‘O poder é o afrodisíaco mais forte’
Henry Kissinger, ex-secretário de Estado americano
O Comércio publicou em sua edição de sábado o resultado da pesquisa encomendada ao instituto Datalink para avaliar o desempenho dos deputados eleitos por Franca. Os números levantados permitem muitas análises interessantes - três delas bastante diretas e, também em certa medida, surpreendentes.
A primeira é que os eleitores da cidade estão mais do que satisfeitos com o desempenho de seus representantes em São Paulo e Brasília. Roberto Engler (PSDB), Gilson de Souza (DEM) e Marco Aurélio Ubiali (PSB) gozam de maciça aprovação, com índices que variam de 89,5% no caso do tucano, passando por 87,5% para o democrata e 73,5% em se tratando do federal. São índices expressivos e muito próximos, no caso dos estaduais, da aprovação de que desfruta o prefeito Sidnei Rocha (PSDB).
A segunda é que o trio tem considerável força política. Parcela significativa do eleitorado diz levar em conta a opinião deles na hora de escolher o futuro prefeito. Segundo a pesquisa, o apoio de Engler a um candidato tem potencial para influenciar 36,2% dos eleitores. Gilson impacta a decisão de voto de 33,2%. A opinião de Ubiali é levada em conta por 26,3% dos eleitores na hora de escolher o prefeito da cidade.
A terceira e mais significativa conclusão é que a população que elegeu o trio para mandatos que terminam apenas em 2014 quer que eles permaneçam exatamente onde estão: na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados. Apenas um quarto do eleitorado, em média, admite a hipótese de seu deputado partir para a disputa da cadeira de prefeito. Os mais liberais neste quesito são os defensores de Gilson de Souza. Cerca de 27,2% de seus eleitores não se importariam de vê-lo disputar a sucessão de Sidnei Rocha. No caso de Roberto Engler, o número cai para 23,7% e, para Ubiali, atinge o índice mais baixo, com apenas 20,2% defendendo sua candidatura a prefeito.
É curioso observar que, por maior que seja a aprovação ou a satisfação dos eleitores com o desempenho de seus representantes na Assembleia e na Câmara dos Deputados, é com a prefeitura que de fato estes sonham. Engler já disputou duas vezes, Gilson tentou três vezes. Perderam todas. Ubiali aventurou-se uma vez. Perdeu também. Voltaram às urnas em busca de um mandato legislativo, receberam a confiança do eleitor, mas não parecem muito satisfeitos. Volta e meia, ensaiam o retorno à disputa da prefeitura municipal
O fenômeno não é local nem se restringe a qualquer partido político ou viés ideológico. Quem puxar um pouco pela memória pode recordar o início do governo Lula, quando um Antônio Palocci (PT) constrangido teve que rasgar o documento que havia assinado em cartório comprometendo-se a cumprir integralmente o mandato de prefeito de Ribeirão Preto. Eleito, saiu no meio do caminho para assumir o ministério da Fazenda. A situação foi tão vergonhosa que Lula teve que ‘convocar’ Palocci, numa tentativa de diminuir na cidade de seu ministro o impacto negativo do ‘abandono’. Não deu muito certo. Nas urnas de Ribeirão, Palocci jamais voltou a ter expressão.
José Serra (PSDB) não fez mais bonito. Na disputa de 2004 para a prefeitura da capital, prometera de lá só sair antes de concluir o mandato se ‘morresse’. Continuou vivo, mas não prefeito. Renunciou ao cargo dois anos após sua promessa para disputar o governo do Estado. Nem corou.
Na Franca do Imperador, Engler e Gilson parecem ter assimilado o recado do eleitor. Ambos sinalizam que estão fora da disputa. ‘A pesquisa me mostra que agora é hora de trabalhar para a população como deputado estadual (...) e vou respeitar a vontade dessas pessoas que me escolheram’, garante Gilson de Souza. ‘Eu sou um instrumento de Deus a serviço da sociedade e, se ela me disser que quer que eu esteja em um lugar, é lá que eu vou estar’, vaticinou Roberto Engler. O movimento de ambos é estratégico. Preservam os mandatos, a força política e abrem perspectiva para, num futuro não muito distante, partir para a disputa de prefeito em condições mais favoráveis.
Bem diferente é a posição de Ubiali que, alheio à opinião do eleitor, mantém seus planos. ‘(...) decidi montar um projeto para a Franca do futuro e vou sim concorrer à Prefeitura no ano que vem’. A justificativa é que, como suplente, não tem segurança e pode ser apeado de Brasília a qualquer momento.
Há certa lógica em seu argumento, mas vai ser dificílimo convencer o eleitor disso. A aposta é dramática. Se vencer, é possível que os eleitores esqueçam a sua súbita mudança de planos. Se perder, vai ser quase impossível encontrar argumentos para, em 2014, pedir de novo a confiança do eleitor para voltar a Brasília. Neste caso, talvez o consultório seja o destino possível para o médico que colocou Franca de novo no mapa da política nacional. É tudo ou nada. Sem choro, nem vela.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br
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