Um adorável ditador


| Tempo de leitura: 5 min
Júlia, a primogênita, vira as páginas de quaisquer resquícios de infância; João, o caçula, mergulha de cabeça neste ciclo. Não é mais um bebê
Júlia, a primogênita, vira as páginas de quaisquer resquícios de infância; João, o caçula, mergulha de cabeça neste ciclo. Não é mais um bebê

“Um pai sábio deixa que os filhos cometam erros”
Mahatma Gandhi,
líder pacifista indiano


Vivo neste instante uma perspectiva interessantíssima diante dos meus filhos. Júlia, a primogênita, vira definitivamente as páginas de quaisquer resquícios de infância enquanto João, o caçula, mergulha de cabeça neste ciclo. Não é mais um bebê, completamente dependente dos pais, como o são todos os pequenos mamíferos humanos. Tem vontade própria, já sabe costurar palavras para formar frases, decide o que quer e, tanto pior, o que não quer e, na mesma medida em que é simpático, é também voluntarioso. Haja paciência - e energia - para dar conta de acompanhar este pequeno projeto de homem.

A coisa toda começou a ficar mais “tensa”, como diz a irmã, quando João deixou de ser quadrúpede. Aprender a deslocar-se apoiado apenas nos pés é um momento sublime para o Homo sapiens. Os primeiros passos ele deu em julho de 2011 quando, ligeiramente pressionado pela mãe, que o queria de pé na festa de um ano, começou a cambalear pela casa. Parecia Jack Sparrow, o personagem interpretado por Johnny Depp na franquia Os Piratas do Caribe. Dava um passo para frente e outro para o lado, nem sempre conseguindo vencer uns poucos metros sem esborrachar-se no chão. Mas como ensinaria seu avô Corrêa, se vivo estivesse, não importa que você caia dez vezes, desde que se levante onze. E lá foi João, de tombo em tombo, aprendendo a andar.

Tudo isso para mim foi ontem mesmo, mas na perspectiva de vida de quem completa dois anos neste domingo, faz uma eternidade. Hoje João não apenas anda, como corre, pula, se atira - na vida e em qualquer lugar. Neste sábado, dia em que estava particularmente elétrico, chegou com a avó do shopping ávido por mostrar aos pais a sua mais recente brincadeira. Tudo muito simples. Ele corre, pula no ar e cai de barriga no chão. Rola para um lado, levanta com um movimento só e toca de roda de novo rumo a um novo salto no vazio. Fez isso umas duzentas vezes. Queria que o “papai” o acompanhasse. Inútil explicar que há uma diferença substantiva de idade e, muito mais importante, de peso e envergadura entre nós. Para o João, as barreiras descritas pelas leis de Newton não existem. “Mão. Vem”, ordenava ele, imperativo, diante da plateia que assistia suas peripécias.

“Mão” é a palavra preferida dele quando quer companhia para qualquer coisa. Ele diz “mão”, estende seu braço gordinho e nenhum argumento o demove de seus planos. “Mão. Vem”. E lá vamos nós jogar bola, videogame, pular no chão, passear, ouvir música. Neste último caso, quer sempre seu intérprete favorito, Michel Teló. “Canta, papai. Delícia. Ai, ai”. Dos muitos talentos que a vida me negou, o ritmo talvez seja o mais evidente. Não consigo cantar nem “Ciranda, cirandinha...” sem desafinar. Tá certo que o cancioneiro de Teló não é um primor de nuances melódicas mas, mesmo assim, é um desafio para mim. João não se importa. “Mais, papai. Canta”. E lá vou eu... “Sábado, na balada...”. Ele morre de rir. Eu morro de rir da risada dele.

Missão impossível é tentar ensinar a um bípede de dois anos ideias como democracia, respeito à vontade da maioria, a necessidade de preservar o espaço do outro ou qualquer conceito análogo. Para ele, é “mão” e pronto. Assim, meu prazer matinal de ler os jornais enquanto tomo café foi para o espaço. “Jornal não, papai. Kefé”, sentencia, impávido. É claro que ele escolhe seu próprio menu. Tem que ter café com leite. Pão, sempre. E com requeijão. Tem dias que pede “Kejo” para acompanhar. Neste caso, derretido na frigideira. Noutros dias, prefere ovo quente, servido dentro da casca, meio mole, meio duro. Frutas, alterna entre mamão e melão. “Bom. Muito bom”, repete. Melhor mesmo só se tiver abacate que, misteriosamente, desapareceu da geladeira. “Suniu, papai. Abacate suniu”, lamenta. Ordens médicas. Do pediatra. Ele emagreceu, é verdade. Mas o João anda inconformado com a escassez de frapê em casa. “Cadê? Suniu!”, reclama, os dois bracinhos abertos em sinal de desapontamento.

Ir ao médico, aliás, é a única situação que o amedronta na vida. Nada surte tão bom efeito coercitivo nele quanto a mãe lembrá-lo de que, se não fizer determinada coisa, vamos no “Dr. Marcelo”. É tiro e queda. “Não, não, nãããoooo. Médico não, mamãe”. Tem funcionado. Apesar da competência e do zelo que o Dr. Marcelo Bittar reserva para seus jovens pacientes, “visitá-lo” não é nem de longe sinônimo de prazer. Enquanto a arma funcionar, vamos usando.

João também adora falar ao telefone. “Cenular, papai. Liga vovó Sonha”, ordena. E toca chamar a avó. Normalmente ele conversa em búlgaro, sueco ou qualquer outro idioma ininteligível. Para ele, tudo certo. São muitos minutos de “conversa” ao telefone. Às vezes, pede para ligar para a irmã. “Juju, cenular. Liga”. Aconteceu anteontem. Queria contar para ela que tinha vomitado. “Ruim, Juju. Muito ruim”. Perguntou também sobre o tombo que a irmã sofreu nas suas aventuras de skate pelas ladeiras de Franca. “Juju, caiu? Kebo dente... Dodói”.

Vendo os dois conversando ao telefone numa noite de sexta-feira sobre o vômito de um, o tombo da outra, tive certeza absoluta de que ter filhos é “padecer no paraíso”. Quem se importa? Eles também são a prova cabal de que existe amor irrestrito, incondicional, indelével. E de que, não importa o tamanho das dores intrínsecas à nossa condição humana, a vida vale muito a pena. Ainda mais quando se tem filhos para dar sentido absoluto a ela. Alguém discorda?

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários