A jornada


| Tempo de leitura: 5 min
Viagens são sempre jornadas. Os lugares, apenas coadjuvantes de um espetáculo onde os protagonistas somos nós mesmos
Viagens são sempre jornadas. Os lugares, apenas coadjuvantes de um espetáculo onde os protagonistas somos nós mesmos

‘Amigos, uma família em que
os indivíduos elegem-se à vontade’
Jean Baptiste Alphonse Karr,
escritor francês


Estou de volta ao Brasil após algumas semanas viajando pelos Estados Unidos com um grupo de pessoas que, um dia funcionários, transformaram-se com o tempo e as circunstâncias em grandes amigos. Participamos de congressos e visitamos lugares históricos importantíssimos para qualquer profissional de comunicação. Mas, sobretudo e ainda mais importante, conversamos muito, rimos demais e choramos sem economia em espetáculos cuja beleza e impacto inviabilizam qualquer tentativa de descrição. Foi tudo muito bom.

Neste ano, viajei acompanhado pela editora-chefe Joelma Ospedal; a gerente comercial Marcia Castelo Branco; a executiva de Contas Premium Sandra Lima; e o repórter Edson Arantes, meu colega de quarto e, de longe, o mais divertido, espontâneo e cara-de-pau jornalista a pisar solo americano.

Todos foram excelentes companheiros de viagem, mas o Edson simplesmente roubou a cena. Apesar do seu inglês alternativo, não houve americano que resistisse a sua simpatia. De restaurante elegante a lanchonete onde se vendia pizza por pedaço, dos corredores da conferência da NAB Show aos vendedores das lojas, Edson interagiu com todo mundo, até com quem parecia pouco receptivo. Falou do Brasil, do churrasco, das caipirinhas, dos times de futebol, ensinou palavras e frases em português, tirou muitas fotos e, claro, contou para o mundo da sua Caldas, estância mineira onde nasceu.

Foi justamente sua origem que garantiu as melhores risadas. Estamos todos doutorados na história da cidade mineira, cantada em prosa e verso por seu filho mais orgulhoso. Nossa aula magna sobre Caldas foi proferida por Edson no Café Bellagio, que funciona dentro do mítico hotel de Las Vegas. Foi ali que nos contou pela primeira vez sobre o Grand Hotel Pocinhos, uma ‘obra-prima’ e mais antigo em funcionamento no Brasil; sobre as belezas de Pedra Branca, pico de 1700 metros que é de uma beleza ‘fantástica’; e sobre o bucolismo de Pocinhos do Rio Verde, bairro onde seus pais moram até hoje.

Edson também propagou as propriedades das águas termais da cidade, boas para regular o intestino, rejuvenescer a pele e ainda garantir ‘beleza imediata’. Com poesia descreveu o clima da cidade, ‘um frio cortante’ capaz de fazer os gélidos paredões do Grand Canyon ao anoitecer parecerem areias escaldantes do Saara.

Discorreu também sobre os parreirais, cuja exuberância garantiria um vinho atestado por ‘grandes conhecedores’. E, a cereja do bolo, um evento que reúne milhares de fãs sempre em julho, todos ávidos por experimentar delícias que só fazem sentido se provadas onde são produzidas: a Festa do Biscoito. As iguarias de polvilho, recheadas com pernil ou frango com catupiry, são servidas acompanhadas por uma dose de pinga. Servida no bambu, claro.

A partir daí, Edson não parou mais. Diante de qualquer beleza, Edson invocava a sua Caldas para dizer que, apesar de estupefato com tudo que via, a sua cidade Natal não ficava muito atrás. ‘Vocês vão conhecer. É demais’, insistia.

Não que duvidássemos do potencial de Caldas, mas parecia um pouco despropositado o fervor com que defendia sua terra. Bonito, mas fora de base. ‘Vocês vão ver quando conhecerem o meu irmão. Ele gosta mais de Caldas do que eu’, rebatia. E assim foi por toda Las Vegas, através das longas estradas que levam ao Grand Canyon, e na chegada a Nova Iorque.

Carlos Reis, o irmão do orgulhoso caldense, emigrou para os Estados Unidos há 25 anos. É hoje cidadão americano e mora em Mount Kisco, uma hora ao norte de Nova Iorque, onde administra as propriedades de um empresário local. Simpático, contou sobre sua luta de imigrante, as conquistas e, claro, da saudade de casa. Era a deixa que Edson esperava.

‘Carlos, fala para eles de Caldas. Eles estão duvidando de mim’, suplicou Edson. ‘Falar o quê?’, rebateu o irmão. ‘Que é isso, Carlos? Fala do Grand Hotel, do vinho...’. Inclemente, o irmão não se fez de rogado. ‘O Grand Hotel é legal, mas nada demais. E que vinho? Ali nem tem uva direito...’. Desesperado, Edson apelou. ‘E a Festa do Biscoito?’. Carlos continuou impassível. ‘É só uma quermesse’. Edson invocou então o pico da Pedra Branca. Carlos resumiu o que imaginávamos. ‘ Mas lá não tem nada’.

Inconformado, Edson fez um apelo emocional. ‘Então, Carlos, se você não gosta de Caldas, por que você vai lá duas vezes por ano?’. A resposta foi de uma sinceridade desconcertante. ‘Por causa da mamãe’. Edson quase começou a chorar. E a gente, a rir. ‘Pela mamãe?’. E Carlos, firme. ‘É claro. Se não fosse por ela, acho que nem iria mais a Caldas’. Nem assim Edson perdeu o humor. ‘Então também não gosto mais tanto de lá’.

Foi a última vez que ouvimos falar de Caldas nesta viagem, mas não a última vez que Edson Arantes nos surpreendeu com sua personalidade, humor, e, mais importante, emotividade. Foi o choro dele diante de monumentos, museus e igrejas, durante os espetáculos e depois de cada copo de cerveja que ditou o ritmo dos nossos próprios soluços.

O que talvez Edson não tenha percebido é que viagens são sempre jornadas, mas os lugares, apenas coadjuvantes de um espetáculo onde os protagonistas somos nós mesmos. O que Edson via na sua bela Caldas era a sensação de acolhimento que só a cidade natal proporciona. Aposto também que o que tanto o emocionou na nossa passagem pelos Estados Unidos foi um sentimento análogo. Nos emocionamos, rimos, choramos e nos divertimos porque formamos um grupo que valeu muito a pena. O que realmente importa são os personagens de cada história. O resto, são só cenários.

PS: o GCN Tour - Edition Fourth, como Edson apelidou nossa trupe, já tem data marcada para se reunir. Julho, em Caldas. Obviamente, na Festa do Biscoito.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários