Seguindo tendência nacional, os francanos foram mais ao cinema em 2011. Quem garante é Gustavo Ballarin, diretor de Operações e Marketing da Moviecom, proprietária das salas de cinema do Franca Shopping. Ele não revela os números absolutos, mais diz que houve um aumento de 20% no número de ingressos vendidos em relação a 2010.
“Certamente, 2011 foi um bom ano para nós, mas tivemos motivos para isso: a construção de novas salas e a instalação de equipamentos 3D”, disse.
Em termos nacionais, 2011 também foi positivo. O país consumiu cerca de 143,9 milhões de ingressos, totalizando uma renda de R$ 1,44 bilhão de reais.
Mas se o negócio mostra-se gigante para os exibidores de filmes e para as produtoras e distribuidoras de filmes estrangeiros, principalmente as norte-americanas, ele é bem mais modesto para a indústria cinematográfica nacional. Dos 143,9 milhões de ingressos, apenas 18 milhões foram para assistir a filmes brasileiros, perfazendo uma renda bruta de R$ 163 milhões.
Em Franca, os filmes de maior bilheteria foram os mesmos que “bombaram” nos cinemas de todo o país. Na liderança estão a saga Crepúsculo -Amanhecer, a animação de Carlos Saldanha, Rio, e o último Harry Potter. No ranking das dez maiores bilheterias, não há nenhum filme nacional, nem em Franca nem no restante do país. As melhores bilheterias de filmes brasileiros em Franca foram De pernas para o Ar e Bruna Surfistinha, de acordo com Ballarin - no país, esses filmes também tiveram a preferência do público, junto com Cilada.com.
Dos 110 filmes exibidos em Franca em 2011, apenas 14 eram brasileiros, o que dá um marketing share (participação de mercado) de apenas 12,72% para os filmes brasileiros, quase o mesmo observado no cenário nacional.
Segundo Ballarin, apesar da evolução experimentada pela indústria cinematográfica brasileira, tanto em termos qualitativos como quantitativos, ela ainda sofre quando comparada à indústria norte-americana.
“Os efeitos especiais do filme norte-americano e o apelo de marketing dessa indústria ainda são imbatíveis”, acrescenta o diretor.
Para o professor de sociologia da Unesp-Franca, Agnaldo Barbosa, a força da indústria norte-americana está relacionada ao fato de que os EUA sempre entenderam o cinema como mercado, não necessariamente como arte.
“O cinema para eles é uma atividade comercial capaz de gerar recursos financeiros a partir do produto filme e de seus subprodutos (atualmente, games, souvenires em lojas de fast food, DVDs, CDs etc.).” O professor diz que, como os norte-americanos têm uma enorme capacidade de distribuição (ou seja, de fazer seu produto circular em mercados pelo mundo) e de marketing possuem grande “poder de fogo” para anunciar maciçamente seus filmes em diversos tipos de mídia e, com isso, chamar a atenção de um grande número de espectadores.
“Sem contar o fato de que alguns estúdios produzem filmes sobre personagens já consagrados em outra mídias, como quadrinhos e games”, complementa Agnaldo.
A REBOQUE
Há questões históricas, sociológicas, culturais e econômicas envolvidas nessas preferências cinematográficas do brasileiro, pois a indústria do cinema não pode ser deslocada de realidade vivenciada pelo país. Historicamente, nosso cinema sempre seguiu a reboque do cinema norte-americano. Tivemos algumas exceções, como o sucesso popular de Mazzaroppi, dos dramas da Companhia Vera Cruz, em São Paulo, e das chanchadas da Companhia Atlântida, no Rio de Janeiro.
De resto, porém, vivenciamos muito mais as histórias de Hollywood do que as contadas por nossos cineastas. E se levarmos em consideração as preferências de um grupo de alunos do 6º ano da Escola Vivenda, vamos perceber que essa tendência está atualmente ainda mais forte.
Eduardo Abreu, Felipe Dias, Igor Henrique Faleiros e Vitor França, todos com idade entre 10 e 11 anos, são bastante enfáticos quando o assunto é cinema: eles vão bastante e têm uma clara preferência pelo filme norte-americano. As explicações coincidem. Na visão deles, o cinema de Hollywood tem mais dinheiro e por isso consegue fazer filmes melhores, com mais efeitos especiais. Quanto aos filmes nacionais, todos dizem já ter visto algum, mas não se lembram do nome de nenhum.
Mas isso não deveria ser motivo de aflição para nós, brasileiros. Segundo o professor Agnaldo, os franceses também preferem Disney a Asterix, mulheres de quase todo o mundo se derretem mais por Tom Cruise do que por qualquer galã nacional e, na Alemanha ou na Inglaterra, clássicos dos quadrinhos como Batman ou Homem Aranha também dominam as bilheterias.
“Os grandes estúdios norte-americanos conseguem apresentar uma gama muito maior de produtos. Eles ocupam o imaginário e exercem um poder de sedução muito grande em diversas dimensões (desde Titanic, passando por Harry Potter, Lanterna Verde, Missão Impossível, Psicose e outros gêneros para todos os gostos). Que outra indústria consegue isso?”
REFERÊNCIA
Gláucia Davino, professora e pesquisadora na área de cinema da Universidade Mackenzie, concorda com Agnaldo. Segundo ela, os mais novos só querem saber de filme norte-americano porque são esses filmes que conseguem entretê-los.
“O cinema norte americano é historicamente cultuado e referência no mundo inteiro. A molecada (e seus pais também) vai ao cinema para se emocionar com histórias contadas num modelo cujo fluxo narrativo simples lhes permite compreender as relações entr
e personagens e situações.” Para a professora, o fato de a indústria norte-americana ter o domínio deste modelo narrativo dá a ela o privilégio de reger o mercado.
Ela afirma, ainda que a dimensão industrial do cinema norte-americano permite que ele atenda a ilimitada faixa de público em relação à idade, cultura e gosto por gêneros.
“Efeitos especiais de alta sensação de realismo são elementos que atraem vasto tipo de público, basta verificar como os parques temáticos de Orlando (Flórida) estão sempre repletos de pessoas em busca de uma ‘viagem imaginária’ inseridas nos efeitos especiais”, finaliza Gláucia.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.