‘Na política, os ódios comuns são a base das alianças’
Alexis de Tocqueville, historiador e escritor francês
Quem acompanha política com alguma proximidade sabe que, numa eleição, até o impossível costuma acontecer. Mas os movimentos iniciais da disputa municipal, marcados por deserções e defecções, têm transcendido, e muito, até a habitual falta de lógica da política brasileira. Antes de se preocupar com os adversários, os candidatos a prefeito de Franca têm enfrentado dificuldades mesmo é com o ‘fogo amigo’, os danos provocados por ações e reações originadas dentro de suas próprias fileiras.
É justamente na aliança que sustenta a candidatura de Alexandre Ferreira, o escolhido por Sidnei Rocha, que os problemas pipocam com mais força. O prefeito idealizou prévias como instrumento de definição do candidato tucano. Bonita no papel, a iniciativa mostrou-se um desastre na prática. Para começar, ao optar por prévias, Sidnei Rocha alijou Roberto Engler da possibilidade de ser indicado como candidato. Era muito exigir do deputado de seis mandatos que entrasse na disputa interna com novatos. Engler recolheu-se. Evidentemente, não gostou nem um pouco de como tudo foi feito. Guardou o troco.
Alexandre Ferreira, secretário da Saúde, saiu vencedor das prévias, mas a unanimidade que Sidnei Rocha idealizou nunca se confirmou. O partido emergiu dilacerado da disputa, por mais que o prefeito Sidnei Rocha sustente, publicamente, o oposto. Mas fatos são fatos. E fato concreto é que Sebastião Ananias, opositor de Alexandre Ferreira na contenda, não foi visto nem perto do diretório do partido no dia em que a candidatura tucana foi lançada oficialmente. Informalmente, já foi consultado por mais de um candidato a prefeito se aceitaria continuar no comando das finanças municipais. Disse sim a quem o procurou. Nenhum dos emissários falava em nome de Alexandre Ferreira. É um golpe duro na campanha tucana, já que a recuperação das finanças municipais é mérito direto dos esforços empreendidos por Sebastião Ananias.
Sabe-se lá por que razão, a coordenação tucana também fez pouco caso do apoio de Gilson de Souza (DEM), que esteve junto de Sidnei Rocha nas suas duas vitórias. O deputado, bom de voto, foi procurado por todo mundo. Menos pelo prefeito, que nada pediu nem ofereceu. Gilson, que nunca se entusiasmou com Alexandre Ferreira, sentiu-se à vontade para conversar com muita gente e decidiu-se pela delegada Graciela Ambrosio, que reservou a posição de vice para o filho do deputado. No movimento, Graciela perdeu o apoio do PTB, mas é difícil encontrar algum pepista que lamente a troca.
No tucanato, a aliança foi firmada com o PMDB. O problema é que o acordo foi imposto pelo diretório estadual e atropelou a candidatura própria que vinha sendo construída há um ano por João Rocha, ex-vice prefeito na gestão de Maurício Sandoval. Rocha, que durante meses preparou-se para a disputa, sentiu-se traído. Reagiu com firmeza. Classificou como ‘desastre’ a aliança com o PSDB e fez insinuações pouco edificantes. ‘Não sei quais foram os interesses que levaram a esta união. Agora (...) o PSDB desarticulou um grupo que poderia dar muito trabalho nas eleições’, disparou, magoadíssimo. Ato continuo, avisou que não apóia Alexandre Ferreira, não participa da campanha e ainda tirou seu grupo da luta por uma vaga de vereador. O tamanho do impacto é difícil de ser estimado, mas pode ser relevante para um partido que, na última disputa, não conseguiu eleger um único vereador.
Para piorar, depois de algumas semanas de silêncio, Engler resolveu dar o troco. Numa entrevista exclusiva publicada na edição de hoje do Comércio, o deputado vocifera contra Sidnei Rocha, reconhece a relevância dos adversários na disputa municipal e classifica a vitória de Alexandre Ferreira como ‘difícil’. De quebra, avisa que não tem planos de participar da campanha. ‘No momento, ele (Sidnei Rocha) não me dá nenhuma condição de dividir o palanque com ele’.
Se o cenário é de tormenta no ninho tucano, tampouco o céu é de brigadeiro entre os socialistas do PSB. O partido, capitaneado pelo médico Marco Aurélio Ubiali - que vez ou outra protagoniza ações capazes de desafiar a capacidade de compreensão do cidadão comum -, entra na disputa municipal esquálido. De uma tacada só, os três vereadores do partido, um deles presidente da Câmara, anunciaram que estão fora da disputa pela reeleição.
A decisão de Joaquim Ribeiro, Paulo Zamikhovsky e Valter Gomes, o presidente da Câmara, não encontra paralelo em nenhum lugar do país, muito menos numa cidade em que o partido dos ‘desistentes’ tem um candidato com chances reais de vitória. Difícil acreditar que os três tenham tido ‘razões pessoais’ que os fizeram desistir simultaneamente da disputa. Se for verdade, Ubiali é desde já o candidato mais azarado do universo. Ou, em outra hipótese, bem mais provável, algo de muito esquisito aconteceu intramuros. De um jeito ou de outro, Ubaili perde numa única tacada os mais fortes cabos eleitorais de que qualquer ‘prefeitável’ pode dispor: vereadores que caminhavam para uma reeleição tranquila. É uma lacuna impossível de ser preenchida.
Neste instante, se houvesse lógica em politica, Alexandre Ferreira deveria estar cuidando de polir sua imagem, apoiado pelos deputados Roberto Engler e Gilson de Souza, pelo PMDB unido com forças como João Rocha, e com todos os secretários municipais se empenhando para que sua candidatura decolasse, especialmente o homem forte das finanças, Sebastião Manoel Ananias. Nada mais distante da realidade. Cada um destes personagens está num lugar diferente. Nenhum deles, com o candidato tucano. O mesmo raciocício se aplica ao PSB de Ubiali. Imaginava-se que os três vereadores do partido estariam desde já nas ruas com suas campanhas, ajudando a impulsionar o nome do candidato a prefeito. Longe disso, cada qual cuida da sua vida. Se tudo isso aconteceu antes mesmo da campanha começar, é de provocar taquicardia imaginar o que ainda veremos até 7 de outubro. Haja coração.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br
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