Agosto. Mês do folclore. Do Saci Pererê. O Saci é um moleque. Fica na espreita de pessoas desavisadas e as assusta. Pega um distraído e nhoct! Prega peça nele
Não. Acho que Saci não assusta saci. Vale dizer que quem pertence à sua confraria não se espanta com suas brincadeiras. Também não é novidade que o Saci tem apenas uma perna. Anda pulando, e não sei dizer se é a perna esquerda ou direita.
Agosto. Mês da Iara, Mãe D’Água que canta e encanta. Tem o poder de fazer quem escuta seu canto ficar perdidamente apaixonado. Não. A Iara não tem um programa de rádio. Se tivesse ela teria sido eleita vereadora, dominaria multidões, caso o éter levasse a maravilhosa melodia que sai de sua boca para iludir e hipnotizar. De qualquer forma, Iara seduz, ilude e hipnotiza. Passado o encantamento, vem o arrependimento. Mas aí já é tarde.
Agosto. Cruz credo! Mês do Lobisomem. E não lobis-homem. Para mim, não é homem e não merece o H. Transmuda à meia noite das noites de lua cheia - traço romântico de tão horrorosa figura que age igual vampiro. Ataca, fere, mata. Se pega e come não sei, que nada assim se registra. Após, volta a ser gente.
Agosto. Mês do Negrinho do Pastoreiro. O Negrinho era gaúcho, afirmam. No meu livro de estórias infantis seu carrasco aparece com bombachas, daí a ousadia em afirmar que a lenda vem dos Pampas. O Negrinho apanhou tanto por causa de uma rês perdida que perdeu os sentidos. Colocaram-no, amarrado, num formigueiro, para bem pagar a falta cometida. Daí ter se tornado milagreiro. Se se perde alguma coisa é só acender uma vela, pedir a ele e pronto! Acha-se fácil o que se perdeu. (Não adianta pedir que o Negrinho não arranja votos.)
Agosto. Mês da Mula-sem-cabeça. Contam que tal personagem também passa medo e só aparece nas noites de lua cheia. Ousaria afirmar que foi ela quem inspirou políticos teimosos com mania de grandeza. Acho a Mula-sem-cabeça teimosa e sem a garra do Lobisomem, por exemplo. Ela só passa medo, deve gritar prá burro, dar coices e até falar palavrão. Não deve escutar opinião de ninguém e provavelmente é muito prepotente. A fascinação pela lua cheia, eu garanto é traço de personalidade nacionalista.
Agosto. Mês das superstições. Por exemplo: não passar em baixo de escadas. Preferível galgá-las, nem que seja às custas de palavreado impublicável. Mas jamais passar sob elas: no mínimo você arriscar a levar uma latada na cabeça. Outra coisa, não se case em agosto. Não traz sorte ou boa ventura. Agora, ter filho no mês de agosto pode acontecer. Tal filho pode vir a ser grande político da cidade. Também, meu, com tanta influência...
Agosto. Ainda, superstições. Não entrar nos lugares nem sair da cama com pé esquerdo. Embora tais crenças não passem de simbologia, não nos esqueçamos que esquerdo é o lado do coração. E foi da perna esquerda de Figueiredo que lhe tiraram uma veia, em pleno agosto. Entrar nos lugares com o pé direito significa, afinal, não abusar. E não usar plenos poderes que a gente mesmo se confere, significa entrar mais maneiro, independente do lado que está sendo usado. Ou em voga. Afinal, neste contexto todo, a direita é muito mais segura.
Agosto. E as parlendas? Ou parlengas? Vamos lá. ‘Uni-duni-tê salamê mínguê, o sorvete colorê, uni-duni-tê’. Quem não usou? Nas brincadeiras de roda, nos piques de pegar, na hora da escolha, até hoje, confesse: você também, às vezes ataca de uni-duni-tê... Coisa inofensiva e gostosa que pode nos safar de situações criticas. Agora usar o processo de uni-duni para escolher funcionários e determinar extinções de departamentos públicos, ai já é demais. Demais também é usar uni-duni para dispensar funcionários. Ainda que não sejam do partido da gente. Digo partido político.
Agosto. Folclore. Dísticos de caminhão. São engraçados, irreverentes muitas vezes. Anoto alguns, sem parênteses ainda que não sejam criações minhas. Primeiro: Tás com raiva? Tira as calças e pisa em cima. Segundo: Sou o que sou, devido ao meu trabalho. Terceiro: Fui, mas voltei. Quarto: Se já não gostas mais de mim, devolva os elogios que te fiz. Quinto: Se bigode conferisse respeito foca era rainha dos mares. Sexto: De fumo já ando cheia. E o apelo religioso: Não use o nome de Deus em vão.
Agosto. Folclore. Lendas, superstições. Dia 13 de agosto, confesso, nem saí de casa em Londres onde eu estava. Levantei-me com o pé direito, não falei desgraça, nem proferi a palavra azar. Evitei, previdente que sou, passar em baixo de escadas, seja agosto, ou não.
Nas noites de lua cheia prefiro ficar em casa, nem que seja enchendo a cara. Sou besta de enfrentar lobisomem, ou mula-sem-cabeça? E, no mês do folclore nosso prefeito fez aniversário. Vou confessar: apesar dos perigos, que o mês nos faz lembrar, se ele convidasse, eu teria ido à festa.
PS - Queria ter escrito isso mês passado mas não houve oportunidade. Fui ver minha filha e sua família em Londres, plena Olimpíada conforme contei e recontei. Quanto a escrever, não resisti. Colunista é assim mesmo. Um outro dístico de caminhão explica: mais vale um gosto que um caminhão de abóboras...
CERTEZA
‘Ambiente limpo não é o que mais se limpa e sim o que menos se suja.’ (Chico Xavier)
ASPAS
1.‘Estou convencida: é o medo a grande peste da humanidade.’ (Leila Diniz). 2. ‘O momento em que um homem percebe que seu pai estava certo é aquele em que tem um filho que pensa que ele está errado.’ (Anônimo). 3. ‘A imaginação consola as pessoas daquilo que não podem ser. O humor, daquilo que são.’ (Anônimo).
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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