Há algumas gerações, a escolha das atividades futuras dos jovens era tarefa se não simples, pelo menos não traumática
Desde cedo, garotos e garotas manifestavam tendências, pendores, simpatias, identificações com as profissões e caminhos disponíveis. Claro, havia pais que forçavam a barra em nome da tradição familiar: o bisavô, o avô, o pai eram, o filho tinha que ser, também. Dramas do gênero existiram, mas nenhum foi responsável por tragédia irreparável, só por perda de tempo. Depois das solenidades de formatura, muitos dentistas forçados viraram comerciantes; advogados, construtores; engenheiros, professores. E foram felizes até que testes de vocação viraram moda e ninguém mais soube o que fazer. Claro, exagero um pouco, mas, na década de 80 era comum nós, professores, entrarmos em salas de aula e perguntarmos a alunos de terceiro colegial sobre o futuro e eles responderem que estavam em dúvida: não sabiam se prestavam vestibular para Educação Física ou Engenharia Mecânica; Medicina ou Moda; Física Quântica ou Direito, como se fossem áreas próximas ou afins.
Perguntava às lindas e escrupulosas mocinhas cujo anseio era Odontologia, se imaginavam o que as esperava nos consultórios. Elas viravam os olhos: idealizavam-se em roupas imaculadamente brancas, até engomadas. Móveis tinindo de novos, eficiente atendente do lado de fora, agenda lotada, crianças na sala de espera, à espera de apertar o pino do aparelho ortodôntico triscando de escovado. Aí eu entrava: mas há crianças com cacos de dentes quebrados e sujos, boquinhas fedidas, infeccionados, com secreção. As estudantes gritavam comigo, mostravam-se arrepiadas e riam: diziam que eu havia jogado balde de água gelada nelas. Não filha, mostrei uma possibilidade, respondia. Idem para os talentosos futuros médicos ginecologistas, antecipando visão e circunstância de triste realidade, que não relaciono, porque posso ferir melindres. Não seria a regra geral, claro, mas era imperioso contar com todas as favas.
Entramos no novo século. Não inauguramos, porém, era de certezas ou menos indecisão. Com relação ao futuro profissional há campo imenso à frente dos jovens – a lista de possibilidades cresceu, ouve-se falar de atividades que nem nos gibis do Flash Gordon foram previstas. As especializações se multiplicaram. Com relação à satisfação e êxito do mesmo futuro, anda todo mundo meio perdido. Não é crítica: imagino que hoje os jovens têm maiores chances de acertar suas escolhas pessoais. A dificuldade desviou-se para como descobrir a forma de se relacionarem com os clientes, com os concorrentes, com eles mesmos. A dificuldade está na ética a ser usada no desempenho de suas funções.
Tais idéias sobre ética me atormentaram quando comparei a situação da empregada doméstica que ficou presa meses e quase morreu de vergonha dos amigos porque roubou um pote de margarina e a situação do José Dirceu, que comandou esquema de desvio de dinheiro público, não foi punido e foi reeleito. Fiquei horrorizada quando percebi que médicos e professores têm salários de 1,3 mil a 3 mil enquanto os dos deputados e senadores partem dos 26 mil e podem chegar a 100 mil. Que os bombeiros heróis ganham R$ 1198 (brutos) e os heróis do BBB podem faturar 1,5 milhão e muitos mais com cachês milionários de publicidade. Bem, o salário do ascensorista do Palácio do Planalto chamaria, para ser boazinha, de indecente: 8 mil. Quem mandou essas informações - que podem ser checadas - chamou-as eufemisticamente de discrepâncias. Pois eu as chamo de sacanagens mesmo. Não ando com muito orgulho do mundo que estou deixando para meus netos, não.
VERDADE
Homem rico deixou tudo e saiu pelo mundo em busca da Verdade. Andou anos, perguntando por ela nos quatro cantos da Terra. Alguém apontou alta montanha e disse: ‘Lá em cima há uma gruta, dizem ser lá que mora a Verdade.’ Ele subiu e encontrou mulher velha, suja e maltrapilha. ‘Você é a Verdade?’, perguntou. Ela respondeu sim, com voz tão cristalina, segura e maviosa, que não deixou dúvidas. Ficou ali, com ela muito tempo aprendendo e fazendo-lhe perguntas. Quando sentiu saudades de casa, ao se despedir, perguntou à velha o que poderia fazer por ela, que tanto havia feito por ele. Ela pensou e respondeu: ‘Quando perguntarem por mim, diga que sou jovem e bonita.’ (Lenda inglesa)
LINGERIE
Franca já foi terra do café, ainda é do calçado masculino e, parece, em breve será chamada de Terra da Lingerie. As indústrias se multiplicaram, a diversidade é surpreendente. Há lojas próprias e há esquemas de venda porta-a-porta. Há indústrias que reproduzem o modelo que se desejar. Vendedora conta que grande parte da carteira de seus clientes particulares é formada por homens, que escolhem pessoalmente as peças para as esposas. E que eles preferem os modelos mais ousados, de cores mais vibrantes.
BANDA
LP dos mais reproduzidos na nossa infância na Saldanha Marinho foi o da Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. Ouvimos tanto, que aprendemos a cantar Dama das Camélias, marcha de Alcyr e João de Barro, gravada décadas depois por Caetano Veloso. (A sorrir você me apareceu, e as flores que você me deu, guardei no cofre das recordações. Porém, depois você partiu pra muito longe e me deixou, e a saudade que ficou, ficou pra magoar meu coração. A minha vida se resume, ó Dama das Camélias, a duas flores sem perfume, ó Dama das Camélias.)
EDIMBURGO
Em todos os verões, nesta cidade da Escócia é realizado o Edinburgh Military Tattoo. Às vezes é prestigiado por Sir Sean Connery (ai, meu Deus), com kilt e tudo. A Banda Marcial dos Fuzileiros Navais do Rio de Janeiro, que eu confundia com a dos Bombeiros, apresentou-se na edição 2011. Quem quiser um intervalo musical (e bom) na correria do cotidiano, acesse http://www.youtube.com/embed/dJCeseZt6Kc
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.