Jogos mortais


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Sem alternativa, Mateus Lopes fez o  que se espera de uma pessoa de bem.  Chutou o pau da barraca e foi com  sua paciente arrancar a internação.
Sem alternativa, Mateus Lopes fez o que se espera de uma pessoa de bem. Chutou o pau da barraca e foi com sua paciente arrancar a internação.

“Só é digno da vida aquele que vai, todos os dias, à luta por ela”
Johan Wolfgang von Goethe
,
escritor alemão

Poucas discussões tem se mostrado tão cansativas, aborrecidas, intermináveis, recorrentes e inócuas como aquelas que cercam a falta crônica de recursos financeiros alegada pela Santa Casa de Misericórdia de Franca. Ninguém aguenta mais ouvir a ladainha de sempre clamando por necessidade de apoio, repetida rotineiramente pela provedoria da instituição, ainda mais quando se constata que a intensidade do pedido de socorro é inversamente proporcional à disposição de abrir suas contas a um exame rigoroso da sociedade. Sempre que instados a fazê-lo, seus dirigentes, hábeis no manejo de planilhas de Excel com seus gráficos coloridos, preferem o subterfúgio cômodo de dizer que a legislação proíbe que divulguem, por exemplo, os salários pagos pela instituição. O detalhamento da despesa é informação confidencial, à qual muito pouca gente tem acesso.

É óbvio que todo mundo reconhece a importância do hospital e ninguém é burro o bastante para ignorar o fato de que a Santa Casa é o único refúgio possível para quem, sem plano de saúde, precisa de atendimento médico. É para lá que convergem os mais necessitados, a camada mais humilde da população, os que sem privilégio não têm a possibilidade de escolha. É uma relação de dependência onde, de um lado, está quem pode ajudar, e de outro, quem não tem mais onde pedir ajuda. De um jeito ou de outro, a equação tem que se completar simplesmente porque não há, no horizonte próximo, alternativa possível.

A prática, infelizmente, está distante disso. Multiplicam-se os registros de problemas com a Crue, sigla para Central de Regulação Única do Estado, cujo histórico de problemas tornaria mais justo que fosse conhecida por Cruel. É este organismo que detém o poder de decidir quem consegue ou não consegue uma vaga para ser internado na Santa Casa. Dizem seus experts que ninguém que precise fica sem atendimento, mas não faltam exemplos de que, no dia a dia, o tal sistema informatizado de gerenciamento se mostre desregulado, mais parecido com um videogame primitivo que trata as vidas das pessoas como se fossem ficção. Afinal, ninguém precisa ser sumidade em medicina nem de ajuda de computador para concluir que uma pessoa com dores abdominais intensas, diagnóstico de apendicite e há horas esperando por uma vaga precisa ser internada, com papel ou sem papel, com aval ou sem aval de quem quer que seja.

Na madrugada desta quinta-feira, a quase-tragédia mais uma vez se repetiu. Maria dos Reis Freitas foi atendida no pronto-socorro “Dr. Janjão” pelo médico plantonista Mateus Lopes. O diagnóstico, de apendicite, tornava imperativo a internação na Santa Casa. O plantonista cumpriu o protocolo e formalizou o pedido através da Crue. Doze horas depois, tempo suficiente para alguém entrar num avião em São Paulo e desembarcar em Paris, sua paciente ainda aguardava pela tal autorização. Quem já operou de apendicite sabe o que significa aquela maldita dor. Senti-la por doze horas é agonia inimaginável.

Sem alternativa, Mateus Lopes fez o que se espera de uma pessoa de bem. Chutou o pau da barraca. Foi com sua paciente direto para a Santa Casa para arrancar a internação. Ao chegar lá, mais problemas. Um colega, funcionário da Santa Casa, recusou-se a internar a paciente mesmo diante do médico que havia feito o diagnóstico – e, tanto pior, da própria paciente que agonizava há tantas horas. Houve uma discussão, Mateus Lopes foi xingado por seu colega da Santa Casa, um Boletim de Ocorrência foi registrado mas, no fim, pelo menos Maria dos Reis Freitas acabou internada. Foi operada, o que mostra a precisão do diagnóstico que recebeu no “Janjão”, e passa bem. Lacônica, a Santa Casa diz que vai apurar o incidente, mas nega irregularidades.

Consta no Boletim de Ocorrência que o médico da Santa Casa teria qualificado Mateus Lopes, o plantonista do “Janjão”, de “médico de merda” quando ele forçou o atendimento. Desconheço as credenciais do profissional encarregado de internar os pacientes na Santa Casa, mas não me parece que o “merda” que ele usou seja o adjetivo adequado para classificar alguém que, como Mateus Lopes, luta pela vida de uma pessoa sem recursos, que enfrenta um sistema de controle de vagas burro, que se arrisca a enfrentar um colega de profissão e o corporativismo típico da classe. Em que pese juízos de valor serem sempre personalíssimos, prefiro termos como brioso, íntegro, decente, corajoso e honrado para definir o caráter de Mateus Lopes.

Se na próxima vez ele precisar de ajuda, é só me ligar. Na pior das hipóteses, seremos dois gritando na porta da Santa Casa para garantir que um paciente com dor e necessidade de cirurgia seja atendido, independente do que diga o podre videogame do governo do Estado conhecido como Crue, indiferente ao tamanho do rombo financeiro da instituição, qualquer que seja a opinião de quem estiver controlando as internações na Santa Casa. Não é questão de bom-mocismo nem heroísmo, mas de dignidade mínima. Só isso.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br
 

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