São Quintino


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Tio Quintino era familiar decano que visitávamos quando famílias iam às casas dos parentes: adultos arrumados, crianças engomadas com roupas domingueiras mesmo em dia de semana: concessão, espécie de homenagem

Sua fisionomia perdeu o contorno, seu nome continua referência entre nós, que agora temos a idade dos adultos daquela época. Figura respeitada e venerada, bem idoso ia ao banheiro e, ao voltar, se esquecia de abotoar a braguilha ainda cheia de botões, embora já existisse zíper na época. Nunca voltou descomposto, apenas desabotoado. Todos os familiares homens, próximos e agregados, aprenderam que a expressão, em tom de advertência quando saem do lavabo: ‘Tio Quiiiintinnno!’ é senha para ‘Olha a braguilha aberta’. Nunca mais soube de alguém chamado Quintino. Só do Bocaiúva.

Convidada para visitar Saint-Quentin, na França, a lembrança do querido tio reavivou-se, apesar de desconhecer se o nome da cidade é versão francesa de Quintino. É, reza lenda local, homenagem a mártir da Igreja Católica aqui sacrificada. Fundada no século III, no Aisne, Picardie, nordeste francês, fica próxima de Amiens, Reims e da Bélgica. Sessenta mil habitantes.

Advertiram-me: vê lá se cidade cujo nome lembra prisão e fica perto de onde se queimaram santas, é local adequado para turismo? Vai lá, não. Teimei, vim. E vencerei! Tudo conspirou para que não gostasse de nada. Mas sei que França, povo francês e coisas francesas são assim mesmo. Antes de retribuir sentimento, fazem tudo para você desistir, empacotar-se e voltar para o lugar de origem. Persista e resista: você ganhará confiança e, como retribuição, irá ao céu. Ah! Esforce-se por falar um mínimo da língua nativa. Faz parte do processo de mútua sedução.

Viagem inesquecível. Atravessar de carro o Eurotunel, ligação entre Folkestone e Calais sob o Canal da Mancha, é experiência fascinante... para não-claustrofóbicos. Cinco carros por vagão, passageiros nos veículos durante a travessia. Trinta minutos e, na chegada, o esvaziamento dos vagões é rápido e organizado. Quem embarcou na Inglaterra, dirigindo pelo lado esquerdo, sai do lado direito, obedecendo nova direção de trânsito. A paisagem muda.

Duas horas de calor escaldante, ar condicionado do carro bufando, começo a ler Saint-Quentin nas placas de orientação. Chegamos. A casa é antiga, confortável e estranha. Exemplo: o acesso ao toalete – constituído só de vaso sanitário e pia, sem bidê – é pela cozinha, depois de estreita passagem entre o fogão e a pia de lavar louças. Sala de jantar e de estar enormes, com lareira no meio: inverno e outono são muito frios, presumo. No andar depois do primeiro lance de escada, dois quartos confortáveis, camas excelentes e sala de banho: banheira, chuveiro e outra pia. Sem toalete. Outra escada, loft imenso – metade quarto, metade depósito. Sentiu o drama? Quem estiver lá cima, para usar o sanitário que fica lá embaixo, tem que rezar, descer trinta e seis degraus, atravessar salas, cozinha e chegar à mina. Quer dizer, ao pocinho. Por ora não tivemos qualquer inconveniente. Ou acidente. Mas o hábito de usar toalete e em seguida tomar banho, durante a estadia na casa, faz-nos replanejar a logística fisiológica.

Põe mala aqui, arruma a geladeira ali, organiza as frutas acolá, abre-se a cerveja, comemoremos. Entusiasmadíssimos, só percebemos a ausência de eletricidade quando escureceu, às 21 horas mais ou menos. Voltou às 22h, tempo equivalente à reza de terço em louvor a São Quintino e após dezenas de velinhas acesas, não tanto por religiosidade, mas para clarear mesmo.

Tragédia seguinte: não havia mais água quente: o boiler pifara e o chauffagiste contatado, simpático e solícito, garantiu que na terça-feira, sem falta!, viria nos ajudar. Era sábado. Naquela noite, os banhos foram de água fria – eufemismo para descrever a temperatura da aguinha que fica sob o freezer das geladeiras. Banhos musicados: cada um berrou sob o chuveiro, a canção que escolheu. (Escolhi Funiculì, Funiculà.) Só Lucas, por ser criança, teve direito a banho de canequinha, que adorou. Não desisto. Amanhã será outro dia, e São Quintino, quer dizer, Saint-Quentin, há de consertar o aquecedor!

UM
Saint-Quentin é nome de penitenciária norte-americana onde Johnny Cash se apresentou em 1969, também famosa como corredor da morte dos antigamente condenados à câmara de gás e, atualmente, a injeções letais. A da França fica perto de Roue, onde a Inquisição católica queimou viva a guerreira Joana D’Arc e, como depois a santificaram, botou a culpa nos ingleses. Tristes referências para me desaconselharem a vir. Pouco temo além de lagartixas e semelhantes. Não desviei dinheiro público, muito menos inocentei bandidos do mensalão. Medo de quê?

DOIS
Depois da Notre Dame de Paris e de Chartres pensei não haver mais catedrais góticas tão lindas. Pois há. A de Amiens é deslumbrante. A releitura de Os Pilares da Terra, de Ken Follet, se faz urgente.

TRÊS
Não fosse o desejo de amar estas férias no interior da França, fato ocorrido e repetido teria me feito desistir da pré-disposição. Dois estabelecimentos comerciais de funções diferentes, em locais distantes, escolhidos aleatoriamente, tinham música ambiente. Nas duas – por incrível que pareça, Gusttavo Lima cantava o refrão que fascinou todo mundo: tchê, tchererê, tchê, tchê. Pode? Perguntei o nome do cantor ao dono de um dos estabelecimentos, ele respondeu Michel Telô...

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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