Dr. House, do seriado americano, faz-me lembrar do pediatra ribeirãopretano dr. Luiz Carlos Raya, com quem convivi de perto durante os quatro primeiros anos do meu segundo filho
Ambos, competentíssimos. Ambos, sagazes. Ambos sarcásticos e intolerantes: House com os adultos em geral; Raya com as mães particularmente. Lembro-me de cenas antológicas atribuídas a ele. Nenhuma coloca em dúvida sua capacidade, seriedade, habilidade e dedicação. Todas revelam seu lado negro, se é que se pode chamar assim, da impaciência com besteiras das quais as mães frescas são exemplos. Não foram poucas as vezes em que ele me esperou, à porta do hospital em Ribeirão Preto, durante a madrugada. Meu filho desidratava num piscar de olhos, tínhamos que correr para lá, em busca de recursos que Franca na época não possuía. O cotidiano do consultório dele, era porta de saída de mãezinhas enfurecidas com suas respostas atravessadas.
Certa vez, uma delas, de primeira viagem, entrou na sala com o filhinho saudável mas não gordo, não tanto quanto ela queria. E era moda na época. Chegou reclamando: ele não come! Dou tudo que é gostosura, ele não come. Verduras? Come. Frutas? Também. Mas não gosta de sorvete, não come doce, ele é diferente das outras crianças: ele não come. Carne? Come. Arroz, feijão? Come! Mas só um pouquinho, está magrinho! Com peso dentro da tabela? É? Mas é magrinho, meu sobrinho é redondinho, uma gracinha! Ele sim, come. Dr. Raya se encheu da arenga, enquanto examinava a criança alegre, que respondia às suas brincadeiras, aos estímulos... mas não era gordinha. Terminou a prospecção, já impaciente e de forma rabugenta perguntou à mãezinha aflita: Minha senhora, seu filho faz cocô? (Não exatamente assim...) Ela, assustada, respondeu: Sim, claro! E ele terminou ali a consulta, porque ela saiu bufando: Então, minha senhora, ele come. Come o que seu pequeno estômago permite, mas se faz cocô (não exatamente assim) ele definitivamente come!
Raya é um daqueles sacerdotes da saúde que guardo no coração. Ele me ajudou a transformar a idealização de médico perfeito, absoluto conhecedor das doenças do corpo, infalível, onisciente e onipotente. Também foi responsável por me ajudar a perceber os limites de seu trabalho: quando o doente se cura, foi graças a Deus; quando o doente morre, foi incompetência médica: ele não fez isso, não fez aquilo, devia ter agido assim, não chegou a hora que chamamos.
Somos cruéis no julgamento do médico que, muitas vezes salva mais vidas, que perde a batalha para a morte. Médicos, aprendi, são humanos, são pessoas, são falíveis, sofrem, têm dor de barriga, câncer, enfartos, perdem filhos, parentes e pais, médicos não são deuses - embora alguns (talvez por insegurança) sejam arrogantes e ajam como se fossem superiores.
Na maioria das vezes encontramos médicos que nos escutam, dão-nos atenção, ouvem, examinam, comparam, perguntam para fechar o diagnóstico. Há, sim, aqueles que nem nos olham, mas sabe-se lá como estão interiormente naquele momento: preocupados, também doentes, insones, com medo, ansiosos. Médicos são gente. Essa visão mais amadurecida, foi favorecida pela convivência com Luiz Carlos Raya. Devo-lhe isso, junto com a sobrevivência do segundo filho.
Dia 18 de outubro amanheci pensando neles e no privilégio de possuir elenco maravilhoso de médicos amigos e competentes à minha volta; pensando na missão e na responsabilidade que a classe médica assumiu ao receber o diploma de habilitação para exercer a profissão, mesmo sabendo do risco que correriam permanentemente no trabalho de serem avaliados Anjos ou Demônios. Toda minha admiração por todos os médicos de Franca, da região, do mundo. E de todas as épocas.
RESPOSTA
Perguntaram-me no Facebook: você prefere botox ou sei-lá-o-quê para acabar com as rugas? Quem pergunta, quer resposta. Estranhei muito quando respondi e o espícula de rodinha apagou minha resposta que foi: ‘Nascer de novo. As rugas podem até desaparecer. Mas como recuperar a tonicidade da pele das mãos, dos braços? E o brilho do olhar? E a disposição como um todo? Vamos cuidar do interior e deixar a natureza agir. Minimizar os efeitos, cuidarmo-nos, sim, mas virar um ser estranho, esticado e plastificado, não.... A velhice é linda e bem-vinda: você começa a se permitir, a se perdoar, a se aceitar...’
PADROEIRO
São Lucas, padroeiro dos médicos, pintores e curandeiros, reza a tradição, é autor do Evangelho de São Lucas e dos Atos dos Apóstolos - terceiro e quinto livros do Novo Testamento. Nasceu e viveu na Antioquia, na Síria antiga, foi médico por profissão. Tornou-se discípulo dos apóstolos e foi seguidor fiel de Paulo, o convertido. Morreu solteiro, não teve filhos e (presumivelmente) morreu em Tebas, capital da Beócia, com 84 anos de idade.
DOUTORES
Aiko Hayasi, Alberto Ferrante Neto, Ângela Ferrante, César Fontes, César Manieiro, Cláudia Márcia Barra, Enéas Cunha, Fernando Luz, Joaquim Marinheiro Neto, José Bernardes de Pádua, Kamel Salim Charanec, Lúcio Cossi, Maria Célia Cossi, Nilson Salomão, Otto Barbosa Filho, Paulo Antônio de Moraes Faleiros, Pedro Paulo Coury, Regina Celi B. de Figueiredo, Rita Fontes, Roberto Guimarães, Rossini Machado - responsáveis por minha manutenção. Hermes Faleiros e Andressa Barcelos, profissionais amigos. Edgard Achê, Luiz Carlos Raya, Chafick Facuri, que estão na minha vida. A todos esses médicos meus cumprimentos, minhas reverências, meu muito obrigada.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.