O sistema político, da forma como atua, perde sua credibilidade dia após dia
Mais uma vez vivenciamos a uma ‘chantagem” política que nos enoja, quando o líder do PR (Partido da República), vem a público dizer que “chega. Ninguém aqui é moleque. Não tem mais o que negociar”, isto em razão do partido não ter conseguido indicar o nome do novo ministro dos Transportes.
É inadmissível que partidos que se dizem representantes do povo, para votar a favor do que é bom para a população e contrário quando seja prejudicial, exijam uma contrapartida através da indicação de nomes para ocuparem ministérios etc. E o pior é que dizem isso em público com uma naturalidade impressionante, sem nenhum constrangimento. Em outras palavras, afirmam e deixam publicamente expresso que se não forem agraciados irão votar contrário aos projetos governamentais, independentemente de serem bons ou ruins aos cidadãos.
Outro dia assistimos a presidente Dilma chorar quando, para satisfazer a “voracidade” de partido político, teve que exonerar um ministro que estava fazendo um excelente trabalho e nomear um que afirmou desconhecer totalmente o assunto do ministério que estava assumindo. Como aceitar que o PR, participante da maioria das coligações federais com PT (Partido dos Trabalhadores) nas eleições de 2010, agora rasgue os votos de situação que recebeu e passe a ser oposição?
A propósito, é ridícula a formação das coligações partidárias em nosso país, sendo uma verdadeira bagunça quando partidos estão coligados para eleições de deputados federais e não estão para os estaduais. Num Estado é oposição a um partido e em outro Estado é seu “fiel” aliado. Para a classe política isto é normal, mas para nós cidadãos que realmente queremos e buscamos uma vida social harmônica, não podemos aceitar que chamem essa, podemos dizer, “arruaça” de “democracia consolidada”.
Políticos defendem que essa “bagunça” ou “chantagem” chama-se governabilidade. Em nossa opinião o nome deveria ser o oposto, ou seja, não-governabilidade, pois é um problema de natureza política, uma crise de apoio dos representantes eleitos pelos cidadãos ao governo que, conforme dissemos anteriormente, foram eleitos pelas mesmas coligações partidárias, defendendo os mesmos projetos governamentais, porém depois de eleitos, para continuarem a apoiar o governo passam a exigir sempre “algo mais” em suas negociatas.
Caro leitor, sabemos perfeitamente que a leitura de tal assunto não é das mais prazerosas para um domingo, mas é exatamente em razão do desconhecimento de como se dá a chamada governabilidade, que vivenciamos uma crise da democracia, pois esta torna-se forte quando organizada, sendo que o crescimento da participação política deve ser acompanhado da institucionalização (legitimação e aceitação) dos processos e das organizações políticas.
Em síntese, como já dissemos em outras oportunidades, já passou da hora de ocorrer uma verdadeira reforma política em nosso país que acabe com esse balcão de negócios que se institucionalizaram, apresentados publicamente através de chantagens explícitas e que estão sendo aceitas como normais pela sociedade.
ALTERAÇÕES NO ENADE
O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, anunciou mudanças no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade). Um semestre a mais será submetido à avaliação, de forma a evitar que apenas os melhores alunos sejam selecionados para a prova. A avaliação dos cursos superiores, sempre foi tema polêmico de difícil solução prática. A partir de 1994 foram estabelecidos novos critérios de avaliação das instituições pelo MEC, que passou a analisar o desempenho através do chamado Exame Nacional de Cursos (Provão). Instituições com um bom projeto pedagógico, quadro docente qualificado, boa infra-estrutura, na avaliação dos alunos recebiam péssimas notas, situação que se repetia a cada ano, surgindo um paradoxo.
A questão central era que não havia um comprometimento por parte dos alunos concluintes com os resultados aferidos, pois a princípio a avaliação baixa dos acadêmicos nenhum prejuízo lhes traziam, mas sim a Universidade ou Faculdade, com o pensamento de que estavam se vingando da instituição de ensino, em razão de mágoa e mal estar no decorrer dos cinco anos de estudo. Tal erro de estratégia, ou seja, a falta de comprometimento dos alunos com o processo de avaliação determinou a “falência” do Provão, pois os bons e maus alunos concluintes foram colocados na vala comum na média obtida pela sua Universidade ou Faculdade. Assim surge o Sinaes (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior) que é formado por três componentes: a avaliação das instituições, dos cursos e do desempenho dos estudantes (Enade), porém a cada ano aumenta o número de reclamações quanto aos resultados.
O problema do ensino não está somente nos últimos anos dos cursos superiores, conforme ficou demonstrado com a divulgação das notas do “provão” e do agora Enade, mas sim em toda a vida escolar de nossos alunos, ou seja, desde o seu ingresso nos bancos escolares. O sistema vai literalmente “empurrando” o aluno de série em série, mesmo que não tenha condições mínimas de aproveitamento escolar. Dessa forma, o mesmo alcança os bancos das universidades, principalmente as particulares que efetuam admissões através de análise curricular e, “iludido” acredita que está preparado para se graduar em curso superior, efetuando apertos financeiros de todas as espécies para manter os pagamentos de seu curso em dia, pensando recuperar tal investimento após sua formatura, o que nem sempre ocorre, face à falta de preparo básico que o próprio ensino lhe proporcionou.
Enfim, das duas uma: ou a escolaridade obrigatória consegue tornar-se útil para os jovens - considerados individualmente, como pessoas - ou continua a constituir uma aberração antinatural e uma profunda injustiça, que nossos governantes apenas “fingem” perceber no final dos cursos superiores, através de um sistema de avaliação político.
Toninho Menezes
Advogado, administrador de empresas, professor universitário - toninhomenezes@comerciodafranca.com.br
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