Gafes, foras, embaraços, saias justas, micos estão ao alcance de qualquer mortal
Por exemplo, sorrir com salsinha no dente. Ou cebolinha. Ou qualquer verdinho. Ao descobrir depois, você se envergonha. Mas ouvir acusação em voz alta, no meio de platéia, é de constranger qualquer mortal. Aposto, você já foi olhado feio por causa de mau cheiro no ar pelo qual você não era responsável, bem no momento em que alguém chegou para cumprimentá-lo. Pelo menos naquela hora sua fama de pessoa fina foi para o beleléu, não foi? E a prótese dentária do primeiro molar, por azar, alguma vez despencou da base durante reunião social importante? A paquera bem à frente, amigos ao lado e um deles, também interessado na mesma pessoa percebeu. Terrível, não?
Se você não é sádico, tem bons princípios conforme postulados de sua religião – qualquer que seja ela – sente amor pelo próximo, mesmo que você nunca o tenha visto antes. Você seria capaz de rir de alguém que tropeçou no momento solene de subir ao palco e receber alguma láurea das mãos de um figurão importante? Ou caiu na rua em frente a local de muito movimento? Ou esborrachou no corredor do cinema, fazendo as pipocas voaram do copinho, feito lava de vulcão? A boa educação manda-nos olhar de soslaio para ver se houve danos físicos e, se ninguém se machucou, fazer cara de paisagem e fingir que voamos para o pólo norte.
Todo mundo conhece gente que, de hábito, dá foras: confunde seu nome de péssimo fisionomista que é. É capaz de lembrar – com detalhes – de situações, momentos, causos, nomes dos envolvidos neles e incapaz de lhe cumprimentar, batendo nas suas costas e acertar seu nome. O seu e dos familiares. Chato, mas nem que sejamos confundidos com aquele parente – que achamos medonho – jamais, jamais envergonhar o interlocutor e corrigi-lo, ainda mais quando houver platéia. Isso é humilhante.
Agora, pior, muito pior, é passar vergonha pelo outro. Já presenciei momentos nos quais eu suava em bicas no lugar dos protagonistas das cenas e fiquei aflita por eles. Pelo ator que esqueceu o texto no palco, em cena aberta. Pelo pianista quando as folhas da partitura, sei lá por qual motivo, voaram do suporte do piano. Pela modelo que despencou de cima do sapato, cujo salto quebrou no meio da passarela. Pelo padre que se perdeu nas metáforas e não conseguia encerrar a homilia. Pelo aflito aluno que eu sabia ter conhecimento, mas de nervoso não se lembrava de nada.
Porém, esta manhã, o que aconteceu superou tudo. O de hoje me fez ficar roxa incandescente de vergonha por pessoa que nem sei quem é. Sei que deve ter grana porque mora em condomínio de luxo: vi quando entrou sem se identificar; tem carro novo: perua preta, tamanho médio, daquelas esportivas, com estepe aparente de capa cheia de desenhos. Tem grana, carro novo e nem um pingo de educação: todo mundo viu. Em minúscula rotatória, perto de escola pública, havia um mini batalhão de mulheres com crianças, esperando oportunidade para atravessar. Daria para eu parar e dar passagem. Entretanto vinha a tal perua atrás de mim, que poderia ter parado, também. Mas não. A buzina do carro foi acionada, o motorista passou pela minha direita e por um triz não atropelou os pedestres. Foi embora na mesma velocidade que vinha. Não viu, nem ouviu as vaias das crianças e mães. E quem morreu de vergonha, por ela, fui eu.
Violência
No domingo o jornalista Corrêa Neves Jr. escreveu sobre o descontentamento de leitor sobre fotos estampadas na primeira página do Comércio, que imortalizam os crimes de trânsito de Franca. Parabéns pela matéria. Parabéns pela coragem em mostrar esse lado sinistro da cidade. Que cada motorista olhe as fotos e pense que poderia ser ele o atingido. Ou alguém que ele ama. As campanhas de combate à violência do trânsito são muito piores em países onde o índice de acidentes fica muito aquém do nosso. Nós precisamos acordar. Nada como um bom chacoalhão.
Dó
Da mulher incandescente de vergonha, cujo marido bêbado gritava impropérios e alardeava sua performance sexual. Do linguarudo refestelado num sofá, comentando maldosamente a vida de cidadão, que ouvia tudo oculto pela divisória atrás do mesmo sofá. Subitamente o tema dos maldosos comentários se levantou, cavalheirescamente cumprimentou o mané e lhe perguntou se era dele que se falava.
Filme
O melhor filme que já vi? a moça perguntou. Não tive condição de apontar. Mas Cerejeiras em Flor, Hanami ou no original Kirschblüten Hanami, foi um dos melhores. Boa dica para cinéfilos ferrenhos ou moderados.
Restaurantes
Calaram-se as vozes daqueles que reclamavam da pouca quantidade e da qualidade dos restaurantes francanos. Todos os dias surge novo nome, novo ponto para ser conhecido. Temos excelentes cozinhas, de gêneros diversos. O francano já pode se dar ao luxo de optar, embora não abra mão dos seus antigos ícones que frequentava para “jantar ou almoçar fora”, que significavam Barão ou Gasparini.
Amizade
Beijo é bom. Beijo de amigo é muito melhor. Carinho é bom. Carinho de amigo é alento, força e vigor. Toque de mão é bom. Toque de amigo cura e apazigua a turbulência interior. Se confiança no próximo é maravilhoso, no amigo é condição de sobrevivência de sentimentos como compaixão e fraternidade. Abraço é gesto protocolar. Abraço de amigo prescinde de palavras e perguntas; você se aconchega no peito dele, ele se encaixa no seu. Mudos, trocamos com ele as informações importantes, um escuta o coração do outro se acelerar e depois equilibrar o ritmo. Sem palavra proferida, seguimos nossos caminhos, até o próximo abraço.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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