Embalos


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Neste ‘saturday nigth’ teremos programa dançante. Os maiores de quarenta terão embalo para hoje, depois das vinte e duas horas

Constrange-me falar em embalo. Na fala jovem isso significa algo bem mais diferente que sacolejar, chacoalhar, dançar. Se nos mostrarmos ao filho jovem excitados por um “embalo”, eles vão arregalar os olhos. Se dissermos algo sobre resgatar a “carreira” abandonada, eles nunca irão concluir que a referência é à carreira de dançarinos. É muito perigoso conversar com eles. Tudo mudou, inclusive o sentido das palavras.

Tudo mudou. Nem sabemos se eles têm conhecimento do que seja um baile. Devem achar que isso é coisa do Brasil Colonial. Imagino que se divertem quando lhes é contado que as moças, antigamente, eram “tiradas para dançar”. Duvidam que fomos jovens – eles sempre imaginam que já tínhamos essa conformação desde nosso nascimento. Provavelmente escangalham de rir quando olham fotografias da gente quando enfeitadas, de cabelo engomado, sentadinhas e comportadas num lugar desconhecido e ainda por cima, às vezes enroladas numa estola de peles, uma atitude absoluta e politicamente incorreta nestes tempos modernos de valorização da ecologia.

Confesso, é com certa nostalgia que procuro no baú das lembranças as recordações dos bailes já vividos. Mas isso está bem longe de querer voltar no tempo, de desejar o retorno de toda angústia, medo, frustração e inexperiência vividas enquanto adolescente. Angústia, medo e frustração sim, senhor. Ir a um baile significava correr o risco de tomar “chá de cadeira”. Expressão relacionada com o fato de ninguém (um rapaz, explicação para os mais jovens) lhe dar atenção, dirigir-se à sua mesa e chamá-la para uns volteios no salão. Isso dava medo, mais medo que ser atropelada por um carro na avenida Champagnat, hoje. Como consequência direta, a frustração. E inexperiência, de lidar com essas emoções todas.

Dançar. Ver um casal enlaçado no mesmo ritmo é uma viagem. Fico pensando. O que passaria na cabeça de um índio não aculturado, se invadisse um salão e visse casais abraçados e entrosados num dois pra cá, dois pra lá? Que tal a sugestão apresentada por Juca Chaves, de que a mulher tivesse bundinha na frente e um peito só (não precisaria mais) nas costas? Ele diz que o visual ficaria estranho, mas pra dançar não teria coisa melhor. Ouso afirmar que alguns pares só encontram sintonia quando dançando. E, pior, outros tantos acham uma seleção muito longa quando o par é um, muito curta, se trocam de parceiro. Vai entender o espírito humano! Claro, ouvir o Laércio de Franca é algo fenomenal. Quem curte o som das “big bands” deita, rola e lamenta a do grande maestro não ser conhecida no mundo inteiro, porque sabe que ele se igualaria em qualidade de som com todas as outras.

Estou aqui pensando se vou. Se o motivo for curtir um som, beleza. Se for para lembrar como era bom dançar de “rosto colado” vou ficar frustrada. Na atual configuração física interpõe-se entre os rostos uma proeminente barriga, eufemisticamente chamada de “calo sexual”. Sinal evidente dos anos marcados pela ociosidade esportiva, seu roçar nem de longe causa excitação. E, finalmente, será que teremos pique para encarar a verdade de que os anos passaram e deixaram marcas profundas nos rostos outrora tão lisos, tão belos, tão risonhos? É. É ir para testar. Se não experimentarmos, nunca saberemos...

Explicação
Vai longe o dia em que escrevi e publiquei esse texto pela primeira vez. Coisa de doze anos. Lembrei-me dele – fui procurá-lo e achei – quando li que os The Platters estarão em Franca. De lá para cá, o Laércio de Franca só faz esporádicas aparições – o que é uma pena – mas o grupo americano está aí, firme e forte, embora com formação absolutamente diferente da original. Tudo mudou, de fato, e até piorou nestes anos, visto de certo prisma. Lembranças podem ser reativadas. É ver, para crer. Ou ouvir, para lembrar.

Youtube
Procure no Youtube pelos títulos Unchained Melody (que imortalizou o filme Ghost), Only You, Smoke Gets in Yours Eyes – uma das mais belas canções de amor de todos os tempos. Memoráveis sucessos do grupo que embalava jovens devaneios nos idos de 60...

Gripe
De cama, com febre, tosse, mialgia, inapetência, tremores, peito comprimido e arfante. Os filhos tornados sãopaulinos (vingança do meu pai, palmeirense) dizem que é de medo do timão perder. O filho caçula, parceiro no futebol diz que é tensão: medo de não conseguir chegar lá.

Recurso
“Prestes a assumir o comando do Partido Comunista Soviético, Brejnev recebeu três envelopes do seu antecessor, Kruschev, cuja recomendação foi que abrisse um deles a cada crise que viesse. Veio a primeira. Brejnev abriu o primeiro envelope. O recado: ‘Bote a culpa em mim’. Mais alguns anos, outro dissabor nacional. A segunda mensagem era clara: ‘Bote a culpa em mim de novo.’ Nova ameaça ao cargo de Brejnev e uma vez mais ele teve de lançar mão da sapiência de Kruschev. E qual era o último conselho? ‘Prepare três envelopes’. Mesmo sendo uma atitude desprezível e baixa, pôr a culpa em outros não é nada vergonhoso para muitos políticos.” (Da internet)

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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