A decisão


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Vale a pena viver em quaisquer circunstâncias, ainda que presos a uma cama e mergulhados em dor por dias e noites sucessivos, sem chance de cura ou melhora?
Vale a pena viver em quaisquer circunstâncias, ainda que presos a uma cama e mergulhados em dor por dias e noites sucessivos, sem chance de cura ou melhora?

“O que é belo não morre:
transforma-se em outra beleza”
Balley Ardrich,
escritor americano


A reunião da rádio, o encontro semanal dos principais gestores da Difusora para discutir os detalhes da operação, é sempre a melhor da semana aqui no GCN. O dia, sexta-feira, é propício. O horário, por volta das 18h30, muito bom. O local, uma sacada, agradabilíssimo. É também a última das dezenas que fazemos rotineiramente com os vários setores que compõem as empresas do grupo e, por isso mesmo, tem caráter de celebração, de comemoração de mais uma semana que chega ao fim.

Exatamente por tudo isso, estranhei quando, ao final da reunião desta última sexta-feira, o diretor artístico, Everton Lima, voz embargada e olhos marejados, disse que tinha mais um assunto a tratar comigo. ‘A família quer que eu leia a carta de despedida do menino...’, balbuciou rapidamente. Terminada a frase, cruzou os braços como faz sempre que se emociona, como se apertar o próprio tórax o ajudasse a segurar o choro. Imaginei do que se tratava. Perguntei quem o havia procurado. ‘Um tio. Pediu que eu lesse a carta em meu programa’.

Há anos ignoramos notícias de suicídio no Comércio e na Difusora. Quando noticiamos, em circunstâncias excepcionais e apenas nos casos em que o desfecho tem outras implicações - quando há um crime seguido de suicídio, por exemplo, ou ainda quando quem põe fim à própria vida é uma figura pública - procuramos seguir as orientações do CVV (Centro de Valorização da Vida), especialmente a recomendação de nunca detalhar as circunstâncias ou o modo de ação.

Mas, neste caso, estávamos diante de um pedido diferente, feito pela própria família, que desejava tornar pública a última manifestação de um rapaz de 23 anos, cuja vida chegou ao fim na segunda-feira, 26 de março. Perguntei ao Everton se ele havia lido a carta. Fez um breve aceno com a cabeça em sinal afirmativo, sem conseguir acrescentar uma palavra sequer. Chamei Joelma Ospedal, editora-chefe do Comércio. Trocamos impressões. Sim, valia a pena publicar, defendia Joelma. Confirmamos mais uma vez com a família seu desejo. Seguimos em frente.

Para quem desconhece os detalhes fundamentais, Diego Morais era um rapaz bonito, forte, trabalhador. Estudava engenharia civil na Unifran. Na noite de 28 de maio de 2010, ao deixar a faculdade rumo a sua casa, escorregou com a moto numa poça de óleo. Sofreu ferimentos gravíssimos, que provocaram severas sequelas. Desde então, descontados os vários períodos de internação em hospital, sua rotina se resumia a permanecer imóvel na cama do próprio quarto, acometido por dores atrozes. Precisava de assistência e ajuda para tudo. Na última segunda-feira, pôs fim à própria vida. Deixou uma carta para familiares e amigos.

A última mensagem de Diego está publicada hoje na página A-17. Desde que li seu conteúdo, não consigo pensar em outra coisa. Suas palavras agradecidas, emocionadas, nada piegas, forçam uma reflexão que resulta necessariamente em profundas inquietações. Uma delas, em especial, é um desafio a todos os cânones com os quais nos defrontamos desde o nascimento. Vale a pena viver em quaisquer circunstâncias, ainda que presos a uma cama da qual somos incapazes de sair e mergulhados em dor por dias e noites sucessivos, mesmo que não reste qualquer possibilidade de cura ou melhora? Qual seria o nosso próprio limite pessoal diante do infortúnio? Como agiríamos se tal decisão tivesse sido tomada por um ente querido?

Na longa despedida de Diego, não há aspereza. É evidente que ele não está feliz, mas o seu balanço final é muito mais um lamento do que uma expressão de revolta. ‘Um dia, quando acordei, vi que tudo se foi, escapou por entre os dedos e me deparei com a dura realidade: o que me restara era pouco pra mim...’ Ele sente falta do homem que foi, lembra com carinho dos muitos momentos de felicidade e diz que se tivesse que rodar o mundo atrás de uma solução, enfrentaria o desafio. Mas, admite, não existe tal alternativa.

Num dos trechos mais pungentes, e sabedor do impacto que sua atitude provocaria, desculpa-se e justifica seus atos com a impossibilidade de pelo menos sonhar. ‘Poucos irão conseguir entender, aceitar ou perdoar essa minha atitude, mas não fazia mais sentido continuar; tudo que eu tinha se foi: planos, amigos, felicidade, festa, amores, trabalho, faculdade, sonhos... Até meus sonhos foram destruídos (...)’.

Diego se foi e imagino quão dolorosa é sua ausência para todos aqueles que conviviam com ele, para a mãe e o pai a quem devota tanto amor, para o irmão caçula a quem recomenda que assuma as rédeas de casa e reitera os apelos para que estude muito. Não tenho dúvidas de que sua morte deixa um vácuo impossível de ser preenchido.

A vida é uma dádiva, independente de quem - ou o que - a tenha concedido. Vale a pena lutar por todo fiapo de existência, mas há que se respeitar o limite do outro. Em casos extremos, quando não há luz no fim do túnel, a decisão de terminar a própria história, independente das crenças, deve ser respeitada, mesmo que se discorde dela. Sem julgamentos, sem recriminações. Cada um de nós conhece seus próprios limites. Ninguém mais.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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