A ex-filha


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O primo tinha que cuidar do divórcio. Mas antes, havia a ação negatória de paternidade. Na prática, tinha que provar que não era pai da sua filha
O primo tinha que cuidar do divórcio. Mas antes, havia a ação negatória de paternidade. Na prática, tinha que provar que não era pai da sua filha

‘As Nações Unidas são brincadeira de criança se comparadas a lutas, malabarismos e necessidades de compreensão e perdão em qualquer família’
May Sarton,
poeta americana


As festas de fim de ano são sinônimo de mesas fartas, com toda sorte de comidas imagináveis e bebidas idem. É justamente em torno da mesa que se reúnem as famílias. E é ali, entre uma garfada e outra, que se multiplicam aquelas conversas descompromissadas e revigorantes que Facebook nenhum substitui. Não faltam histórias engraçadas que, de tão absurdas, parecem piada. Na minha família há muitas. Uma delas, acontecida este ano, poderia perfeitamente servir de enredo para o seriado A Grande Família. O ibope estaria garantido.

O protagonista é um primo distante da minha mulher que mora em São Paulo. Sujeito simpático e sem grandes problemas para vencer as despesas ao longo do mês, o rapaz é daquele tipo que a gente aposta que nunca vai se casar. Divertidíssimo, hedonista, bom copo, fumante convicto e amante das cartas, o sujeito tinha uma vida à prova de casamento. Pelo menos, era o que todo mundo achava. Mas eis que, há pouco mais de dois anos, o primo anunciou o casório. Mandou convite, fez festão em buffet, viajou com a mulher para o Exterior em lua-de-mel.

Voltaram para o apartamento novo, presente da mãe. De repente, veio a notícia que ninguém esperava tão cedo, muito menos via SMS. O primo ia ser pai. O sujeito entrou em transe de tão feliz. Comprou enxoval, fez book de gestante - isso, eu nem sabia que existia - e foi o tipo de ‘grávido’ que toda mulher adora. Acompanhou o pré-Natal, foi em todas as consultas ao ginecologista, conferiu os detalhes de cada ultrassom. Não só assistiu ao parto como, câmera em punho, filmou tudo.

Nascida a criança, distribuiu toneladas de fotos para todo mundo e correu para providenciar o passaporte da menina para as viagens que viriam logo. Só uma coisa o deixava um pouco chateado. Há uma marca de nascença característica na família, uma fenda no queixo, que todos do núcleo do primo ostentam. Numa consulta ao pediatra, o doutor havia atiçado a desconfiança. Aquela marquinha era resultado de um gene dominante e, portanto, respeitada a lógica da genética, a filha deveria ostentar o sinal. Mas seu bebê, apesar do primo acreditar ter nascido à sua imagem e semelhança, não tinha sinal da tal marquinha.

Encafifado, o primo resolveu passar a questão a limpo. Colheu material da saliva da criança e, sem que a mulher soubesse, mandou fazer um teste de DNA. Veio a bomba. A filha não era dele. O primo ficou desolado. Chamou a mulher para uma conversa. Firme, a mãe da criança reagiu com indignação. Como ele poderia duvidar dela? ‘Absurdo’, bradou. A única opção é se o bebê tivesse sido trocado na maternidade. Neste caso, ela também não seria a mãe. Ou então, era um erro daquele teste fajuto.

Convencido pelos argumentos da mulher, o primo animou-se. Chegou a pensar em processar o laboratório por danos morais. Sim, era o que faria. Processar o laboratório era a decisão acertada. Para isso, precisava apenas de um exame que confirmasse a paternidade, desta vez feito em laboratório consagrado. Marcou o exame. A mulher, sem pestanejar, concordou com tudo e foi com o marido colher o sangue.

A vida seguiu normal. Pelo menos, até um dia antes da data prevista para o resultado. Foi então que, pela manhã, o primo resolveu pressionar uma última vez. Desta vez, a história foi diferente. Sem choro, a mulher confirmou que a filha não era mesmo dele. Que tinha mesmo transado algumas vezes com um ‘amigo’. Não se esforçou nos pedidos de desculpas, não esboçou arrependimentos. E só.

O primo viu-se diante de um absurdo. Tinha que cuidar do divórcio - mas antes, era preciso entrar com uma ação negatória de paternidade. Parece mentira, mas existe este instituto jurídico, exatamente o contrário do reconhecimento de paternidade. É preciso todo um trâmite burocrático e, obviamente, depende de sentença judicial. O trabalho e o constrangimento são imensos. Há que se tirar o nome do pai da certidão de nascimento, dos documentos do hospital, do passaporte, do direito à herança. E explicar tudo à família e os agora ex-avós, ex-tios, ex-primos. É uma tristeza sem fim.

O primo enfrentou tudo com altivez impressionante e, ao final, ainda comemorou. ‘Foi melhor assim. Já imaginou se eu descubro quando minha ex-filha estivesse grande? Agora, sofri menos. E olhe que eu ainda sinto uma saudade daquele bebê...’, lamenta.

O divórcio foi consumado e a exclusão de paternidade também, mas permanecer no apartamento com quarto decorado para a criança foi demais para ele, que colocou o imóvel à venda e voltou para casa da mãe, agora convertida também em ex-avó. Não viu mais a ex-filha que deixou sua vida aos três meses, nunca quis saber detalhes do pai da criança e só encontrou a ex-mulher no dia de assinar a papelada do divórcio. Traumas, carrega nenhum. Pelo contrário, está cheio de planos para 2012. O principal é arrumar uma namorada, de olho num projeto maior, desde já programado para 2014. Casar de novo. Isso mesmo. Para o primo, cheio de entusiasmo, falta só arrumar a mulher. ‘Da próxima vez, vou acertar’. Que os anjos digam amém.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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