‘A vida é a espera da morte.
Faça da vida um bom passaporte’
Vinícius de Moraes, compositor brasileiro
Franca e sua gente acompanham com apreensão e tristeza as buscas por algum vestígio da jovem Mayellen Silveira, 21 anos, desaparecida na madrugada de sexta-feira, depois de perder o controle do Corolla preto que dirigia, derrapar e mergulhar com o veículo no córrego dos Bagres. O carro foi encontrado a 1,5 km do local da queda, coincidentemente a uma curta distância do ponto de onde ela partira - o bar Venda do Rico - naquela madrugada, rumo a sua casa, num trajeto que não completaria. De Mayellen, nem sinal, apesar do trabalho incessante dos homens do Corpo de Bombeiros.
Mayellen, uma jovem como tantas outras, saiu na quinta à noite para passear com as amigas. Pararam num bar da moda, beberam alguma coisa, cada uma foi para um lado. Dizem que Mayellen encontrou um antigo namorado. Bebeu um pouco mais, entristecida. Sua mãe ligou, preocupada com o avançado da hora. Ela teria que trabalhar dali a pouco e era hora de ir para cama. Segundo relato de uma tia, Mayellen teria garantido que já estava indo para casa. A ligação, por volta de 2h30, seria o último contato entre as duas. Quinze minutos depois, a câmera de segurança de uma empresa registrava o carro de Mayellen derrapando na pista molhada e rodopiando, descontrolado. O socorro foi imediato, mas em vão. Mayellen já não estava junto ao carro.
Desde que seu desaparecimento foi confirmado multiplicam-se nas redes sociais, nos portais de notícia e no próprio perfil de Mayellen no Facebook comentários de amigos, de familiares, de gente de todo tipo que acompanha com atenção o desenrolar dos acontecimentos.
Há quem politize os fatos e tente culpar a prefeitura pelo que aconteceu, como se um guard rail instalado às margens do córrego pudesse impedir os acidentes. Balela. Quem já viajou um pouco sabe que guard rail em margem de rio não é regra nem garantia de que evite coisa alguma. Na Europa, há milhares de quilômetros de estradas que serpenteiam montanhas, em pista simples, sem qualquer proteção para o abismo, e nem por isso os carros despencam dali a toda hora. Há acidentes, entendidos como exceção e não regra, e que têm a ver mais com os maus hábitos dos motoristas do que com as condições de tráfego propriamente dito. No caso de Mayellen, é impossível saber agora se ela estava ou não em condições de dirigir, se ela se assustou com alguma coisa ou se o mergulho no rio foi resultado do descontrole do veículo que aquaplanou em função da chuva intensa que caía. Supor que um simples guard rail impedisse qualquer coisa é, no mínimo, inocência.
Tem os xiitas religiosos, para quem o álcool está por trás de todos os males. Acreditam os tais fundamentalistas que a ingestão de bebida corrompe o espírito e transforma bons em maus, numa redução simplista e patética, como se o que define quem presta e quem não presta no mundo fosse resultado do gosto individual de cada um por cerveja, vinho, licor, uísque ou o quer que seja. Não é legal que se beba antes de dirigir, mas é difícil supor que tenha sido essa a causa do descontrole do veículo de Mayellen e de tudo que veio a seguir.
Existe ainda quem responsabilize o bar e as amigas por permitirem que ela saísse de lá nervosa, depois de beber, como se algum de nós tivesse mesmo o poder de impedir quem quer que seja de fazer qualquer coisa. Podemos aconselhar, recomendar, implorar. Impedir, não dá. Também não é razoável supor que os bares e restaurantes tenham que controlar dosagem alcoólica de seus frequentadores. É argumento que, antes de ser utópico, é ridículo.
A única constatação possível é que, independente do que tenha acontecido, a vida é precária demais e sua compreensão está muito além do que permite a nossa mísera condição humana. É possível imaginar, por exemplo, que se ela tivesse ido a outro bar, muito provavelmente a sequência de fatos seria outra e ela estaria, neste instante, em casa com seus pais. Ou ainda que se ela tivesse saído quinze minutos antes, ou uma hora depois, não teria sido apanhada pela chuva que desabou sem prévio aviso e, também provavelmente, não teria derrapado nem caído no córrego. Ainda dá para supor que, se ela tivesse decidido levar as amigas em casa, como fez quando começou a noite, tampouco teria cumprido o mesmo trajeto e, desta forma, estaria ilesa.
Todas essas são apenas hipóteses, igualmente inúteis. O único fato incontestável é que a jovem bonita que saiu numa noite de quinta-feira para se divertir com as amigas acidentou-se quando voltava para casa. Está desparecida. Não há explicações possíveis além daquelas que nos ensinam os poetas, os filósofos e os pensadores: a vida é frágil, um pequeno milagre cotidiano que deve ser aproveitado em toda sua intensidade. Porque, de uma hora para outra, ela se esvai, sem prévio aviso, sem lógica aparente, sem pedir licença. No caso de Mayellen, resta torcer por um milagre e, na falta dele, por conforto e amparo para todos que a amavam. Nada além disso tem qualquer relevância agora.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br
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