Aquele ‘meu desconhecido’


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Não o conheci: não fomos apresentados, apenas o reconhecia quando passávamos um pelo outro ou quando, ao vê-lo de longe, reavivavam as referências elogiosas ouvidas a seu respeito

Porém lembro-me bem do primeiro dia em que o vi, e faz muito tempo. (Primeiro devo contar que meu pai faleceu com cinquenta e um anos, nem tinha rugas suficientes no rosto para a gente chamá-lo velho, e era bonito de doer. Tinha, isso sim, cabelos brancos – coisa de família – e dois olhos azuis deste tamanho.) Eu me dirigia à Escola Toulouse-Lautrec, onde lecionava, era cedinho e passei por ele que fazia caminhada nas imediações. Levei susto: era muito parecido com meu pai. Não na cor dos olhos, não na cor dos cabelos, mas naquilo que a gente chama de ‘jeitão’. Mesma estatura, mesma compleição, mesmo balanço meio desajeitado para andar. Fiquei olhando, acho que olhei até demais, mas ele nem se tocou. Continuou a andar ligeiro, não viu a mulher que diminuiu a velocidade do carro e só ela sabia que era para matar sua saudade.

Certa vez, num vôo para São Paulo, o companheiro de poltrona ribeirãopretano, puxou conversa para passar o tempo. Você é de Franca? Mora perto do Poli? Então você mora perto do meu sogro. Conversa vai, conversa vem, tínhamos conhecidos em comum na vizinhança e aquele senhor, o das caminhadas, era seu sogro, identificou. Foi desse moço que ouvi os elogios ao meu desconhecido. Falou da sua coragem, da sua força, da sua determinação. Pensei comigo que qualquer dia eu iria interromper o sossego dele e contar do encontro com o genro. Esse dia nunca chegou.

Outra vez, saí com os alunos adolescentes para aula fora dos limites da sala escolar e eles pararam bem em frente ao portão do Poliesportivo para olhar o cadáver fresco de um gato todo espremido no chão. As meninas tiveram náuseas e xiliques, alguns meninos chegaram perto, outros não disseram nada, mas ficaram estrategicamente mais de longe. Coisa feia de se ver. Aproveitei o momento (lecionava Filosofia) e fiz discurso sobre a incerteza da permanência da vida, a necessidade de vivermos bem, aqui e agora. Que nosso corpo é frágil como o do gato, que num momento estamos vivos e no outro, quem sabe? podemos morrer e ficar à mercê dos urubús, como carniça malcheirosa. Alguns adolescentes que achavam que a vida valia apenas se dentro de calça jeans da Gap, abriram os olhos, meio espantados. O discurso foi terrível e assistido também pelo meu desconhecido, que por coincidência passava no local e me chamou atenção: ‘Nossa, mãe, você acabou com a soberba dos meninos...’, criticou ele. E continuou caminhando. De repente, percebi que ele sumira. Fui revê-lo algum tempo depois, demonstrando sua determinação: caminhava com alguma dificuldade, apoiado no personal trainer, com parte do corpo paralisado. Mesmo sem saber seu nome, parei o carro e chorei. Injusto, avaliei assim.

O relacionamento, mais virtual que real, com a moça bonita e bem humorada através do Facebook, me fez saber que seu pai estava na UTI, enfrentando a última etapa de vida. Ela comentou, porém só vim a saber quem era ele, quando li que falecera semana passada. Liguei os sobrenomes e concluí: era o ‘meu desconhecido’. Doeu meu coração por ela, por mim – também órfã – e, principalmente, por ele. Pela energia, pela alegria que exalava ao caminhar, pelo sorriso que carregava de satisfação para consigo mesmo. Deve ter sido frustrante perceber que seria vencido pelo absurdo da sua morte um tanto prematura. Vou continuar acreditando que não sei seu nome. Li, mas evitei guardá-lo. Vou-me lembrar dele todas as vezes que passar pela rua lateral ao Poli, imaginar que é meu próprio pai e curtir na lembrança aquele balançar de braços vigoroso e seguro. Pais e mães não deviam morrer porque, independente da idade, nós, os filhos, experimentamos terrível sensação de orfandade.

OLYMPICS
1. Nas lições de Inglês faltou os professores dizerem que praticamente todas as orações, pelo menos em Londres, começam com ‘Please’ e são, obrigatoriamente, arrematadas com ‘Thank you!’. Please, onde fica a rua tal? Responderam? Thank you! Examinou o cardápio e escolheu? Please, podemos pedir? Thank you! Entrou no taxi? Please, poderia me levar no endereço tal? Thank you! Chegou? Please, quanto devo? Paga e termina: Thank you! Não existe entonação, como em Português, que substitua ambas expressões.

2. A delegação alemã optou por barco, como meio de transporte para vir. Vi o ‘barco’. Mede de duzentos a trezentos metros de comprimento e cerca de cem, de altura. Branco, traz imensa bandeira alemã na frente, e está enfeitado com as bandeiras dos países participantes das Olimpíadas. Atracado nas Docklands, pelo menos enquanto eu estava nas imediações, foi tão fotografado quanto a Sharapova. Por falar em russo, aguardava o DRL quando se sentou a meu lado um rapaz com uniforme russo. Sozinho: sorriu e apontou o boné dizendo: ‘Russian!’, como se seu uniforme pudesse ser confundido. ‘Coach! Treinning!’, continuou o papo. ‘Olympics!’. Fez gesto correspondente e depois disse ‘Box!’, dando murros no ar. Mostrou o mapa do metrô e apontou uma estação. ‘Me, go!’. Chegou o trem, ele foi embora, com a certeza de que batera o maior papo com uma inglesa da gema...

3. Não vamos dar conta de administrar a Olimpíada! Algumas dificuldades brasileiras: serviço de transporte precário; hotéis para acolher turistas; pessoal competente em número suficiente para orientar visitantes desnorteados; restaurantes honestos nos preços e na qualidade, e a imensidão do País, que exigirá aeroportos melhor aparelhados. Olimpíada não é quermesse, não.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br 

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