Linhas da vida


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Como a vida é estranha. Esta semana, que na nossa família registra a morte do bisavô Milton, é a mesma do aniversário de 5 anos do bisneto Lucas

Milton nasceu no começo do século passado. 1913. Acompanhou o mundo por quase um século. Viu duas guerras mundiais: nasceu um ano antes de acontecer a Primeira, mas já era moço durante o desenrolar da Segunda. Soube da descoberta da penicilina e estava atento ao desenvolvimento da engenharia genética: viu salvar as primeiras vidas com a ajuda de antibióticos e leu sobre a fertilização humana feita por meios absolutamente distantes dos tradicionais. Acompanhou a evolução dos costumes, o uso de anticoncepcionais, a libertação da mulher. Viu quando a luz elétrica substituiu lamparinas e velas nas casas. Viu a cidade se iluminar com as lâmpadas dos postes. Viu surgir desde o telefone de manivela, até os dos netos que trazem imagens da irmã em outro país, aparelho que tira fotos, que tem rádio e filmes. Não deve ter entendido bem o computador, nem o microondas. Defendia ideias como botar fogo no Congresso Nacional para acabar com a bandalheira – um homem sábio. Fico imaginando a riqueza de sua vida, ao ver tanta coisa aparecer e evoluir: o carro, o avião, os aparelhos reprodutores de som, a televisão, o plástico, máquinas de lavar, ar condicionado, motores e instrumentos de trabalho dos dentistas. Acompanhou a vida de Charles Chaplin, Che Guevara, Hitler, Marilyn Monroe, Chico Xavier e Garrincha. Muita experiência acumulada, muita história do Brasil e do mundo. Ao vivo.

Lucas nasceu quase um século depois. 2006. Vive num país de Primeiro Mundo, coabita com gente de sangue briguento, história cheia de relatos de lutas e dominação, todavia um país onde se respira liberdade individual, cultura e arte. Para ele coisas como controle remoto, telefone do pai, brinquedos eletrônicos e desenhos animados na televisão não causam mais surpresas. Estou notando-o mais e mais se apegar a coisas simples como bolinhas de gude, correr atrás de bexigas, aprender a contar no ábaco e andar de bicicleta. Fora a bola de futebol, claro. Traz na metade do sangue os genes da ginga e na outra, o conhecimento atávico sobre o esporte, inventado por seus conterrâneos.

Um dia Milton e Lucas se encontraram. Foi emocionante. Um, com 92 anos, outro com 2 meses. Os bisavós se encantaram com o menino, avós ficaram engasgados, a mãe do bebê chorou porque na sala estavam quatro gerações em encontro que se repetiria muitas vezes, não tantas quanto a expectativa de todos, porém suficientes para matar as saudades do ano passado e antecipar as do ano vindouro. Depois dessa, foram poucas as oportunidades, no entanto, bastantes para registrarem sequência de fotos que estão no porta-retratos da sala do bisavô, no álbum do garoto.

Nunca mais se encontrarão. O ciclo da vida se fechou para Milton. Embora as Moiras tenham sido condescendentes com ele, chegou a hora de cortar-lhe o fio. Lucas não entendeu bem o choro da mãe, o choro da avó no final do domingo passado, nem as lamentações de ambas. Espantou-se com as duas abraçadas na cozinha e saiu, sem entender a cena, excitado com a comemoração de seu aniversário no sábado.

A vida é estranha. No dia da missa de sétimo dia do bisavô Milton, Lucas, do outro lado do Atlântico, apagará cinco velinhas do bolo simbolizando seus cinco anos. Quero crer que não poderia homenagear de forma melhor seu ancestral honesto, correto, decente, exemplo de cidadão, marido delicado, homem de poucas palavras e muitas ações, profissional competente, pai maravilhoso, avô irretocável, sogro gentil e amável, patrão compassivo e justo, irmão atencioso e presente, tio que acreditou na força do sangue e, contrariando predições e depoimentos, deu a mão aos sobrinhos. No apagar das velas no bolo de Lucas Maníglia Brigagão Perry, o acender de nova luz na história de Milton Guerrieri Brigagão, seu bisavô. A vida e a história da família continuam.

MOIRAS
Cloto, Láquesis e Átropos: as Moiras, irmãs da mitologia grega que, juntas, seriam responsáveis pelo destino de deuses e homens. Cloto fiava e tecia o fio da vida. Láquesis puxava e enrolava o fio: ora o colocava sobre a roda fortuna da vida de cada um - fase de prosperidade, ora em baixo - fase ruim. Quando bem entendia, Átropos puxava e cortava, determinando a morte prematura ou não, do ser ao qual o fio correspondia.

PARCAS
O livro Um Toque na Estrela, de Benoîte Groult, supõe conhecimento sobre elas, idealizadas pelas artes plásticas ora como lindas mulheres, ora como horrendas e amedrontadoras criaturas. Jacob Matham, holandês (1587); William Blake, inglês (1795); Sampo Kaikkonem, finlandês (2008) são três artistas plásticos, de épocas diferentes, que têm trabalhos sobre elas.

EXPOSIÇÃO
Na National Gallery estão expostas obras de Leonardo da Vinci, que nunca estiveram juntas antes. Nem na Inglaterra, nem em outra parte do mundo. A exibição está tão concorrida que os bilhetes que podem ser comprados antecipadamente, já foram todos vendidos. E a mostra termina em fevereiro de 2012. Há remota possibilidade de sobrarem alguns todos os dias, que, segundo notícias de jornal do metrô, são disputadíssimos. E devem ser comprados no guichê.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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