Li no Comércio: ‘647 crianças de 10 até 13 anos trabalham em Franca’. Horrível? Horrível. Desumano. Injusto
Há anos, quando a primeira pesquisa nesse sentido foi feita para levantamento do número de crianças ocupadas em atividades incompatíveis com a faixa etária, revelou-se que sim, elas existiam. E eram numerosas, bem mais que agora. Foi um Deus nos acuda. Na ocasião trabalhava em casa uma jovem de nome Toninha, que tinha dois filhos de 12 e 8 anos, grávida do terceiro. Morava na Vila São Sebastião, tinha casa própria, o marido estava empregado. Enquanto ela vinha prestar serviço doméstico, o filho menor ficava na creche, o maior ia para a escola. O pai almoçava em casa, com o filho. Depois do almoço, Sergim – era assim seu nome, em homenagem do pai ao jogador homônimo do São Paulo – ia trabalhar na oficina mecânica do tio, vizinha à sua casa. Toninha chegava, recolhia os meninos e a rotina da casa continuava: banho, jantar e televisão. Quando havia, assistiam às transmissões de jogos de futebol. Não os perdiam por nada e viam juntos os do São Paulo e do Corinthians contra quaisquer outros times. Se, porém, era o clássico, envolvendo os dois times, ou o pai ou a mãe saía de casa para neutralizar a incompatibilidade: ela era corinthiana. Roxa.
Toninha ouviu falar da pesquisa, escutou no rádio acusações e denúncias, ouviu discursos inflamados conclamando a paralisação de fábricas, oficinas e lojas que usassem mão de obra infantil, impedindo que as crianças aproveitassem apropriadamente a fase que deveria ser dedicada apenas a estudos, brincadeiras e lazer. Ela ouviu tudo com interesse e no final deu seu parecer. Disse que ninguém a havia procurado. Que era uma pena. Que se tivesse sido abordada, diria que louvava a oportunidade do filho estar entre parentes sadios, aprendendo uma profissão. Que ela teria medo se ele ficasse sozinho em casa ou sob os cuidados de estranhos, sentado vendo figurinhas, com tempo livre para atender aos chamados dos vagabundos que não faltam para oferecer drogas e outros divertimentos do gênero.
Contou de outras crianças da vizinhança, mesma idade de Sergim, que pareciam mais velhas, por causa do uso de substâncias químicas danosas. Que ela sairia com ‘um quente e dois fervendo’, se fossem atrapalhar a rotina que ela considerava ideal. Disse que seria realmente, muito bom, se ela pudesse ficar em casa com os filhos, que pudesse lhes dar, além da comida e dos estudos, computadores, jogos, vídeo-games, mas essa não era sua realidade financeira. E depois, disse ela, é para criança ser criança? Cadê o tempo do seu filho com tanta atividade? Ele tem inglês, reforço, natação, aula disso, daquilo, o computador dele está mofado, o vídeo acho que nem funciona mais. E as crianças que trabalham em circo, na televisão? Elas também têm direito às delícias da infância.
Bem que tentei contra-argumentar. Mas ela fincou pé, dizendo que o mundo é injusto mesmo. E que se eu pensasse bem, eu deixaria de trabalhar fora para ficar mais tempo com meu filho, brincar mais com ele, ensiná-lo eu mesma aquilo que eu sabia, mas pagava para que outros o ensinassem. Que se fosse procurada, brincou, ela mandaria a equipe me entrevistar.
É claro que há abusos. Evidente que muitos pais exploram os filhos e os usam até para provocar misericórdia, piedade – ou sentimento de culpa – naqueles a quem pedem para comprar a balinha e o chiclete que são oferecidos na janela do carro. Mas em sã consciência: não seria mais eficaz lutar por decência, dignidade, corrupção zero e melhor distribuição de renda antes de punir pais que tentam conservar os filhos longe dos perigos do ócio? Difícil responder.
GUARDINHAS
Uma fantástica instituição francana, que serviu de modelo para muitas várias outras cidades, chamada Guarda Mirim rodou quando o radicalismo acabou com suas atividades que foram consideradas exploração de mão de obra infantil. Os guardinhas prestavam serviços supervisionados e assessorados por adultos. E recebiam gratuitamente cuidados médicos, odontológicos, pedagógicos, acompanhamento escolar, aulas de datilografia. Quando atingiam certa idade, eram encaminhados para empresas, que os acolhiam e continuavam o treinamento profissional.
INFÂNCIA
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé, comprida história que não acaba mais. No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu chamava para o café. Café preto que nem a preta velha, café gostoso, café bom. Minha mãe ficava sentada cosendo olhando para mim: - Psiu... Não acorde o menino. Para o berço onde pousou um mosquito. E dava um suspiro... que fundo! Lá longe meu pai campeava no mato sem fim da fazenda. E eu não sabia que a minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé. (Carlos Drummond de Andrade)
MÃES
Para minhas amigas mulheres, cujos corpos são matriz e fonte de vida, nesse Dia das Mães: que tenhamos todas um lindo dia. Que sejamos abraçadas e acarinhadas pelos filhos. Que possamos abraçá-los e acarinhá-los de volta. Que nos reconheçamos positivamente nas atitudes e personalidades deles. Que eles nos sejam gratos pela vida que lhes demos. Que possamos agradecer hoje o cumprimento que nos derem e a homenagem que nos fizerem com a sensação de que, realmente, somos merecedoras. Que se os fizemos seres, eles – também por nossa atuação – se tornaram humanos.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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