Por quê?


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Carregamos monstros dentro de nós mesmos que, vez por outra, se libertam e protagonizam episódios cuja possibilidade de compreensão transcende a capacidade humana
Carregamos monstros dentro de nós mesmos que, vez por outra, se libertam e protagonizam episódios cuja possibilidade de compreensão transcende a capacidade humana

‘Nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida’
José Saramago,
escritor português


A redação de um veículo de comunicação pode ser qualquer coisa, menos um lugar tranquilo. A agitação é permanente, o entra e sai de repórteres e fotógrafos uma constante, a tensão parte do dia a dia. Sexta-feira, quando é preciso antecipar parte do fechamento da edição de domingo, a rotina é sempre mais intensa, os humores ficam instáveis, as gentilezas se tornam menos frequentes. É muita coisa para fazer em pouco tempo.

Nada disso seria suficiente para explicar o clima pesado que pairava no ar no final da manhã desta última sexta-feira na nossa redação. O repórter Daniel Rodrigues havia interrompido a transmissão do Show da Manhã, apresentado por Valdes Rodrigues, para transmitir as primeiras informações direto do jardim Portinari. Um rapaz havia atirado contra a ex-namorada, o pai dela, a avó e contra si mesmo. Tudo era muito confuso, demasiado trágico e, por mais absurdo que pudesse parecer, real.

Os minutos corriam, o espanto crescia e a pergunta que todos repetiam uns aos outros era uma só: por que? O que tinha levado um rapaz de 19 anos a executar à queima roupa a ex-namorada de 14 anos recém-completos? Por que ele tinha atirado contra o pai e a avó dela? Por que alguém faz isso numa manhã qualquer, depois de chamar a pessoa por quem certamente era apaixonado ao portão, conversar por alguns minutos, ser convidado a entrar e sentar-se junto no sofá? Por quê?

Não sei se acontece com todo mundo, mas diante do inexplicável, costumo fazer associações com situações que vivencio, numa tentativa - inútil, admito - de encontrar alguma explicação. Eloísa, assassinada covardemente com três tiros na cabeça e no peito, nasceu em novembro, assim como a minha Júlia que, aos 13 anos, como convém a qualquer adolescente, carrega dentro de si todos os sonhos do mundo. Não devia ser diferente com a menina linda, loira, certamente muito vaidosa, cujo corpo agora repousava num caixão. O pai, Luciano, atingido por dois disparos, insistia em sobreviver. Tinha só 33 anos, quatro a menos do que eu. Por que esta menina não estava estudando? Por que ela não morava com a mãe? Por quê?

As horas avançavam, mais informações surgiam, nenhum conforto despontava. Todos diziam que o rapaz tinha envolvimento com drogas. Assustada com o comportamento do namorado que transformou em marido por algumas semanas, Eloísa havia decidido romper o relacionamento há menos de um mês. Sua mãe prestara queixa à polícia, o pai fora agredido a socos pelo assassino-suicida. Por que ninguém fez nada? Por que a tese da ‘presunção de inocência’, somada a uma legislação que confere mais direitos do que obrigações, impede que alguém que ameaça e agride seja recolhido a um presídio? Por que somos obrigados a conviver com gente violenta? Por que não nos insurgimos para mudar isso? Por quê?

No final da tarde a editora-chefe, Joelma Ospedal, subiu até minha sala com mais imagens. Uma multidão se aglomera em torno da casa. Um caixão é carregado para dentro. O corpo inerte da menina está caído no sofá. Há muito sangue. Os móveis desgastados denotam a simplicidade do lugar. A foto de Thayron não traduz a imagem que fazemos de um monstro. A avó executada sorri num retrato antigo. Penso no inferno em que se transformou aquela casa algumas horas antes. Tento imaginar o que Eloísa conversou com Thayron no portão de casa. Por que ela o convidou a entrar? Em que momento ele sacou a arma? Os gritos de horror e o desespero do pai e da avó diante da cena me vêm à cabeça. Por que?

Há os que acreditam que tudo é culpa da falta de Deus na vida destas pessoas, mas se esquecem que é justamente em nome dele que outras tantas barbaridades são cometidas. Há os que culpam os pais, como se fosse possível a qualquer um controlar permanentemente os filhos. Há os que responsabilizam as drogas, como se todo dependente químico fosse um assassino. Há os que invocam ‘maldição’, como se alguém tivesse o poder de, a partir de ‘feitiços’, produzir sobre a vida do outro tamanha desgraça.

É desalentador, mas simplesmente não há explicações possíveis. Deus nada tem a ver com isso, ‘maldições’ são folclore e a responsabilidade dos pais é, por certo, limitada. A triste verdade é que a natureza humana não é tão elevada como creem alguns. Carregamos monstros dentro de nós mesmos que, vez por outra, se libertam de suas amarras e protagonizam episódios cuja possibilidade de compreensão em muito transcende a capacidade humana.

O pior é que, neste caso, não há mais nada a fazer. O assassino covarde se matou e levou consigo até a possibilidade de ser odiado. Não há criminosos a encontrar, não há ninguém a punir, não existe vingança possível. Três vidas se foram por razões estúpidas, de forma estúpida, numa manhã estúpida, sem redenção possível, sem recomeço. Tudo acabou. Dramaticamente.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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