Shopping Westfield, horário de muito movimento, sobre cadeira de descanso de lounge, encontramos carteira perdida
Abri. Tinha (bastante) dinheiro em notas, documentos, cartões de crédito e outros, de visita, com nomes diferentes, cerca de cinco com mesmo nome e sobrenome, o que fez supor que poderiam ser do dono. Por essa pista, embora o endereço fosse de Stuttgart, ele seria brasileiro ou português: Teixeira não é exatamente nome alemão, nem Guilherme (grafado assim) remete à Alemanha.
Guardamos a carteira e esperamos o sistema de som anunciar a perda? Com certeza o tal Guilherme irá acusar sua falta aos quatro cantos. Mas e se ele só perceber quando estiver distante do Shopping? Naquele momento a Olimpíada continuava acontecendo. Dentro do imenso complexo Stratford, além das lojas, restaurantes de praxe e instalações esportivas, há estações nacionais e internacionais de trens, e visitantes de outros países e de cidades inglesas mais distantes, vão diretamente ao Parque Olímpico (ou saem dele) que também possui hotéis, senão de luxo, pelo menos muito confortáveis. Eram tantas as possibilidades que se abriam, que optamos por outra medida. Melhor ligar para ele, no celular indicado. Momentos de expectativa, alguns toques, voz masculina atendeu e mostrou-se surpresa. Evidentemente não esperava contato. Ao ouvir seu nome como uma pergunta, disse sim, quis saber quem era. Foi avisado sobre a carteira, ficou ainda mais surpreso, não havia percebido a perda, Demos nossa localização, estava perto, pois passados alguns minutos, chegou. Sozinho e sorrindo. Era brasileiro, sim. Pegou a carteira, apertou nossas mãos, agradeceu. Virou as costas e foi embora. Não prolongou o papo, não perguntamos de onde era, nem fizemos mutuamente aquelas perguntas de praxe, dos espiculas de rodinha de plantão.
O rapaz foi embora e nos deixou por instantes calados, como se faltasse alguma coisa no protocolo. Não faltava. Nós é que percebemos que procedêramos com a naturalidade de nativos do Primeiro Mundo. O ato de devolver algo que não é nosso está longe de ser qualificado como heróico, estupendo, grandioso, merecedor de linhas de jornal, recompensa e louvação. Alguém perdera valioso objeto, alguém achara algo que não lhe pertencia, procurara o dono e, por sorte, o achara. Simples assim.
Natural que comparássemos nosso gesto a outros do folclore familiar e da filosofia brasileira. Lembramo-nos de quando o cachorrinho de querida vizinha fugiu e o encontramos, por golpe de sorte, na casa de desconhecidos. Não, não tinham roubado - que que é isso? O cãozinho estava na rua, o pai o levara para a mãe, louca por animais, disse o filho. Não tinha dono, entende? Falamos da conhecida que achou pulseira de ouro na porta do hotel: não vai procurar a dona, perguntar se alguém fez alguma queixa de perda na portaria? Não: eu achei, ela justificou, agora é minha. Enquanto nos lembrávamos das lendas, dos casos, das politiquices nacionais (mesmo distantes estamos atentos ao julgamento do Mensalão), comentei sobre a opinião de amigo jornalista, inteligente, espirituoso e petista, para quem a Malandragem e a Desonestidade estão na composição genética do brasileiro e garante que esses traços nos são atávicos e não há governabilidade se não forem mantidos. Não vejo a hora de encontrá-lo. Ele diz que descende de nobre casta portuguesa e se diz quatrocentão mineiro. Descendo de italianos, negros, de alguns distantes portugueses e também da família Maia Araújo, igualmente mineira, mas não me considero quatrocentona. Se na composição dele entra senão safadeza e desonestidade mas também a tolerância para com ela, na minha esses traços - com orgulho constatei - não resistiram. E, posso apostar, meus filhos devolveriam qualquer milhão perdido que não lhes pertencesse, sem esperar recompensa porque para eles, todo aparecido com facilidade ou achado - se mantido em mãos alheias - é roubado, sim senhor.
UM
O momento brasileiro no encerramento dos Jogos Olímpícos de 2012, ao contrário das louvações publicadas pela imprensa – pelo menos as publicações às quais tive acesso – não empolgou. Os ingleses não entenderam a mensagem, o som foi péssimo, só alguns brasileiros residentes em Londres entenderam a presença da linda moça que entrou e saiu calada, pois a reconheceram como modelo de cadeia de lojas de roupas inglesa. Pena. (Em tempo, esta é a opinião de quem viu o show e ouviu comentários através de transmissão da BBC.)
DOIS
A Bachianinha de Villa-Lobos que Marisa Monte solfejou, estava irreconhecível por causa do som. Nem Seo Jorge foi, de pronto, reconhecido. Difícil admitir, mas o show não foi bom. Não deu para perceber – de longe e com aquela luz insuficiente – a ginga de sambistas e ritmistas. Não. Não fez jus ao potencial que o Brasil pode apresentar. O sorridente gari Renato, embora simpático e comunicativo, ninguém sabia quem era pois é personagem local. Agora, Pelé é Pelé. Continua sendo Embaixador do Brasil.
TRÊS
Rasgados elogios foram feitos à Casa do Brasil, patrocinada pelo Bradesco e instalada em prédio do exército inglês, centro de Londres. A maioria dos países montou exposições em diferentes locais da cidade, para divulgação didática de suas riquezas, peculiaridades e cultura. Dizem, a do Brasil estava magnífica e, ela sim, foi a embaixatriz da Olimpíada de 2016.
QUATRO
Saio de Londres e vou para a França acompanhando filha e família. Destino: Saint-Quentin, região do Aisne, na Picardie. No norte. Perto de Calais, hora e meia de Paris, quarenta minutos da fronteira com a Bélgica. À bientôt!
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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