A Bandeira Olímpica já está nas mãos do Brasil. Jacques Rogge – presidente do COI – entregou-a para Eduardo Paes, prefeito carioca
O gesto marca, definitiva e oficialmente que o Rio de Janeiro sediará o evento em 2016. Deu frio na barriga. Acompanhei de perto e por bastante tempo a construção do complexo olímpico londrino – incluindo projetos, gastos, críticas, discussões – fatos que autorizam o medo que experimentei na noite da transferência da bandeira. Prestes a acalmar, lembrei-me do que aconteceu com a taça Jules Rimet. Quase chorei e o estômago revirou.
Se não há preocupação com a integridade dos políticos brasileiros; se decência e moralidade são referências apenas no dicionário; se não há respeito pelo cidadão; se o prêmio do esporte mais popular e que representava a glória para os desportistas foi roubada, derretida e nunca mais se falou (aí no Brasil) disso... o que esperar do futuro do ‘pedaço de pano’?
Ruy Castro, no saborosíssimo Carnaval no Fogo, esclarece e elogia o jeito carioca de fazer as coisas. Lembra o desespero dos preparadores estrangeiros às vésperas da abertura do Pan Americano em 2007, realizado no Rio de Janeiro, que não viam terminadas as providências para a realização do evento, malgrado esforços e tentativas de antecipá-las. Pior: de efetivá-las ou apressá-las. A execução de quaisquer providências que julgavam urgentes eram vistas como aflição e xilique de gringos. Pode deixar que a gente chega lá! Pra que pressa? Não tem problema. Relaxa!
O início dos jogos se aproximava e a tranquilidade dos funcionários locais fazia crer haver tempo de sobra. Aí, então, ele fala do sucesso dos desfiles de carnaval, para justificar o jeito brasileiro de fazer as coisas e explicar o sucesso do Pan: os estrangeiros desconheciam o know-how carnavalesco carioca.
Milhares de pessoas que nunca se viram antes, ele descreve, aglomeram-se, mostram-se afinadas na canção e, ao saírem da concentração e já nas pistas, sabem o que fazer se algo sair do controle. Sem conhecimento anterior das etapas do cortejo e sem nenhum ensaio coletivo formam imensa serpente que dança, canta e faz evoluções como se tivesse centenas de horas e vezes feito a mesma coisa, juntas.
Bom, tanta criatividade em um evento que dura cinco, seis horas deve funcionar. Deve, não: funciona e bem. No caso do Pan, Ruy Castro afirma que foi maravilhoso, quase perfeito nos detalhes, correu sobre carretéis.
Olimpíada, porém, envolve muito mais gente: esportistas, preparadores, técnicos, familiares dos atletas, turistas estrangeiros e locais, simpatizantes, torcedores. Supõe logística de preparativos, antecipações, previsões, construções. Particularmente nunca havia acompanhado tão de perto um cenário olímpico; no máximo via algumas performances, durante poucas horas e pela televisão. Mas agora vi e sei que o trabalho destas duas semanas efetivas exigiu meses, anos de preparativos; percebi a Babel de idiomas entre os esportistas e, principalmente, entre visitantes. E aí continuam nossos problemas. Se muitos cariocas falam inglês, a maioria está no ‘the book is on the table’ ou, pior, no ‘laicar nóis laica, mas mânei que é gude, nóis não réve’. Fiquei pensando onde conseguirão milhares de voluntários sérios e responsáveis para ajudar na organização, sem ganhar um centavo? E a sinalização de ruas e logradouros públicos: será em que língua? E postos de informações com pessoal poliglota? E museus, exposições, livrarias? Turistas e atletas não se interessam apenas por praias, por mais lindas que sejam. Ou só por lojas. A prática de lagartear ao sol pode ser comum em países de temperaturas amenas, no Rio de Janeiro porém equivale a entrar na torradeira e se arriscar a uma insolação.
Para não ser mais desagradável, nem vou falar de segurança, de arrastões, de trombadinhas, muito menos de motoristas de táxi desonestos que ficam passeando com os clientes. Mas não posso deixar de lembrar do aspecto dos banheiros públicos em shoppings, lojas e de rua.
Os ingleses se mostram céticos – jornais publicam e criticam as brasileirices econômicas que envolvem as construções dos estádios e edifícios de suporte para o evento. Eles comentam que, para a Copa do Mundo em 2014, as obras estão atrasadas e não se sabe quando e se estarão prontas. Temem que o Rio de Janeiro siga o exemplo do País. Bom. Vamos nos ajoelhar e começar a pedir que o Cristo Redentor nos livre desse mico. Amém.
BYE, BYE OLYMPICS!
1. Na segunda-feira, depois do show de encerramento, dos fogos, do choro dos participantes, o clima na cidade era de quarta-feira de cinzas, contraste chocante com o sol intenso que nos iluminou por dois dias. Poucas comissões nas ruas, noticiários comentando a grande festa de despedida, o ‘desaparecimento’ de atletas dos Camarões e do Congo, a diminuição sensível dos voluntários nas proximidades do Parque Olímpico - que eram reconhecidos pelo uniforme rosa e púrpura - o sumiço de quase todos os carrinhos de informações espalhados pela cidade inteira. Os jornais deram destaque e não pouparam elogios a dois atletas que se tornaram símbolos e ícones da grande festa esportiva de 2012: Jessie e Bolt.
2. Jessie está na capa de várias revistas. História bonita, deveria servir de exemplo para nós. Descoberta quase por acaso, a menina sem lar recebeu incentivo, treinamento, investimento e fez bonito, virou ídolo e modelo de superação. A Inglaterra, além de anfitrionar a Olimpíada, apostou nos seus atletas, investiu neles e acabou por oferecer, além de tudo, o desfile de excelentes atletas para o mundo.
3. As árvores da Leicester Square – ponto de concentração de turistas – estão enfeitadas com reproduções ampliadas de medalhas de ouro, prata e bronze, como homenagem aos atletas olímpicos ingleses.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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