Tem dia


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Tem dia que a esperança entra pelo quarto, logo de manhã, junto com o sol. Parece que tudo faz sentido

Tudo se encaixa com perfeição. A roupa é escolhida facilmente. Ao se olhar no espelho do banheiro a criatura percebe um semblante sereno, se acha bonita, até. O cabelo obedece, a pele resplandece, brilha. Os olhos brincam com os efeitos dos raios do sol e encontra elementos da paisagem que passam desapercebidos através da mesma janela num dia comum: a árvore florida que fica no quintal vizinho, a sombra refletida pela planta do vaso no parapeito.

Sem localizar o ponto de origem, ouve-se o cantar dos passarinhos. Um silêncio macio e envolvente serve de pauta para essa melodia cujas notas vão sendo ali colocadas, de forma coordenada, maciamente. Tem dia que vale a pena acordar.

Tem dia que o despertador não cumpre sua função: sem razão, já que o corpo reclama, os olhos estão abertos e vão direto no buraco na parede, na teia de aranha no canto, no quadro torto, na desarrumação do quarto. Vem a lembrança da frustração numa situação qualquer e ela faz a possibilidade de novo desagrado parecer iminente, avultar-se, tornar-se real. O corpo está doído e enrijecido.

No banheiro, difícil encarar o rosto no espelho. Está velho, enrugado, sem viço. Descobre marcas feias, os cabelos não obedecem. Os olhos não enxergam direito: é a sombra da árvore do quintal do vizinho. A planta do parapeito da janela murchou e, ainda por cima, sujou o chão. O barulho é de endoidar: pedaços de música sabe-se lá de onde, freadas de carro na rua, meninos gritando e esses chatos desses passarinhos! Tem dia que não vale a pena acordar.

Tem dia que os olhos descobrem notícias alvissareiras nos becos dos jornais. O desemprego está diminuindo, senadores são responsabilizados por seus nefandos atos, não são mais considerados elementos de legião divina. Há empresas comemorando mais de trinta anos de atividades. O País se mostra mais atento, eleitores começam a se preparar para suas escolhas: sabem que o futuro está em suas mãos. Ao sair de casa, a rotina está determinada por uma prosaica lista: pagar isso e aquilo, comprar isso e aquilo, telefonar para aqui e ali, passar por lá e acolá. Último item: abastecer o carro, hoje! Tem dia que vale a pena levantar da cama.

Tem dia que os jornais só trazem notícias desagradáveis, o dólar vai desvalorizar ainda mais. Se não é sinal de chuva, então o mundo está acabando. A temperatura está mudando, o pneu furou, o telefone está mudo, a água pinga da torneira, o gás precisa ser trocado, a energia elétrica pifou, alguém avisa sobre vazamento no tanque do carro, a direção da escola do filho pede urgência no retorno de uma ligação. Anularam a viagem programada para o final de semana, todos os arquivos do computador foram destruídos - vírus! - e, ao ligar o carro, vem a lembrança do esquecimento de abastecê-lo. Tem dia que não vale a pena levantar da cama.

Nos dias que vale a pena viver, a trilha sonora é Roberto Carlos, ainda que seja o cara mais infeliz da face da Terra. Nos dias em que não vale a pena viver, a trilha é Júlio Iglesias, aquele moço corado, rodeado de moças bonitas que só canta tristeza e amargura. Nos dias que vale a pena sair da cama, ao final do dia é bom fazer uma caminhada para ver o pôr-do-sol e agradecer o que se viveu. Nos dias que não vale a pena, cedinho decreta-se greve, leva-se revista para a cama. Se é mulher, dorme e sonha com seu príncipe idealizado. Se é homem, tem enredo erótico disponível aos montes. E em qualquer dia, independente do astral interno ou externo, a certeza: a sensação de abrir os olhos e poder enxergar-se por dentro e por fora é maravilhosa. (Publicado no século passado, pela primeira vez).

ANIVERSÁRIO
Dia especial no calendário: aniversário da Sônia Menezes Pizzo, sinônimo de alegria, coragem, persistência, força, determinação, tolerância, reverência, arrojo, generosidade, autenticidade, altruísmo, compaixão, solidariedade, entusiasmo, desapego. Não bastasse, diz e prova que sua vida é pautada pela certeza de que ‘amanhã é outro dia’.

TAÍ
1938. Assis Valente escreveu, Carmen Miranda gravou: ‘Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar/ Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar/ E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada/ Por causa disso nessa noite lá no morro não se fez batucada. Acreditei nessa conversa mole/ Pensei que o mundo ia se acabar/ E fui tratando de me despedir/ E sem demora fui tratando de aproveitar. Beijei na boca de quem não devia/ Peguei na mão de quem não conhecia/ Dancei um samba em traje de maiô/ E o tal do mundo não se acabou’. A última frase é o título do samba. Bom guardar a letra para 21/12/2012.

CAMPING
Harold Camping, líder espiritual da organização ‘religiosa’ Family Network. Previu o fim do mundo para 21 de outubro de 2011, como o fizera em 21 de maio do mesmo ano e antes, em 21 de maio de 1988 e 6 de setembro de 1964. Cada vez que Camping faz a previsão do apocalipse - diz que baseada em sofisticados ‘cálculos numerológicos da Bíblia’ -, os seguidores se desfazem de seus bens e lhe entregam o dinheiro. Com isso, o Washington Post calcula que mais de 80 milhões entraram na conta do frustrado profeta.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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