Irreprochável


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Dois casais compadres entre si. Um dia o marido da comadre X foi avisado que sua mulher e o compadre Y estavam de caso

Flagrado chorando, mãos na cabeça, desesperado, numa tristeza só, consolaram o compadre X orientando-o para conversar com a mulher, perdoá-la e retomarem a vida. ‘Não é por causa dela, estou chorando de vergonha. Vergonha do compadre. Minha mulher está feia, peitos caídos, pele macilenta. Que vergonha do compadre!’. Pois é.

O mais oriental país que visitara há algum tempo, Turquia, deixara-me surpresa com suas belezas e peculiaridades. Deparei-me com costumes diferentes, comidas exóticas, comportamentos excêntricos - diversos dos meus, ocidentais. Como ser humano comum, sempre me atrevi a avaliar o semelhante separando-o em estereótipos: bom/mau, feio/bonito, normal/esquisito. Como viajante comum, correria o risco de errar ao julgar culturas e povos diferentes com julgamentos desse tipo... não fosse a ação de anos de análise que me fez perder tão nefando hábito. Ainda escorrego no geral e no particular. Todavia já me percebo mais alerta para procurar entender o diferente, respeitar a diversidade, ser mais condescendente na avaliação daquilo que não entendo. Mais uns cem anos, acredito, terei me tornado pouquinho mais humana.

Recentemente fui para o lado mais oriental do planeta. Desta vez marquei no meu atlas particular mais pontos geográficos que tive o privilégio de conhecer. Duas cidades dos Emirados Árabes, duas da Tailândia, outras duas da China e uma da Malásia. Não conheci os países onde elas se localizam, apenas visitei cidades que me deram pálida visão do contexto onde estão plantadas. Independente disso, não posso dizer que fiquei imune às suas influências. O choque cultural foi profundo. Qualquer pessoa que entra em contato com qualquer outro ser humano, casa, cidade, Estado ou país e desarma sua resistência interior para entender e ver além da fotografia, volta modificado ao seu lugar de origem. Não importa quantos metros ou quilômetros tenha percorrido.

De Dubai – nome de um dos sete dos emirados e também o nome da cidade mais populosa dos Emirados Árabes Unidos – e de Abu Dhabi trouxe a visão da mais alta expressão da tecnologia, do atrevimento arquitetônico, do desenvolvimento, da pujança, da determinação do povo, da demonstração da força de líderes e da superação da adversidade. De Bangkok e Pukhet, principalmente a lembrança da delicadeza do povo e a beleza da arte tailandesa. Das cidades da China – Macau e Hong Kong, o visível contraste cultural, econômico e comportamental. E de Singapura, a pujança da natureza e a organização social. Não podia voltar como a mesma pessoa que foi.

Por que a história dos compadres? Quando desci em Dubai e vi no aeroporto salas, facilidade de embarque, esteiras de bagagem, organização no recebimento dos viajantes, eficiência da alfândega, o shopping que chamam de free shop, piso de mármore, placas indicativas, ninguém perdido ou gritando, escadas rolantes, toaletes impecáveis, plantas naturais, ar condicionado irreprochável... lembrei-me da aproximação da Copa do Mundo no Brasil, dos nossos aeroportos, dos turistas e visitantes estrangeiros que deverão vir em massa. ‘Que vergonha do compadre!’.

AVISO
No avião, prestes a pousar, os passageiros ouvem o aviso dado pelos comissários: levar drogas para Singapura é proibido, contravenção punida com a morte. Quando da apresentação dos documentos, na polícia, o agente olha o passaporte, verifica fotos, dados e pespega o carimbo com tinta vermelha em uma das páginas, reiterando o aviso ouvido no avião, minutos antes. Flagrado, o cara morre mesmo. Enforcado.

PUNIÇÃO
Jogar lixo na rua é proibido em Singapura. Não é folclore, não. Quando o cidadão desobedece a lei, suja espaço coletivo e é pego, paga pesada multa. Paga mesmo, não é folclore, não. Além disso, é condenado a usar uniforme com corte e detalhes especiais - para ser reconhecido pela população como ‘sujismundo’ - e vai para as ruas com vassoura nas mãos, varrer calçadas e recolher lixo. Não é folclore, não. Vai mesmo. Seja medalhinha ou medalhão. Ou filho deles.

BRASIL
‘Sabe com quem está falando?’; ‘Conheço gente importante, meu filho, vou lhe livrar disso.’; ‘Na minha casa mando eu, quem é um delegadinho para impedir que meu filho faça o que quer?’; ‘Puxa, seu guarda, a gente está se divertindo. Na boa. O som está alto e é madrugada? O mundo é dos jovens.’; ‘Não vi placa nenhuma. Não tenho culpa. Azar a mulher atravessar a frente, ela surgiu do nada.’; ‘Doutor Fulano? É Sicrano. Olha: minha filha, coitadinha, atropelou um homem na calçada da casa dele. Não, ela não tem carta. Sim, ele machucou muito, mas eu vou pagar as despesas. A menina está abaladíssima, coitadinha. Vê pra mim quanto vai ficar a brincadeira. Vê aí com os guardas, as testemunhas, tá?’. Em Singapura? Não sei. Mas no Brasil é assim.

DNA
Problema cultural? Má educação? É e é. Desrespeitar sinais, ultrapassagens artísticas, estacionar em fila dupla, ignorar recursos de segurança do carro, trafegar em velocidade acima da permitida são alguns dos resultados e exageros que provocam dores e tristezas. Porém, contar que perdeu a carteira e conseguiu outra em cidade diferente é considerado esperteza e vantagem. Levar vantagem em tudo é vício intrincado no nosso DNA.

POSSIBILIDADE
É possível que campanha pesada de esclarecimento da população aliada à cobrança (efetiva) de pesadas multas e mais a prestação de serviços à comunidade possam auxiliar na diminuição de acidentes, mortes e traumas provocados pelo trânsito. Antes, porém, mudar a postura de pais e mães tolerantes e protetores. Em alguns países vídeos aterradores mostraram consequências da falta de responsabilidade de motoristas. Exemplos? Basta uma passadinha no Youtube e pedir ‘acidentes de trânsito’.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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