Quando ele entrou no roteiro da minha vida, não saberia dizer. Pioneiros da Vila Flores tínhamos duas opções de percurso para atingir o centro da cidade, a seis quarteirões de nossa casa
Subir toda a Saldanha Marinho até a Igreja ou, na Praça do Café – espaço pequeno com única árvore plantada no centro – dobrar à esquerda, escalar a Marechal Deodoro. Dali, distribuíamo-nos: casa de amigos, papai ia para o Banco do Brasil, majestoso prédio dois quarteirões adiante. Mamãe fazia a via sacra: Loja Melica, Casa Jahú, Casa Hygino e depois, quando havia tempo, café com as amigas que moravam no centro. Enquanto pequenos, acompanhávamos par e passo. Maiores, íamos juntos, seguindo as mesmas rotas, eventualmente dispersando aqui ou ali: olhando as vitrines da Lâmina de Ouro, da Loja Mexicana (lançamentos em fonografia!), novidades da A Cinderela, a loja teen, sonhando com as jóias da Casa Caio, puxando os irmãos das calçadas com brinquedos da Casa Bettarello – onde tudo era bom, barato e belo. Ou tomando sorvete da Sorveteria Santa Maria. O quadrilátero limitado pela Saldanha Marinho, Couto Magalhães, Ouvidor Freire e Marechal Deodoro fisicamente pouco mudou nas últimas quatro décadas. Humanamente, sim.
Virando a Couto Magalhães e subindo a Marechal, tínhamos: na esquina a casa de dona Guilhermina, a cabeleireira; a senhora de filha única; a casa dos Nicácio, a loja de miudezas da senhora de cenho fechado de quem eu morria de medo; a casa de alpendre aberto onde morava um bancário; a casa da família Della Torre e suas roseiras; a loja de tecidos e armarinhos da dona Melica, onde o filho Carlão também trabalhava, escondido atrás da mesinha do caixa e das peças de tecidos. Taciturno, calado e observador. Desde menina fiz esse caminho. Tornei-me conhecida de dona Melica que me mimava: sabia que eu era louca por comida árabe e volta e meia me oferecia algo especial. Desfilei em frente à loja como menina, púbere, jovem, noiva, casada, barriguda de um, barriguda de outro com o primeiro no carrinho; barriguda do terceiro, com um em pé atrás do carrinho e outra caminhando ao meu lado. Dona Melica saía da loja, agradava meus filhos, o Carlão só olhava. Muito poucas vezes veio também à porta.
Com as mudanças da vida, dona Melica se foi, os negócios se ampliaram, os irmãos dividiram-se nas funções e Carlão passou a tomar conta da loja de tecidos, na Ouvidor Freire. Ficamos amigos. Quando comecei a publicar os primeiros textos, anos 80, ele se transformou no meu mais fiel crítico. Entrava na loja, ele se levantava, aproximava e vinha avaliar minha produção da semana: gostei, não gostei, faltou isso, aquilo, fiquei emocionado, detestei, achei muito bom, dei boas risadas. E quando você vai publicar um livro? Isso ele me perguntou pela primeira vez há vinte anos. E, por vinte anos eu lhe respondi: logo. Há dois entrei na loja com intrepidez diferente, ele percebeu e perguntou: o que aconteceu? Contei que começara a escrever a biografia de Sônia Menezes Pizzo. Que bom, ela merece, mulher corajosa, forte, baluarte, etc, etc. Passou a ser nosso assunto recorrente. Num outro dia contei que tive dificuldade para achar determinada foto. Busque amanhã, vou procurar. Busquei e a reproduzi. Ao terminar o trabalho, embalei a foto, peguei o convite para o lançamento e fui pessoalmente entregar. Ele saiu de trás do balcão, me abraçou, cumprimentou, agradeceu e disse que iria, sim. Não acreditei. Logo no começo da festa, quando estávamos começando a receber os convidados, eu já com as lágrimas por um fio e fala fina, vejo chegar dona Maria Della Torre, dona Nenê Ewbank Seixas e Carlos Andalaft, meu amigo Carlão. De terno, camisa de mangas compridas e gravata. Todas as presenças foram honrosas. Mas estas três foram maravilhosas, de um jeito especial. Pois Carlão partiu, dias atrás, sem se despedir de mim: eu não estava aqui. Fiquei sabendo que leu o livro, que ficou orgulhoso de estar nele e ter sido citado como colaborador das minhas pesquisas. Já estou com saudades dele. Um dia, quem sabe? a gente se encontra e ele faz as críticas que ficou me devendo.
Nostalgia
O MPB4 lançou pela Biscoito Fino o disco Contigo Aprendi onde apresenta boleros repaginados e reinventados, aqueles que estão cravados no nosso coração sofrido e cheio de lamentações. Miltinho, Aquiles Reis, Dalmo e Magro (recentemente falecido) encomendaram a letristas brasileiros versões em português de canções clássicas do gênero – maioria cubana e mexicana. Caetano, Paulo César Pinheiro, Abel Silva, Fernando Brandt, Vitor Ramil, Hermínio Bello de Carvalho e o próprio Miltinho fizeram as transposições das letras. Já está na minha lista de desejos.
Previsão
O que arrepia a maior parte das pessoas, em termos de comportamento alheio, não me provoca nem o mais leve eriçar de pêlos. Não julgo atitude de ninguém. Faço força e acredito que sou das poucas pessoas que não demonstram o menor interesse pela vida alheia. Porém chega uma hora que, por não ser cega posso fazer previsões. Dentro de algum tempo, a mulher estará tão vulgarizada, banalizada, displicente, desbriada e insolente para se vestir (ou despir?) que seu poder de sedução desaparecerá quase por completo. Meu amigo riu, mas eu falava sério: vai chegar o dia em que os homens se excitarão mais com a visão do corpaço do Anderson Silva que com os das roliças Severinas Xique-xique, (des)cobertas com tecidos translúcidos como asas de borboletas, reveladores e aderentes como papel filme de rolo...
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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