Há vinte e cinco anos terminávamos a construção da casa onde vivemos ainda hoje
A casa, embora tenha mudado algumas vezes de cor, nunca sofreu reforma drástica, sinal de que tínhamos certeza de desejos e aspirações com relação à estrutura da morada que consideramos definitiva. Já abrigou muito mais gente que hoje: quatro filhos, amigos – deles e nossos –, ajudantes, parentes, visitas. A mesa de doze lugares lotada, não raro, ganhava extensão para acolher visitantes de última hora. Tempo bom. Tempo alegre. Já passou. Contudo, ficou o jardim. E ele, ao contrário da casa que se manteve íntegra, mudou muitas e muitas vezes. Na configuração e no conteúdo, menos no espaço. Meu jardim mudou. E eu, com ele.
O primeiro jardineiro, sr. Ulisses, vinha todas as manhãs e era dono do jardim. Cumpria ordens, que escolhia: se não concordava – trocar uma planta, mudar o desenho do canteiro – dizia sim, senhor, sim, senhora, mas não executava. Teimoso e fiel cuidava daquele jardim de estética projetada por técnicos, plantas selecionadas e artisticamente distribuídas. Por essa época, eu só o desfrutava, olhando-o enquanto entrava e saía de carro da garagem. Depois veio a era do sr. Antônio. Ele madrugava. Vinha de bicicleta, o radinho no bolso da camisa ligado nas emissoras que davam notícias das desgraceiras do dia anterior, que ele se incumbia de comentar, com pormenores. Nunca faltou um dia do trabalho. Adorava uma conversa, parecia arame farpado: qualquer um que passasse, ficava preso. Teimoso. E gostava de chupar balas enquanto trabalhava, cujos envoltórios jogava atrás dos canteiros. Coincide com sua época o pôr meu pezinho na terra, a mãozinha no vaso, esgoelando quando via lagartixas. Tomei gosto, a despeito de tudo. Comecei a frequentar o jardim, a passear nele, ousar fazer pessoalmente, mudanças, desfrutá-lo. Ao perceber que começara a se parecer comigo, entusiasmei-me. Dessa época em diante, uma vez por ano, Lucas e seu Joel vinham para me ajudar. Ficávamos, no começo do outono, durante mês inteiro a escavar, trocar, plantar, adubar, podar. Botei luvas e botas de borracha, já me atrevia a botar a mão na cumbuca, mesmo mantendo o medo de bichos. Agora temos outro ajudante, Onilson. Caprichoso, calado, sorridente, tranquilo. Este ano, terminei o período de jardinagem há poucos dias. Mudança absoluta. Um mês inteiro com o nariz enfiado na terra, com os três ajudantes. Pensei que eu fazia bem para o jardim, até que percebi que trabalhar nele é que me fazia feliz.
Prudêncio, autor do poema Psycomachia, contrapõe os sete pecados capitais com sete virtudes e o escritor Roberto Araújo as adaptou magistralmente em texto intitulado As sete virtudes de um jardim, que veio às minhas mãos através do também jardineiro Renzo Covas. Começa pela Simplicidade: o jardim deve ter poucos elementos. Fique sempre só com o essencial. Generosidade: aprenda a compartilhá-lo para ganhar a companhia dos pássaros, animais e pessoas de bom coração. Moderação: seja econômico com seu jardim, não lhe dê tudo que você acha que ele precisa. Plantas, também, devem passar por momentos de seca, vento e estresse. Objetividade: avalie sempre o que vai fazer e dê muito valor a cada minuto. Não desperdice tempo e trabalho. Paciência: é inútil apressar uma planta. Cada espécie tem seu tempo de crescimento, latência e floração. Controle a ira, quando perceber que sua vontade não prevalece. Replante, sempre que for preciso. Caridade: seja como for, seu jardim é o mais bonito do mundo para você, que o fez. Representa aquilo que você conseguiu fazer: não inveje o dos outros. Humildade: surpreenda-se. Mantenha os olhos abertos às novidades. Quem acha que tudo sabe, perde o melhor da vida. Deixe seu espírito aberto para aprender com as plantas. O resultado da dedicação superou, este ano, os limites do meu jardim externo.
ASPAS
‘Um administrador administra. Três administradores procuram os meios de administrar. Cinco administradores discutem o programa de administração. Sete administradores apenas batem papo.” (Paul Lafitte)
PARTIDA
Lentamente minha geração substitui a geração anterior, que costumávamos chamar de mais velha. Dia 16 partiu Norma Bego Maníglia, que foi casada com Benedito Maníglia, irmão do meu avô Nicola Maníglia. Uma vida linda, de muita luta e trabalho, que deu origem a filhos - Rosa Mônica, José Victor, Agostinho Olney, Antônio Jayter e João Jairney - que dignificaram o nome e as virtudes do clã. Gente batalhadora, corajosa e guerreira, a exemplo dos pais.
EXPOAGRO
Continua quente, este ano, apesar do frio externo. Os artistas que estão se apresentando nos shows noturnos são agitadores e rebolantes, o povo retribui, ao comparecer em massa. Pouco se fala, porém, do gado e dos animais que estão expostos e participando de concursos. Muito obrigada, continuo acompanhando pelo Comércio, que faz enorme e excelente cobertura. Continuarei em casa, torcendo para que seja sucesso e dê muito retorno – em todo sentido – à cidade.
TRILHA
Qual a mais linda trilha musical, a de Frida - do filme homônimo, com Salma Hayeck e Alfred Molina ou a do longa Lendas da Paixão - com elenco que inclui Brad Pitt e Anthony Hopkins? Se não concluir, ao final terá se divertido. Terá (re)visto dois excelentes filmes e escutado músicas da melhor qualidade. É bom rever, seja o que for: pessoas, filmes, livros, atitudes, posturas e decisões.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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