‘O preconceito é o filho da ignorância’
William Hazlitt, escritor inglês
Thomas Shipp e Abram Smith, dois jovens negros, foram presos no dia 6 de agosto de 1930 na cidade de Marion, Indiana, no racista e dividido país que era os Estados Unidos da primeira metade do século XX, acusados de roubo, assassinato e estupro. As vítimas eram um operário branco, que foi morto durante o assalto, e sua namorada, que teria sido violentada na sequência. A dupla passou pouco mais de 24 horas na cadeia.
Na noite seguinte, 7 de agosto, uma multidão composta por mais de 10 mil pessoas invadiu o cárcere, arrancou os dois de lá e resolveu fazer justiça a seu modo, sem julgamento, sem direito a defesa, sem qualquer análise de provas ou evidências. Shipp e Smith foram barbaramente linchados. Seus corpos, dependurados numa árvore, ficaram expostos para o deleite da plateia que tinha, entre seus integrantes, distintas senhoras, cavalheiros insuspeitos e muitas crianças.
Os trágicos acontecimentos de 7 de agosto de 1930 tinham tudo para acabar reduzidos a mera estatística, apenas um caso entre os mais de 5 mil linchamentos semelhantes, grande parte com fundamentação racial, que tomaram conta dos Estados Unidos no início do século XX. O que o difere de todos os demais é que, naquela noite horrorosa, havia na cena dos acontecimentos um fotógrafo.
Lawrence Beitler era o seu nome. Dono de um estúdio, não era um sujeito de grande compaixão. Pelo contrário, o registro que fez pretendia comprovar a “supremacia branca”. Seu único objetivo era vender aquela foto como cartão-postal, literalmente, para os brancos que apoiavam os linchamentos. Mas a publicação daquela cena por jornais e revistas de todo o país provocou reação completamente diversa, ainda que fosse preciso esperar algum tempo para testemunhar seus efeitos mais práticos e relevantes.
Um deles viria em 1936, quando Abel Meeropol, um professor judeu de Nova Iorque, impressionado com a imagem reproduzida por uma revista numa matéria sobre o absurdo dos linchamentos raciais, escreveu um lindíssimo poema, que batizou de Strange Fruit (Estranho fruto). Seus versos, que comparam os corpos dependurados na árvore a um “estranho fruto”, capaz de misturar “o doce e fresco perfume da magnólia” ao “cheiro de carne queimada”, é de uma beleza perturbadora. Musicado pelo próprio autor, foi descoberto pela grande dama do jazz, Billie Holiday.
Billie gravou Strange Fruit pela primeira vez em 1939. A interpretação, magistral e sublime (www.youtube.com/watch?v=h4ZyuULy9zs) é absolutamente tocante, capaz de arrepiar até quem não entende uma palavra de inglês. Não é preciso. Sua voz rouca a embalar os versos e a melodia triste de Abel Meeropol é um dos grandes momentos da música de todos os tempos.
A música também acabou se transformando na primeira canção de protesto de que se tem notícia, um libelo contra a violência e o racismo. Durante anos, Strange Fruit serviu de hino para os negros americanos que continuavam proibidos de frequentar escolas, ônibus e praças exclusivos para brancos nos Estados Unidos, vergonha que só terminaria com a vitória dos Direitos Civis na luta liderada pelo reverendo Martin Luther King, já nos anos 60.
A ilustração que acompanha a coluna de hoje é, obviamente, a foto de Lawrence Beitler, considerada uma das 25 imagens históricas mais importantes de todos os tempos. Certamente não é a foto que todos esperam encontrar na capa do jornal numa manhã qualquer, exatamente porque perturba, angustia, inquieta, o que nem de longe implica dizer que sua publicação não seja necessária. Por isso mesmo, absurdo não é a foto, mas o fato. Pessoas, acusadas do que quer que seja, não podem ser sumariamente enforcadas por uma turba enfurecida. É contra isso que todos se revoltam, não com a veiculação da imagem, que cumpre seu papel jornalístico. Há milhares de outros exemplos de imagens poderosas que ajudaram a moldar a história.
É estranho que em pleno século XXI, aqui em Franca, leitores ainda se sintam tão incomodados com imagens de maior impacto que, vez por outra, publicamos no Comércio. Não são gratuitas nem descoladas de uma realidade que precisa ser vista, compreendida, debatida e combatida. Um bom exemplo é caso do triste acidente da última semana, que terminou com a morte de duas pessoas na manhã de domingo. A foto da única sobrevivente sangrando dentro do carro retorcido, estampada na capa de terça-feira, traduz como nenhuma palavra seria capaz de fazer os horrores de um acidente com vítimas. Não se trata de um fato isolado, mas de tragédia cotidiana, que ceifa vidas de dezenas de francanos a cada ano e que, a julgar por algumas reações, muitos preferiam não ver.
A foto de terça-feira incomodou muita gente. É bem possível que boa parte destas pessoas se sinta mais confortável repetindo que as vítimas são agora “anjos no céu”, mantra que se multiplica nas redes sociais, como se os acidentes fossem desígnios de Deus. Duvido. Acredito muito mais na irresponsabilidade e negligência como fontes causadoras de acidentes. As imagens que publicamos apenas expõem este drama. É contra esta tragédia que temos que nos revoltar. Exatamente como os milhões que, diante dos horrores de um linchamento exposto na América dos anos 30, começaram a lutar para que situações como aquela deixassem de existir. Perturba, mas funciona.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br
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