Há tempo não vou a velórios. Cobram-me: estranhei sua ausência, você não era amiga de fulano ou fulana? Era. Muito. Admirava, curtia, tinha o maior respeito.
Tal resposta – sincera e verdadeira – consideram vaga porque não explica, muito menos me desculpa, nem me faz ser perdoada pelo que julgam falta grave. Só vou se meu comparecimento é inevitável, como quando faleceu minha mãe. A necessidade de contato com os irmãos, como que me obrigou a ir e o atordoamento me fez alheia, muito alheia naquelas horas. Quando eu morrer, se alguém for ao meu velório será por pura gentileza aos familiares que ainda cumprem esse protocolo. Não espero retribuição do gesto, outrora chamado de gentileza social. Se faltarem lamentações, terão que contratar carpideiras: se não for o trabalho delas, serei um defunto sem choro, mas também sem conversa em torno.
Não sou religiosa. A morte para mim tem significado sim, mas no meu ponto de vista nada místico, voltaremos a ser simples átomos que lá um belo dia se juntarão para formar novos seres, vivos ou inertes. Cultivo a lembrança e a memória dos que partiram, choro de saudade antecipada, percebo que sentirei falta deles e isso dói. Lamento quando o fim é precoce, fico me perguntando: se é pra desfazer, por que é que fez? Não entendo o motivo do sofrimento de pessoas bondosas, generosas, caridosas quando escutam o ‘chamado’ e a permanência neste mundo de tantos bandidos, assassinos, pedófilos e ladrões. De meliantes, em geral. Isso não vem ao caso. Isso é meu, como é a decisão de não ir a velórios.
Sou pessoa de mil atividades, todavia arranjo tempo para ver quem eu amo, telefonar, ir à casa de pessoas queridas que têm dificuldade de locomoção e jamais cobrei retribuição desses gestos de aproximação. Daí não precisar de comparecer a velórios para botar o papo em dia com ninguém. Aliás nem acho que seja boa ocasião para contar casos de família, gracinhas de netos, sucesso dos filhos, rever conhecidos, falar mal do governo ou das empregadas, trocar receitas, contar piadas, prospectar resultado das eleições, descrever a roupa ma-ra-vi-lho-sa que acabou de chegar na boutique tal, avaliar roupa e bolsa da última que chegou, falar mal de alguém – presente ou ausente. Velório não é reunião social. Nas raras vezes que fui, achei falta do garçom passando champagne ou salgadinhos, tal a tranquilidade dos e das que fizeram o que eu me recuso a fazer: ir para marcar presença.
O momento doloroso da despedida inexorável é hora de meditação, de silenciosa solidariedade. No mínimo calar a boca, pensar na pessoa que nunca mais será vista, que não mais respira, não mais dá risada, não mais padece de dores, não poderá escolher mais nada, ir a lugar algum. Será sepultada. Será cremada. E estará, para sempre longe de qualquer abraço. No caso dos amigos, é hora de dizer adeus e reavivar lembrança dos bons momentos desfrutados, de algo que tenhamos aprendido com ou através dele. Agradecer-lhe as oportunidades de ficarmos um pouco melhores, pedir-lhe perdão e até de perdoar-lhe alguma falta cometida contra nós, porque quem morre não vira santo de imediato. Era – apenas e lindamente – um ser humano e merecia respeito. Embora corpo sem vida, continua merecendo respeito.
Não vou a velórios. Fico em casa, penso na pessoa que morreu, passo um filme na memória de experiências e convivência e, mesmo se não tivemos contato mais próximo – penso nela com carinho. Colho uma flor, ponho numa jarrinha em sua lembrança. Não raro, choro. Mas não vou àquelas salas.
Recuso-me: falta-me uma pitadinha de nada de paciência, para – quando for porque ‘compelida’ – dar um grito, mandar todo mundo calar a boca e mostrar o mínimo de reverência e consideração para com a pessoa que dizem estar velando e para com a família que sofre.
Justifico-me, assim, para quem ‘sentiu minha ausência’ no velório recente de queridíssima amiga. Não fui, por respeitá-la e amá-la muito. Minha compaixão e apoio à família serão demonstrados do cotidiano que se segue, que é por demais triste.
ASPAS
‘Encontrei hoje nas ruas, separadamente, dois amigos meus que haviam se desentendido. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro. Mas cada um via uma coisa diferente, e cada um portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.’ (Fernando Pessoa)
MEDICAMENTO
O inventor do revolucionário antibiótico – indicado para a cura da Síndrome da Deabra (Desesperança e Apatia Brasileira), estará na lista de candidatos ao Nobel do próximo ano. O medicamento, batizado de Barbosacilina, deve ser usado em doses homeopáticas mas constantes, e se mostra absolutamente eficaz contra Falta de Caráter, Pouca Vergonha, Bandidagem e Certeza de Impunidade. Dizem ser tiro e queda.
CINZAS
Por todos os lugares há alguém com os olhos fixos em um dos três volumes dos Cinquenta Tons de Cinza. Li a resenha, vi o livro exposto nas livrarias inglesas, francesas, brasileiras, acompanho seu sucesso na lista dos mais vendidos. Mas não tive a menor curiosidade de ler ou me inteirar mais profundamente da temática. Amor desesperado e fora dos padrões cansa minha imaginação. Já acho difícil simplesmente amar – as distorções não me atraem, embora possa entender (e respeitar) as escolhas alheias.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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