Um belo dia você acorda, se levanta e estranha o brilho do sol lá de fora dos limites da janela
Nesse momento se apercebe que ele esteve ali todos os dias anteriores. Você que esteve cega e não o viu. Um belo dia você acorda, não se levanta e acha extraordinário poder espreguiçar-se longamente, espichando seus membros e sentindo os ossos estalarem. Nesse momento se dá conta de quantos prazeres simples lhe foram negados em nome de boas maneiras.
Um belo dia você acorda, quase se levanta e acha o quarto diferente. Nesse momento nota detalhes que passaram batidos na correria do seu cotidiano: o cartão não respondido arquivado, mudo, como o criado mudo que o sustenta. A foto separada para ser posta num porta-retrato de compra adiada há meses. O livro tão cobiçado, virgem por falta de tempo, na prateleira debaixo da mesinha de cabeceira.
Um belo dia você acorda, se levanta e se surpreende com a incrível vontade de chorar. Nesse momento dá à luz os bichinhos do arrependimento gerados pelas faltas cometidas que ficam rodando na sua cabeça e fazem pensar nos seus respectivos parceiros nessas concepções: a ausência voluntária da palavra amiga, o afastamento provocado de pessoas queridas, o gesto abortado de acolhimento, o silêncio diante de injustiças.
Um belo dia você acorda, quase se levanta e acha extraordinário poder abrir os olhos. Nesse momento entende que ver e enxergar - pelo menos sob o prisma da emoção - não significam exatamente a mesma coisa. Ver, deste ângulo, significa apenas olhar para; enxergar é entrever, ir fundo, pressentir, adivinhar. Abrindo os olhos para enxergar, muita coisa começa a fazer sentido. Muita coisa se transforma, como num caleidoscópio.
Um belo dia você acorda, não se levanta e tudo lhe parece estranho ao redor, no escuro. De repente estranha que sua mãe não tenha vindo ir acordá-lo para ir à escola. De repente estranha a cama, as paredes, seu próprio corpo. De repente os ruídos externos, os cheiros, as circunstâncias não lhe parecem familiares. É como se acordasse dentro de um sonho ou tivesse realmente acordado numa dimensão diferente. A realidade lhe cai no cérebro como de gota em gota e você se vai dando conta de que muito tempo rolou desde aquele no qual dependia de alguém para despertá-lo. Percebe que esta nova circunstância tem apenas elementos seus, escolhidos e recolhidos durante a trajetória que você mesmo determinou. Nesse momento, aí sim, você se levanta.
Um belo dia você acorda, tem preguiça de se levantar e fica modorrando, sonhando acordado, imaginando, fantasiando, fazendo planos. Vira para lá e para cá, preguiçosamente, dando rumos diferentes para situações que já não têm mais jeito. Começa todas as frases com uma hipótese ‘e se...?’, pergunta-se. E se eu não tivesse sido tão radical? E se eu não tivesse agido tão intempestivamente? E se eu tivesse me mostrado mais maleável? E se minha boca permanecesse fechada? Nesse momento você decide profundas transformações no seu comportamento e, com alguma sorte e muita determinação, começa novo dia.
Um dia você não acorda, não consegue se levantar e não vai ver mais o sol que brilhava lá fora. Tomara que tenham belas recordações de você! (Publicado no final de março de 1999)
DESCONFORTO
Antigamente as cabines dos aviões ofereciam muito mais conforto aos viajantes. Hoje, a primeira classe oferece muito espaço para poucos. A executiva, espaço suficiente para alguns. A classe econômica, espaço para um a ser ocupado por dois. Junte-se a isso o fato de cada passageiro ludibriar com a bagagem de mão. Viajar na econômica é experimentar a sensação de ser sardinha em lata, sem espaço nem para óleo. Um horror.
BRINQUEDOS
Trocar brinquedos defeituosos é tarefa inglória, frustrante e irritante. Há clientes que saem da loja cabisbaixos e sem ter a quem recorrer. Outros esbravejam, mas as vendedoras fazem cara de paisagem e tratam de atender o próximo cliente, atitude típica de desprezo e descaso. O problema é que não há nos pacotes, nem nos documentos de compra, advertência de não destruir a caixa de embalagem para possibilitar a troca, em caso de problemas com o funcionamento. E sem a embalagem original, nada feito.
ÁGUA
Nas pastas escolares das crianças inglesas há local para a garrafa com água que elas levam junto com os livros e cadernos e tomam durante as aulas, sem sair da sala. Nas lancheiras vão os sanduíches, frutas, danones etc e, infalivelmente, a garrafinha com suco. Os dirigentes escolares orientam no sentido de elas tomarem o máximo possível de líquidos, em especial água: no inverno, por conta da calefação que torna o ar muito seco; no verão para mantê-las hidratadas.
PROSPECÇÃO
Não será surpresa se Merryl Streep levar mais um Oscar de Melhor Atriz para casa, em 2012. Poucas atrizes, na história do cinema, conseguiram mostrar tanta versatilidade e competência nos seus trabalhos. Lista dos seus trabalhos em cinco anos: a jornalista sem sal e inteligente de Leões e Cordeiros; a filha revoltada em O Entardecer; a ousada Donna de Mamma Mia; a maquiavélica irmã Aloysius Beauvier de Dúvida; a decidida Júlia de Julie&Julia; a forte e sofrida Jane, de Simplesmente Complicado e agora a impressionante Margaret Tatcher de A Dama de Ferro. Merece, não merece?
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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