Bourdaloues e similares


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O assunto, quase tabu, é interessante. Quase tabu e, se abordado, com certeza, avaliado como tema de considerável mau gosto, indelicado, rude e inconveniente

Não deveria ser assim. Como sabemos, o ser humano tem necessidade de saciar seis necessidades fisiológicas básicas para sobreviver, quais sejam a fome, sede, sono, sexo, excreção e abrigo. (A teoria é de Maslow, não minha.) Delas, sexo e excreção são comentadas socialmente a meia voz ou apenas por especialistas. Também à meia voz. Não? Vamos ver. O sujeito chega a uma sala abarrotada e clama: ‘Tenho fome!’ ou ‘Tenho sede!’ ou, ainda ‘Tenho sono!’. ‘Preciso de um teto!’. O que fazem os presentes? Olham-no com comiseração, mostram-se solidários, procuram comida, água, local para esvaziar seu sono ou tratam de olhar os comerciais para arranjar-lhe casa. O mesmo sujeito chega a outra sala e clama: ‘Preciso de sexo!’ ou ‘Arranjem-me um banheiro, pelo amor de Deus!’. O que acontece? Encaminham-no para o hospício: é tarado. É motivo de riso, no segundo e muito mais dramático caso. Nós, mães, além de ensinarmos filhos e filhas a usar expressões como ‘muito obrigado’, ‘dá licença?’, ‘por favor’ e ‘desculpa’, temos a incumbência de mostrar-lhes as maneiras de resolverem as outras necessidades. Quanto às expressões, pela prática: a gente faz, eles imitam; em se tratando de sexo, consultamos especialistas; no caso das excreções, pelo treino. Deles.

Fascinantes temas, sexo e excreção. E, do ponto de vista analítico, como tiveram modificadas concepção, compreensão, tolerância e aceitação ao longo do tempo. De certa forma, a satisfação dessas duas particulares necessidades, tão humanas, dispensam colaboração externa: qualquer um as resolve sozinho. Ainda hoje, com toda moderneza vigente, chamar espectadores para apreciar qualquer das duas performances é considerado atitude não muito ortodoxa e provocadora de certo estarrecimento: o gesto que Gustavo Lima faz quando canta tchê, tchererê, tchê, tchê, tchê - eufemismo para você-sabe-o-quê, por exemplo. Deixemos, por ora, tudo que diz respeito ao tchê, tchê para lá. Vamos para Santa Catarina, Joinville. No Museu do Imigrante (alemão) há réplica de casa de colono, onde a peça mais curiosa é o banheiro. Fica na parte externa, é cubículo onde apenas cabem o vaso sanitário e chuveiro. O casal que tivesse hábito de ir juntos, ocupados em atividades diferentes, teria que optar por: ou ficar molhado e usar o vaso, ou tomar banho e não sentir os eflúvios do perfume do sabonete. Dilema à parte, os olhos do turista se voltam para o balde cheio de sabugos de milho, usados para higiene íntima dos antigos colonizadores. Não à toa, nas fotos - colocadas nas paredes das salas - os imigrantes estão quase sempre em pé.

Voemos para o passado, para a corte dos Luíses franceses. No canto do majestoso quarto, trono estranho: no assento, buraco estratégico. Sob ele, recipiente familiar de porcelana, finamente decorado. Ali cada Luís depositava, publicamente - na frente dos súditos - o resultado da digestão dos faisões, caças e finos pudins. O convite para tal espetáculo, para o qual as damas deviam levar seus leques, era considerado de subida honra. Voltemos.

Vamos para a Ásia, agora. Encontremos indianos, chineses, turcos, tailandeses, árabes, gente de tecnologia de ponta, avançados sistemas e desenvolvimento material. E arraigados costumes. Nos mais modernos banheiros femininos, como os dos aeroportos, duas fileiras de boxes. Nos de cá, vasos sanitários, cujo fluxo de descarga se dá quando a usuária se move, por qualquer motivo. Nos de lá, recipientes de porcelana enterrados no chão, com espaços para a mulher apoiar os pés dos dois lados, despir-se parcialmente, fazer pontaria, abaixar-se e utilizá-lo. Pura logística asiática. Em alguns, oferecem areia para higiene íntima; em outros, torneira com água. Nos de antigamente, balde com canequinha. Bem, eu ia falar de penicos. Quase cheguei lá. Fico por aqui, literalmente com o penico na mão.

BOURDALOUE
Tipo especial de penico com design desenvolvido para uso exclusivo de damas do século XVI. O nome talvez seja inspirado em Louis Bourdaloue, padre que fazia sermões tão longos que as damas colocavam os vasos discretamente sob a roupa, para não passar constrangedores apertos durante a peroração religiosa.

RECLAMAÇÃO
O site http://www.ciudad-rodrigo.net/Pesetos/ pesetos.htm não quis abrir. Abre, sim. Basta copiar o endereço como está, inclusive com a maiúscula. Só pode ser lido em espanhol, mas é de fácil compreensão, visto que assunto e utilização são universais. E o objeto exposto e tema da mostra é bastante popular. Se bem que hoje tenha uso restrito, ainda faz parte das nossas lembranças.

PÁSCOA
Ótimo Domingo de Páscoa. Tomara que seu coração seja tomado por alegria bem grande, a mesma que nos invade quando percebemos o sentido de Renascer que a data nos traz. Renascer a cada dia, a cada hora, a cada momento, para que possamos crescer individualmente e poder ajudar tanto no desenvolvimento das pessoas que amamos como no deste país que precisa tanto de esperança e cidadãos, para fazer dele lugar digno para se viver. Excelente Páscoa!

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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