Flagra


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No Brasil, diante de algo desabonador, culpa-se quem divulga o fato e não seus autores. É um gravíssimo erro
No Brasil, diante de algo desabonador, culpa-se quem divulga o fato e não seus autores. É um gravíssimo erro

“Há um remédio para as culpas, reconhecê-las”
Franz Grillparzer,
escritor austríaco


Tudo se passou no último dia 17 de julho, uma terça-feira. O roteiro, banal e prosaico, não surpreenderia ninguém se seus protagonistas não fossem quem são. Ignorados seus nomes, tudo que um observador qualquer poderia registrar é que uma menina pálida dirigia seu carro pelas ruas de Los Angeles acompanhada por um narigudo feioso. Vez ou outra, paravam em uma pracinha ou num mirante, desciam do carro e trocavam beijos, carinhos, afagos. Uma típica cena de namoro ou coisa que o valha. Nada demais. Ou, mais precisamente, quase nada demais. Havia três senões que, somados, transformaram o pequeno interlúdio amoroso num evento de proporções globais.

O primeiro é que ambos tinham relações estáveis. Não entre si, como um desavisado poderia supor, mas com outros parceiros, naquele instante absolutamente alheios a tudo que se passava num certo carro que trafegava calmamente pela Pacif Trail Way, avenida que serpenteia a floresta de Los Angeles.

O segundo é que a dupla em questão nada tem de anônima. Ele é Rupert Sanders, consagrado diretor de comerciais de TV que começa a ganhar projeção como cineasta. Dirigiu Branca de Neve e o Caçador, refilmagem moderninha do clássico infantil. Aos 41 anos, é casado com a modelo Liberty Ross, com quem tem dois filhos. Mas na tarde daquela terça-feira, sua musa era outra. Kristen Stewart, 22, mundialmente conhecida como “Bella”, protagonista da saga Crepúsculo ao lado do queridinho das adolescentes Robert Pattinson, o “Edward”, com quem na vida real dividia teto e escovas, era a responsável por capturar todas as atenções de Sanders. Ambos trabalharam juntos em Branca de Neve e o Caçador. Até onde é possível concluir, diretor e atriz se entenderam ainda melhor na vida real do que no set de filmagens.

O terceiro e último senão é que, atrás de Sanders e Kristen, havia um paparazzi, um fotógafo de celebridades, que acompanhava tudo com atenção. E que conseguiu capturar uma sequência de afagos e troca de carinhos para voyeur nenhum botar defeito. É claro que o paparazzi não queria o flagra só para si - mesmo porque, vive disso. De posse das imagens que perseguiu, vendeu tudo pelo melhor preço. No caso específico, para a a revista semanal US Weekly, uma espécie de Caras americana. Que, por sua vez, sem quaisquer contrangimentos, tascou na capa da edição que começou a circular no dia 24 de julho a foto de Sanders-Kristen. A chamada, em garrafais letras amarelas, era direta. “Kristen trai Rob”. Provocou um terremoto sentido em qualquer ponto do planeta onde houvesse um adolescente por perto.

Tivesse acontecido no Brasil situação semelhante, protagonizada por celebridades tupiniquins, certamente neste instante a imprensa estaria no banco dos réus. As acusações seriam as de sempre - “invasão de privacidade”, “invenção de notícia para vender”, “sensacionalismo” - perpetradas por pessoas que ignoram a essência da atividade jornalística e das prerrogativas de que deve gozar uma imprensa livre. Não é difícil imaginar que o casal de amantes brasileiros flagrado pelo paparazzi acabaria por processar quem publicou a notícia. Tampouco é improvável que a Justiça condenasse o veículo a indenizações consideráveis, ainda que se tratasse de um fato verdadeiro (ninguém inventou os beijos e abraços), protagonizado por pessoas públicas (afinal, os dois são atores de grande fama), em local público (as fotos foram registradas no meio da rua). É uma horrenda distorção.

Nos Estados Unidos, o cenário é radicalmente distinto. Publicada a notícia, não houve desmentidos. Kristen divulgou um pedido público de desculpas dirigido ao agora ex-companheiro, Robert “Edward” Pattinson. ‘Estou profundamente triste pela dor e constrangimento que causei a pessoas próximas a mim e todos afetados. (...) eu sinto muito’, disse ela. Sanders seguiu caminho semelhante e igualmente divulgou carta onde lamentava o episódio. ‘Eu estou totalmente abalado com a dor que eu causei à minha família (...) Estou orando para que possamos passar por isso juntos’.

Cada qual cuida agora de refazer os estragos. Pattinson mandou Kristen embora da casa que dividiam. Dizem que ela está mal, implorando o perdão dele. Por enquanto, em vão. Liberty perdoou Rupert e, junto com seus filhos, seguem a vida. Ninguém atacou a imprensa, o direito da revista publicar o que quer que seja nem ameaçou processar o paparazzi. Subentende-se que, ao se expor, Kristen e Sanders assumiram o risco de topar com alguém que poderia flagrá-los. Deu no que deu. Pode-se discutir o gosto ou a pertinência de publicações como a US Weekly, mas não o direito que tem de publicar o que seja relevante. E, para uma revista de celebridades, o que diz respeito a elas é simplesmente fundamental.

Seria muito importante que, no Brasil, caminhássemos para uma compreensão semelhante do papel da imprensa. Aqui, diante de um fato desabonador, culpa-se quem divulga e não seus autores. Atacam os veículos, não quem protagonizou os episódios. No mensalão, escândalo de corrupção descrito pelo procurador geral da República como o “maior esquema de desvio de dinheiro público da história do Brasil”, o que mais se vê é acusado atacando “a imprensa burguesa e golpista”, como se não houvesse processo, denúncia, julgamento.

Aos mensaleiros, e todos aqueles que condenam a imprensa brasileira como se ela fosse a culpada pelas mazelas do país apenas porque dá publicidade aos malfeitos, um pouco da dignidade e serenidade dos atores americanos seria mais do que recomendável. Por lá, cada um assumiu a responsabilidade por seus atos. Por aqui, os jornalistas continuam a ser os demônios. É um erro. O problema é o escândalo, não quem o divulga. Não é tão difícil assim entender. Só é preciso mínima lucidez. E, claro, vergonha na cara.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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