Os pais gostavam tanto de dançar quanto os filhos pequenos de acompanhar, com o olhar, os volteios cadenciados pela melodia recorrente usada para eles exibirem desempenho e habilidade
Era ouvir Begin the Beguine eles se levantavam, ele passava o braço esquerdo na cintura dela, ela colocava o braço direito sobre os ombros dele, olhavam-se nos olhos e saíam a dançar. Ficávamos com os cotovelos sobre os joelhos, sentados juntinhos na porta da cozinha que dava para a área do fundo de casa, de súbito transformada em pista multicolorida de dancing club dos mais chiques.
O chão não era mais de cimento mas de tacos de madeira; os raios do sol que entravam em nesgas pelos vidros da janela eram holofotes multicoloridos; o vestido curto da mãe brilhava e o pai exibia aquele olhar de veneração por ela. Duvido que soubessem a letra da canção, já que era em inglês. Mas olhavam-se nos olhos enquanto dançavam e faziam paradas estratégicas, que era quando batíamos palmas, extasiados com a elegância deles. Cole Porter. O nome do autor americano da música predileta do casal tornou-se habitual nas referências de autores de boas músicas na família. Aprendemos a reconhecê-lo como dono de tantas outras obras como Nigth and Day, I’ve Got You Under My Skin, Let’s Do It, You Do Something To Me, What Is This Thing Called Love, All of You e True Love. Ou seja, o repertório quase inteiro de Frank Sinatra. Há pouco apareceu filme sobre Cole Porter, com Kevin Kline no papel título e Ashley Judd como Linda Lee Thomas, com quem CP foi casado por 34 anos. Achei o filme maravilhoso. Bem, achei triste também. É, eu diria chocante. Nem sonhava, de repente me vi diante de um ser humano confuso, que teve casos amorosos com vários homens embora o grande amor de sua vida tenha sido uma única mulher, aquela com quem se casou. Ela sempre soube e respeitou a ambiguidade do marido; sofreu, e uma única vez não suportou a humilhação: foi quando se separou dele, para logo em seguida, reconciliar-se.
Acredito que a história de Cole Porter – que conhecia apenas como a do americano compositor de belíssimas canções – tenha me instigado ainda mais por causa das tantas semelhanças que descobriria entre a história dele, contada pelo filme e lenda familiar, daquelas que a parentada fala a respeito longe das crianças e, quando perto delas, apenas trocam olhares e frases incompletas.
Prima coetânea de mamãe, moça rica e voluntariosa se apaixonou por rapaz lindo de morrer, pobre e caixeiro-viajante. Ele polarizava atenções por onde passava: além de bonito e francamente líder, tinha presença de espírito, voz linda, repertório de piadas para crianças, jovens, adultos e caducos. Todo mundo era louco por ele. Era presença bem-vinda em quaisquer grupos da família. Saía em viagem, ficava algum tempo fora e sua volta era anunciada, aguardada e, se confirmada, celebrada. O casal tinha quatro filhos.
Não me lembro como, sua dupla vida sexual foi revelada. O comentário caiu, arrebentou e os estilhaços espalharam-se pela família inteira. Mas ninguém saiu ferido. Eles, continuaram casados. Todas as tias, tios, primos de todos os graus, cunhados, sobrinhos continuaram a amá-lo incondicionalmente. E a mulher, que nunca deu sequer um muxoxo ou dirigiu ao marido uma única palavra de desrespeito, por opção continuou a seu lado, visivelmente apaixonada. A história deles é maravilhosa, triste e, também, chocante. E a grandeza das histórias dos dois casais me faz pensar naqueles que amam de forma comum e dentro dos conformes, que batem no peito e garantem que somente eles sabem amar de verdade.
LONDRES
1. Começa logo mais a Olimpíada 2012, aqui em Londres. Perto do bairro onde me encontro fica Stratford, que é onde foi construído o Parque Olímpico, palco da cerimônia de abertura. Stratford é servido pela Central Line, a linha vermelha de transporte londrino. Na saída da estação de metrô, que é também de trem, foi instalado magnífico shopping com lojas imensas, todas elas filiais dos grandes e famosos magazines europeus. Há lojas de roupas femininas, masculinas e infantis como Next, Zara, Mark & Spencer; de brinquedos; vídeo e som; joalherias. O mix de lojas e tipos de restaurantes é absurdo e fantástico. Uma curiosidade, o espaço da Samsung é mais completo e maior que o de Hong Kong. Em outra entrada, na lateral e paralela à entrada principal do Shopping Westfield e bem na saída do metrô, os privilegiados donos de ingressos especiais entrarão para assistir à abertura. E irão passar por painéis magníficos patrocinados pela Coca-Cola.
2. Desde segunda-feira grupos de artistas do mundo inteiro estão se exibindo nas plataformas da escadarias do shopping, que dão para a rua. Embora o sol esteja escaldante, coisa rara por aqui, o público se aglomera e aplaude sentado nos degraus, com chapéus na cabeça e garrafa de água nas mãos. Público e artistas interessantes: maioria de gente bonita, alta, malhada, com fisionomias diferentes e camisetas dos mais diferentes países do mundo, quase todos de bermudas, shorts, roupas leves contrastando com as muçulmanas de burcas. Incrivelmente sentadas juntas: a atleta com pouca roupa e a religiosa. Coisa de Olimpíada.
3. Dentro do refrigerado espaço do shopping, a multidão chega a incomodar, embora a diversidade seja uma grande surpresa para quem simplesmente observa. Há grupos de atletas, alguns presumo famosos porque há multidão de fotógrafos profissionais atrás deles além de fãs, com quem posam com solicitude. Há turistas e suas poderosas e sofisticadas máquinas fotográficas, que flagram desde o chão às vitrines, passando por pessoas de todo tipo. As lojas renovam os estoques a toque de caixa, percebe-se. Cada visitante que sai, carrega pelo menos duas sacolas em cada mão. Toda vez que ouvir falar em Torre de Babel, a lembrança de Westfield durante o começo da Olmpíada de 2012 em Londres virá à minha memória. Ou vice-versa.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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