Carnaval?


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O primeiro, não sei qual foi. A foto amarelada sugere que talvez seja aquele em que fui de espanhola, reforma do vestido de daminha usado meses antes no casamento dos meus padrinhos

Mamãe fez pente que encheu de brocal, botou um simulacro de véu de renda sobre ele. Puxou meus cabelos em coque, três rosas vermelhas ao lado. Arranjou mitenes de renda – provavelmente retalhos dos vestidos adultos que vovó costurava. Puxadinhos nos babados na saia rodada feito cortina e, em cada um deles, miniaturas das rosas vermelhas. Mamãe dizia que debutei no carnaval no salão da Sociedade Italiana.

Talvez uma orquestra tenha tocado. Talvez eu tenha me divertido apesar do vestido piniquento. Ganhei o prêmio individual de fantasia: mamãe não entrava para perder. Talvez eu tenha cantado ‘Eu sou o pirata da perna de pau, do olho de vidro, da cara de mau.’ Talvez, porque, com certeza, toda vez que canto a música sinto uma imensa nostalgia escorrer, feito calda quente doce, no meu coração. Isso só pode ser saudade. Devo ter sido menininha cuidadosa: o mesmo vestidinho, outras fotografias amareladas registram, minha irmã usaria como daminha, em outros casamentos da família.

Depois, a memória dá salto, para outro carnaval nos salões da Sociedade Síria, na rua General Telles: vai ver que foi antes da AEC - Centro, naquele prédio maravilhoso recém destruído, ser construída. Não me lembro de mais nada daquele carnaval. É provável que meus pais tenham me levado, que eles nunca nos deixariam ir sozinhos para a folia. Era coisa de pais antiquados, achávamos, porém pais daquelas priscas eras acompanhavam filhos e filhas, não deixavam na porta de onde quer que fosse e iam buscar depois. Nós esperneávamos, mas eles diziam não e pronto. Com o tempo vimos que aqueles nãos eram doces, eram palavras de proteção, de amor. Dizê-los não impediu que batêssemos a cabeça aqui e ali, que livre-arbítrio sempre existiu. Mas nós nos sentíamos amados e protegidos. E isso foi fundamental. Não lembro que música tocou, nem se usei fantasia. Mas lembro de entrar no salão, que tinha porta de vai-e-vem - feito aquelas de filme de caubói - com saquinho de confete, rolo de serpentina e o tubo de lança-perfume Rhodia, que tinha que durar os dias de folia. Custava caro. Melhor economizar. É provável que tenha sido matinê, que eu ainda não tinha idade para ir à noite.

Aí já era quase adulta. Permitiram-me ir para a AEC pular o Carnaval acompanhada por tias de amigas. Aí fizemos um bloco: das Odaliscas. A minha era cor-de-rosa, aberta do lado. Pernas ligeiramente de fora, barriga tampada. Fizemos sucesso. As músicas mais cantadas: Jardineira e Bandeira Branca. Uma aprendida com meu avô, a outra, de tanto ver mamãe imitar Dalva de Oliveira.

Já casada, fui para o Rio ver o desfile das escolas de samba. E dois bailes de salão: o do Scala, que exigia fantasia ou traje de gala e o do Monte Líbano, que até dispensava roupa. Não cantei marchinhas, marchas-rancho, sambas ou frevos. No baile do Scala fiquei boquiaberta, sobretudo com a fauna humana absurdamente diversificada. No Monte Líbano não fui de preto, nem de vermelho, mas fiquei roxa de vergonha. Por vezes não sabia se estava em Sodoma. Ou Gomorra. Ou na corte de César. No sambódromo, me esbaldei. Nunca mais vi espetáculo tão grandioso.

2012. Não irei a baile algum. Não me fantasiarei. Não ligarei a televisão. Não cantarei Pirata ou Jardineira. Não ouvirei os sambas-enredo dos desfiles. E nem vou ligar o rádio: não correrei o risco de ouvir Michel Teló cantar Ai se eu te pego.

TESTEMUNHOS
Equipe de especialistas que assiste pacientes terminais em hospitais, levantou os cinco arrependimentos mais comuns expressos por aqueles que estão próximos da morte. ‘1. Eu queria ter tido coragem de viver uma vida fiel a mim, não a vida que outros esperavam de mim. 2. Eu queria não ter trabalhado tanto. 3. Eu queria ter tido a coragem de expressar meus sentimentos. 4. Eu queria ter mantido contato com meus amigos. 5. Eu gostaria de ter me permitido ser mais feliz.’ Eles perguntam aos que estão vivos: ‘Qual é o seu maior arrependimento até hoje, e o que você estabelecerá atingir ou mudar antes de morrer?’

COPA
‘Faltam 2 anos e mais 12 estádios, 1 seleção, 1 técnico, 30 hotéis, 14 aeroportos, 120 mil quilômetros de rodovias, 2 mil quilômetros de metrô, 6 trens-bala, 115 favelas pacificadas, 33 mil soldados preparados, 2 mil restaurantes e 150 mil motoristas de taxi falando, ou tentando, falar inglês.’ Aí estaremos preparados para a Copa do Mundo.

FÁBULA
‘Queixou-se o pavão: ‘Sou a ave mais bonita do reino animal e não posso voar e mostrar minha plumagem. Feliz é o urubu que voa livre, para onde o vento levar’. Chorava o urubu: ‘Sou Infeliz. Embora seja a mais feia ave do reino animal, sou obrigado a voar e ser visto por todos. Quisera ser belo e vistoso tal qual o pavão!’ As duas aves decidiram que o cruzamento entre elas seria ótimo: gerariam descendente que voaria como um e seria gracioso como o outro. Para frustração deles, nasceu o peru, que é feio para cacete e não voa. Moral: se a coisa está ruim, não inventa. Gambiarra nunca deu certo!’

SUGESTÃO
As três notas da coluna de hoje são reproduções apócrifas de mensagens recebidas pela Internet. Pesquei-as nas pastas onde arquivo as que me fazem algum sentido. É carnaval. Sugiro buscar no Youtube produção de Walt Disney, um desenho animado feito sem a utilização de recurso digital. http://www.youtube.com/watch—popup?v=—mQHr8bAojU&vq=small. Foi produzido em 1950 e marca o nascimento da personagem Zé Carioca. Bom carnaval!

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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