As águas do Atlântico


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O efeito foi comparável ao de aviso de vendaval quando a única filha comunicou à família a decisão de ir embora de casa, para viver em outro país

As apostas foram muitas. Ela não vai aguentar ficar longe; cresceu feito Cinderela, não vai virar Gata Borralheira agora; poucas vezes se ocupou de serviços domésticos, não suportará lavar, passar, cozinhar. É dondoca. É mimada. Vai ver está com ciúmes. Mais uma birra? Então, tá. Vai mesmo ver o que é bom para a tosse, pensei, mas não fui boba de verbalizar. E ela foi.

Fiquei firme e forte, nem chorei na despedida, só quando desapareceu nos corredores da Polícia Federal a fim de apresentar os documentos e sair do país. Lembro-me que fiquei parada, estática, segurando as lágrimas. No fundo, tinha esperança de que ela corresse de volta. Qual o quê. Foi embora, feliz da vida. Não era menininha, era adulta, mas mesmo assim quando se voltou para dar a última abanadinha de mão, pareceu-me frágil como uma garotinha de oito anos. Ela já estivera por um ano no Canadá, sabia, em parte, as dificuldades que enfrentaria, e se mostrava contente por novamente ter liberdade, autonomia, cuidar de si mesma, ser auto-suficiente, independente. Crescer. Nunca mais voltou para casa como moradora permanente. Só como hóspede temporária.

Depois que ela se foi, volta e meia vinha à memória a figura de Mrs. Florence, mãe do amigo Zazá, americana que morava em Franca desde muito tempo. Conheci-a nos corredores do Ginásio do Estado, dava aulas particulares. Tinha um modo peculiar de se vestir e parecia alheia a tudo que ocorria ali pelos lados da Voluntários da Franca onde morava, no centro da cidade. Acho que nunca ouvi sua voz. Íamos buscar Zazá, batíamos à porta, ela atendia, entendia, virava as costas, ia chamá-lo. Olhava-a com certo fascínio: permitia-me imaginar como seria viver distante, sem pais, irmãos, parentes. Concluí que devia ser penoso, pois nunca vi Mrs. Florence rir, ir tomar sorvete, passear aos domingos com a família.

Para se viver distante, definitivamente, o aluguel pode até ser caro, mas o preço da ousadia é o triplo. Tem-se autonomia, claro. Mas não se tem com quem dividir alegrias e tristezas do cotidiano. Todavia, deixar o ninho para trás e se aventurar rumo ao desconhecido é ato de bravura, de coragem. Não é para qualquer um, não. Pensava nelas, comparava-as, imaginava quais seriam as convergências e divergências dos comportamentos daquelas duas mulheres que nunca se conheceram, mas que fizeram, distantes no tempo, a mesma escolha. E minha admiração crescia por ambas: admirava-as pela intrepidez.

Quem se arrisca, quem se expõe, quem deixa a família, sua circunstância, o conforto do conhecido, muda de país e troca tudo que teve pelo amor de uma pessoa por quem se apaixonou, com quem decidiu passar seus melhores anos da vida adulta, constituir família, construir um relacionamento e ser feliz, merece aplauso, pois não? Não é qualquer um que encara tal desafio.

Quando a saudade bate - de lá, ou de cá - repito para minha filha o velho discurso sobre a importância e a responsabilidade das escolhas que fazemos em nossas vidas. Para mim, evoco inteirinha a ladainha do respeito pelas decisões alheias. Tem dado certo. Duro, mesmo, é dia de aniversário. A logística para a presença lá envolve tempo, dinheiro e travessia de continentes. Assim, o comparecimento ao do neto, decidimos, é prioridade. No dela, faremos festa do lado de cá: ligo o Skype, louvo-lhe o nascimento. Mas é só choradeira, quando chega o dia 2 de abril. Lágrimas abundantes de lá e de cá, ajudam a aumentar o volume do Atlântico.

PENICOS
Conheça bizarra coleção de penicos, objeto dos mais íntimos do cotidiano humano. Conhecidos por gregos e romanos e chamados de ‘amigo’ pelos primeiros e - quem diria - de ‘matula’ ou ‘metella’ pelos segundos, constituem o orgulho de José María del Arco ‘Pesetos’, y familia, natural de Ciudad Rodrigo (Salamanca) y residente en Torremolinos (Málaga). Divirta-se! Acesse http://www.ciudad-rodrigo.net/Pesetos/pesetos.htm.

FILMES
Albert Nobbs (Glen Close) X A Dama de Ferro (Merryl Streep). Ver os dois filmes é ficar indeciso sobre para quem vai o Oscar de Melhor Atriz, independente do resultado oficial já apresentado. Dois roteiros fabulosos, duas adaptações fantásticas, dois momentos de puro enlevo. Garantidas horas de magnífica diversão.

PRAÇAS
Eram lindas as praças antigas de Franca. Principalmente a chamada praça “do Centro’, ou Nossa senhora da Conceição: o coreto, o caramanchão, os bancos com braços, os casarões, os jardins, os bichos torneados em plantas, os coqueiros onde eram tiradas as fotos dos jovens estudantes, das moças bonitas e dos guapos rapazes. Pelo Jayr. Há, na Internet, fotos que mostram as imagens desse maravilhoso passado. E ainda havia o Hotel Francano. Quem não viu, não pode sequer imaginar o quanto tudo aquilo era lindo.

MILLÔR
(1) O poder é um camaleão ao contrário: todos tomam sua cor. (2) Nos filmes violentos que são exibidos todas as noites na televisão, qualquer criança sabe de antemão quem é o criminoso – o dono da tevê. (3) O ovo frito de hoje anula o galeto de amanhã. (4) Generalizando-se a corrupção, restabelece-se a Justiça.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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