Fui avisada para não fazer planos para o domingo último: seria convidada de honra para o almoço na casa do pai do meu genro
Mr. e a atual Mrs. Perry, juntamente com os filhos Mathew e Emma, nos receberiam às 12h30. Fomos. Lá nos esperava a decana Mrs. Perry – a avó Joyce. Apresentando-a: mora sozinha, tem 91 anos, excelente memória e boa pensão, daí viver em casa confortável e trocar de carro todos os anos, pois adora dirigir e ir, com frequência, visitar a filha e netos que moram a quinze quilômetros de distância.
Enquanto aguardávamos o chamado para a sala de jantar, perguntaram-lhe se concluíra a reforma do banheiro: sim. Que tinha se entusiasmado e iria reformar a sala e pintar a casa toda. Contou-me, rindo, o fato que fez os filhos obrigarem-na a iniciar a reforma. Durante o banho caiu na banheira, bateu as costas e teve dificuldade para se levantar. Quando o fez, ligou para o hospital e pediu que lhe marcassem consulta com especialista. A atendente disse pois não, com quem? Ela informou e completou que talvez precisasse de radiografia. A moça perguntou-lhe nome, endereço e idade. Ao ouvir 91 apavorou-se: alguém a trará aqui? Mandarei ambulância, paramédicos. Foi interrompida: não, não quero, eu mesma vou, não fiquei inválida! Foi sozinha, riu-se. Cabelos brancos arrumados, roupa sóbria, sapatos impecáveis, colar, postura e senso de humor: todas as old ladies inglesas se parecem com a rainha Elizabeth.
À mesa, doze pessoas, no sentido horário: Lucas, Paul, Mathew, Carol – filha da Joyce e irmã do David, Joyce, Janet (a atual Mrs. Perry), Emma, David, Mikel – noivo de Sarah, filha da Joyce –, Luciana, minha filha e eu. Mikel é herói de guerra – mostrou foto curvado de tantas condecorações – e afro-descendente, único na família de maioria loira e olhos azuis. É pessoa doce, calma, tranquila, comunica-se com facilidade e disse ter, como a maioria dos ingleses, muita vontade de conhecer nosso carnaval. Aliás os ingleses em geral acham que temos trezentos e sessenta e um dias de farra, bunda de fora e carros alegóricos, e quatro dias de quaresma. Pensando bem, em Brasília o calendário se aproxima desse, substituindo-se as mulheres peladas por políticos.
O cardápio. Magnífico. David levantou-se às seis da manhã, recusou qualquer ajuda e preparou os pratos. De entrada, pão sírio com patê de tomates e pimenta. Bebidas leves para crianças e motoristas; para os caroneiros, vinhos e cerveja – que não faltam nas despensas. Começou o festival gastronômico. Frango com curry e arroz temperado. Cordeiro com couscous marroquino. Brócolis, batata, beterraba e rabanete. Um tipo de soja indiana, cozida e temperada, deliciosa. Sobremesas ecumênicas: a tradicional inglesa triffle - cuja invenção remonta a 1596; o grego cheasecake de morango depois popularizado pelos americanos; a torta de pera, francesa. E chá. E café. E mais vinho. E mais refrigerantes. Quando parecia o fim, foram servidos cookies mais chá, mais café e mais vinhos. Quando acabaram, abriu-se caixa de chocolates, pra belga algum pôr defeito... E mais chá, café e vinhos.
Homenagem aos Olympics, casa enfeitada com bandeiras inglesas e a Jack Union. As conversas iam e voltavam para os comentários sobre a abertura dos jogos. Acharam-na emocionante – inglês é louco por teatro, adoraram como o fogo foi aceso. Riram-se muito do James Bond e da rainha. Sabia que foi a primeira vez que ela desempenhou um papel para o cinema embora fosse o dela por ela mesma? perguntaram cheios de orgulho. Levantamo-nos da mesa depois das 18h. Senti-me honrada pelas deferências e retornei em dúvida: se os ingleses gostam mais da Elizabeth II ou do Paul Mcartney, a ouvir o entusiasmo com que falam dele e cantam suas músicas.
OLYMPICS
1. Que medo do Brasil fazer feio na Copa de 2014 e nos Jogos Olímpicos de 2016. Não temos aeroportos, não temos meios de transporte adequados para o traslado de público através da imensidão do País, a precariedade do sistema de segurança é atormentadora, a corrupção engole o dinheiro que daria de sobra para os melhoramentos e benefícios todos, fundamentais para a organização. Em Londres há disponibilidade de voluntários identificados pelo uniforme da Olimpíada para orientar turistas e dar informações. Quem, no Brasil, vai querer prestar esse serviço gratuito?
2. 15 h, em frente à Saint-Paul, música amplificada, vinda de violão chamou atenção de turistas sentados nos degraus da bela igreja. Surgiu uma garota dançando e fazendo evolução com fita. Em seguida um rapaz também dando seus volteios. Atraíram o público das calçadas e dos jardins do entorno. Não sei de onde, surgiu um homem com camiseta do Brasil tocando trombone de vara e executando Vassourinhas, o frevo mais famoso de Recife. Também não sei de onde apareceram dançarinos de frevo que distribuíram sombrinhas e convidavam o povo a acompanhá-los na performance. Fiquei na turma dos desajeitados alemães e russos e superdesajeitados japoneses. Ar-ra-sei! Estou sem fôlego e a dor na perna me atormenta, mas tive meu dia de Ana Botafogo, ah! se tive...
3. Há reclamações. Desorganização, por exemplo. Ninguém consegue comprar ingressos seja para os jogos ou competições. No site oficial há disponibilidade, o comprador escolhe, o sistema pede para esperar ‘um minuto’. Espera cinco e aí vem a resposta: ‘Desculpas, não há tíquetes disponíveis’. O cambista – velha figura conhecida dos brasileiros – não existe aqui. Mesmo com know-how nenhum brazuca se arrisca a desempenhar o papel: se clandestino, volta no primeiro vôo. Legalizado, com certeza perderá o direito e será ‘convidado’ a se retirar do país.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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