Gavetinhas de memórias


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Quando éramos pequenas e quase jovens, nossa costureira era mamãe. Nossa e de muitas das colegas de escola

Desde que me entendo por gente, eu a vi costurando, bordando, enfeitando bolos, confeitando doces, preparando almoços e jantares de gala. Li hoje, num texto que veio pela Internet, que o autor gostaria de poder voltar um dia no passado, um só, nem que fosse por alguns segundos, para dizer à sua mãe a frase de poucas palavras: ‘Eu amei você, muito mais que demonstrei.’ Fiquei com inveja dele, tanto que o copiei... Eu também queria.

Mulheres daquela época eram de forno elétrico e de lenha, fogão de lenha, fogão a gás, forno Layr, máquina de costura. A da mamãe era Elna e , quando estragava, ela a levava para São Paulo naquela caixa verde, e mandava consertar. Onde? Na boca do lixo, ali pelos lados da antiga Rodoviária. A senhora que a atendia era suíça e falava francês. Eram amigas. Quando soube que eu me arriscava no idioma que - sonhava! - futuramente Alain Delon iria me pedir em casamento, a tal senhora entrou na casa que ficava nos fundos da oficina e deu-me de presente um livro de poesias de Jacques Prévert, cuja poesia Déjeuner Du Matin ainda me faz chorar. Choramos eu e ela: naquela época eu a sabia de cor! De quebra veio uma edição com a publicação das letras das músicas de Jacques Brel, cuja proposta de casamento eu também teria aceito, ora pois...

Mas falava das mulheres dos anos 60. Minha mãe, depois de casada, nunca teve uma briga com papai por ciumeira ou coisa parecida. Ele a dobrava direitinho quando queria alguma coisa. Meus tios e padrinhos de batismo e casamento moravam ao lado do Pacaembu e era lá que eles se hospedavam quando iam passear na capital. Como os hábitos mudaram! Era gostoso receber e ser hóspede da casa de alguém. Preparavam o melhor quarto, o melhor cardápio, os melhores programas para eles. O melhor programa para meu pai era ver o Parmêra jogar. Para minha mãe, era assistir alguma peça de teatro. Minha madrinha comprou os ingressos antes, elas foram ao cabeleireiro, excitadíssimas. Ao voltar encontraram meu pai deitado, já nas últimas, com violenta dor de cabeça, guardanapo molhado na testa, com rodelas de batata inglesa - simpatia - já ouviu falar? Deu sete horas, nada de ele melhorar. Sete e meia, não dava mais tempo de ir. Minha madrinha ficou com pena de mamãe, ficaria em casa com ela. Perderiam os ingressos, fazer o quê? Meu tio foi tocar piano e meu pai deitado lá em cima, desfalecido. De repente o foguetório vindo do Pacaembú, vizinho de quadra da casa deles, começou. O jogo preliminar ia começar. Meu pai atribuiu a um milagre. Meu tio, católico, confirmou. Minha tia, mais ou menos católica desconfiou, mas ficou calada. Minha mãe deu o maior escândalo quando meu pai, ainda com uma rodela de batata presa na gola da camisa, desceu as escadas e disse: Melhorei! Foi um milagre! A dor passou!... Como não dá tempo mais de ir ao teatro, acho que vou ao jogo. Alguém quer ir? Sorte dele o piano ser pesado...

Comecei a falar das mulheres dos anos 60, resvalei para meu pai, contei coisas do folclore da minha família. Estive de repouso estes dias, minha memória teve tempo de resgatar histórias familiares. Acho que vou pedir para encontrar também meu pai,nem que seja por um segundo, para também que dizer que eu o amei muito mais que demonstrei minha vida inteira.

POESIE
Il a mis le café dans la tasse. Il a mis le lait dans la tasse de café. Il a mis le sucre dans le café au lait avec la petite cuiller. Il a tourné. Il a bu le café au lait, et il a reposé la tasse sans me parler. Il a allumé une cigarette. Il a fait des ronds avec la fumée. Il a mis les cendres dans le cendrier sans me parler, sans me regarder. Il s’est levé. Il a mis son chapeau sur sa tête, il a mis son manteau de pluie parce qu’il pleuvait. Et il est parti sous la pluie, sans une parole, sans me regarder. Et moi j’ai pris ma tête dans ma main et j’ai pleuré. (Jacques Prévert)

YOUTUBE
Poderia poupar trabalho e dar a tradução da poesia. Mas não vou tirar o prazer de ninguém que gosta de poesia e de um curta metragem bonitos. Vou apenas sugerir: acessem o Youtube e procurem Déjeuner Du Matin, de Jacques Prévert.

EMOÇÃO
Se a emoção estiver à flor da pele, uma segunda sugestão. No mesmo Youtube, procurar Jacques Brel, belga adotado pela França como Toots Thielemans. É dele a maravilhosa Ne Me Quitte Pas. Artista completo, teve vida de aventuras e ousadias. Nsceu em 8 de abril de 1929 e morreu muito cedo, em Bobigny, 9 de outubro em 1968.

ELEIÇÕES
Já falei e disse. Mas os candidatos parecem surdos. Ficam sorrindo para mim, querendo tirar fotografia comigo, aliás nunca vi onde os outros candidatos dos anos anteriores fizeram com elas. Só voto naquele pretendente a prefeito que tiver a intenção (declarada) de continuar o trabalho espetacular que d. Diva Rocha e equipe desenvolveram na Prefeitura.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br 

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