádios a programação constava apenas de músicas eruditas, executadas o dia todo, programação da manhã à noite. Acendiam-se velas nos túmulos considerados milagrosos e se algum vozerio de escutava no cemitério era o dos fiéis puxando o terço no da Maria Conceição de Barros. Ouviam-se choros baixinhos, lágrimas escorriam dos olhos dos familiares.

HOJE
No presente, Dia de Finados é feriado de se aproveitar. As pessoas dão uma passadinha no cemitério onde estão enterrados seus mortos, compram flores dos vendedores ambulantes que oferecerem três maços pelo preço de um e a maioria chispa para os clubes ou casas dos amigos. Se o dia cai numa sexta ou segunda, aí as pessoas emendam pra descansar nos ranchos ou dar uma viajadinha. À frente do cemitério tem pipoca, tem maçã do amor, tem artesanato, tem artigos da China nas barraquinhas. Atualmente apenas a natureza homenageia os mortos, de forma conveniente: os jardins cobrem-se de agapantos, mudas e roxas flores que se abrem exatamente nessa época.

CELTAS
‘A associação do dia de finados com tristeza pela lembrança daqueles que já morreram e os cemitérios lotados com a vibração que vai desde aqueles que fazem preces em silêncio até a histeria dos mais exaltados, tem origem bem anterior à citada pelo catolicismo. Sua origem mais provável é o povo Celta, que habitava o centro da Europa, mas entre o II e o I milênios a.C. (1900 - 600 a.C.) foram ocupando várias outras regiões, até tomar, no século III a.C., mais da metade do continente europeu.’ (Internet)

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários