De viuvez não entendo, embora conviva com amigos solitários por falecimento do cônjuge ou separação formalizada dos companheiros
Embora tenha corrido risco de colocar viúvo na praça ou me tornar viúva (não poucas vezes quis matar ou periguei ser morta: casamento tem dessas coisas), meu estado civil permanece, contrariando predições e vaticínios... No livro Arranca-me a Vida, de Ángeles Mastretta, Josefita Rosas visita Catalina, jovem viúva que está ao lado do caixão e lhe diz, baixinho: ‘Salve! Fico feliz por você. A viuvez é o estado ideal da mulher. Colocamos o defunto num altar, honramos sua memória toda vez que for preciso e passamos a fazer tudo que não pudemos com ele em vida. Não existe, digo por experiência, melhor condição que a de viúva. E com sua idade! Não cometa o erro de se prender rapidamente a outro: sua vida vai mudar para melhor. Que ninguém ouça o que lhe digo, mas é a verdade e que o defunto me perdoe!’
Era começo do século XX. Samuel Johnson, também aconselha o desfrute dessa condição, afirmando que o segundo casamento é a vitória da esperança sobre a razão. Em toda cidade, há leva de mulheres – principalmente mulheres – que assediam qualquer viúvo recente, nem bem a falecida esfriou. Não sei quem teria razão, mas a solidão é dolorida experiência e, definitivamente, é preciso ser forte, muito forte, para suportá-la.
Porém, há reencontros imprevistos, insuspeitos e fortuitos que colocam frente a frente pessoas que, antes de ficarem sozinhas até se conheciam, mas nunca se reconheceram. Bate o raio, apaixonam-se, tornam-se novo casal e ganham a oportunidade de serem novamente tão ou até mais felizes: a experiência anterior – que nunca se apaga – baliza a superação de eventuais dissensões. E ambos trazem, para a nova união, maior capacidade de superação, discernem melhor o que vale, do que não vale a pena. (Sou a favor de cada um decidir o que melhor lhe convém...)
Mamãe ficou viúva aos 48 anos, sugeríamos que ela olhasse ao redor. Ela se recusava sequer a pensar no assunto. Em visita à filha que morava em São Francisco do Sul, então colônia de pescadores, ia à praia cedinho, sentava-se à sombra do guarda-sol e as ondas do mar batiam nela, que se deliciava. Ficava horas ali, sozinha. Percebemos que bem apessoado senhor começou a lhe fazer companhia. Ficava de frente para ela, costas para o mar e conversavam bastante. Tá namorando?, perguntávamos. Isso não tem graça!, respondia. Ele é advogado em Curitiba, temos filhos da mesma idade, nosso papo gira em torno disso. Certo dia, sem graça, contou que ele perguntara se ela teria coragem de se mudar para Curitiba. Mãe, ele está cantando você! Ficou vermelhinha, deixou de ir à praia por alguns dias, e ele desapareceu.
Procurando por fotos antigas dela, guardadas em caixa toda enfeitada junto com bilhetes, cartas, desenhos de netos, cartões e que ficou para mim, encontrei envelope com carta dentro. Papel fino e chique, caligrafia bonita. Procurei o remetente no timbre do verso: dr. Fulano, endereço de Curitiba. A carta, tudo indicava, era do suposto pretendente. Leio, não leio? Por que ela a teria guardado? Seria dele mesmo? Traria auspiciosas notícias? Alegrias? Tristezas? A carta queimava na minha mão. Decidi. Sem ler, rasguei-a em pedacinhos e botei fogo. Senti-me bem. Fui respeitosa, nada invasiva e me vi delicada com sua memória. Fiquei aliviada, embora curiosa.
MULHERES
Amélia, Ana Júlia, Ana Maria e Anamaria, Aurora, Carmen Miranda, Carolina, Chica da Silva, Chiquita Bacana, Conceição, Dolores, Dolores Sierra, Dora, Doralice, Emília, Etelvina, Eva, Florisbela, Helena, outra Helena, Isaura, Jou-jou, Juliana, Laura, Lígia, Luciana, Luísa, Luzia, Madalena, Maria, Maria Bethânia, Maria Candelária, Maria Escandalosa, Maria Helena, Maria Rosa, Marina, Nanci, Odete, Rita, Rosa Morena, Rosinha, Terezinha, Xanduzinha e Yolanda. Antigamente faziam mais músicas com nome de mulher. Musas reais ou idealizadas.
1954
O governo Vargas enfrentava problemas, tantos, que o presidente se mataria (dizem) em agosto daquele ano, em meio a gravíssima crise política e institucional. Em consonância ao bom humor brasileiro, marchas de carnaval denunciavam, criticavam, apontavam soluções para as incertezas de toda natureza. Se eu fosse Getúlio, de Roberto Roberti e Arlindo Marques Jr., na voz de Nelson Gonçalves foi o sucesso naquele ano, como bem lembrou o leitor Antônio Sérgio Nascimento. Fórmula simples: enxugar o Estado e fazer doutores, políticos e funcionários públicos ‘pegarem na enxada’...
LETRA
‘O Brasil tem muito doutor, muito funcionário, muita professora. Se eu fosse o Getúlio, mandava metade dessa gente pra lavoura. Mandava muita loura plantar cenoura, e muito bonitão plantar feijão. E essa turma da mamata, eu mandava plantar batata.’ (Favor não tomar a letra da música ao pé da letra: necessário ter bom humor para entender que o professora aí encaixado foi apenas para rimar com lavoura, cenoura e loura... É simples metáfora.)
LOURA
Por falar em lourice, vou conversar com minhas amigas louras das redes sociais para iniciar o movimento do Orgulho Louro (não confundir com a ave de mesmo nome). Sofremos bullying, discriminação, desrespeito, tudo por causa de morenas e ruivas que usam água oxigenada para serem confundidas conosco. Ser loira é estado de espírito, não mero resultado de aplicação química. Ser loira é ter luz própria, ser estrela, não satélite...
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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