Achou a foto antiga colada num impresso: do lado esquerdo, o Selo Nacional, do outro, o ano da foto: 1954. Ambos amarelados - papel e foto, só o sorriso dela é que não. Escancarado, aberto, solto, de pura diversão
De uniforme escolar, tinha laços de fita no cabelo. Um de cada lado. Sentava-se na carteira escolar – aquelas de madeira, que se encaixavam: a mesa, parte de cima e o prolongamento inferior, assento da próxima. Atrás, compondo o cenário, a Bandeira Brasileira. No primeiro plano, o globo terrestre. Segurava caneta tinteiro, de pena: simulava escrever num caderno. Tudo isso, na foto. Olhou muito tempo a cena congelada do seu passado, e depois, aos poucos, recompôs os pedaços do distante passado. Após a foto, voltaria para a sala de aula. Sentaria em sua carteira, organizaria a tinta de escrever cujo vidro ficava do lado direito da carteira; canetas, com pena: ainda não ganhara o direito de usar as tinteiro, e as esferográficas não existiam; régua, estojo de madeira com lápis de cor e os preto da Fritz Johansen; borracha, vidro de goma arábica; cadernos brochura - espirais custavam caro; e o objeto vai-e-vem do importantíssimo mata-borrão. As folhas de papel almaço ficariam dentro da pasta de couro, sob a carteira. Idem os cadernos de caligrafia, de desenho e de linguagem.
Havia esquecido o alongador de lápis naquele dia e precisava usar o apontador de lápis de manivela rapidinho, que muitos colegas estavam de olho na geringonça que facilitava a tarefa e dispensava o uso das perigosas giletes azuis, da Blue Blade. Ah, ia apontar todos os coloridos e organizá-los no estojo Lotus, de lata. Tinha um baita orgulho dos seus cadernos: nenhuma orelha levantada. A capa mais bonita era a que tinha os escoteiros portando a Bandeira Brasileira: pareciam soldados de tão garbosos e, na contracapa, ainda trazia impresso o Hino Nacional. O caderno de caligrafia estava com ela naquele momento, mas iria ficar na escola: a professora não deixava levar para casa. Só a cartilha Caminho Suave, da Branca de Alves Lima e a Tabuada, essa para aprenderem conta de ‘vezes’.
Ela gostava do uniforme, que a mãe trazia impecável: a saia azul-marinho de pregas, a blusa branca, cuja manga mostrava o grau de escolaridade da aluna. Um circunflexo feito de fita fininha da mesma cor da saia: primeiro ano; dois - superpostos - segundo ano, até quatro - quarto ano. Meias imaculadamente brancas, sapato Vulcabrás preto, engraxado, de abotoar do lado. Ainda não tinham inventado botas ortopédicas. No bolso lateral da blusa, os tesouros: os cromos e as decalcomanias.
Embora sorrisse, estava preocupada: viriam os exames de admissão ao ginásio, espécie de vestibular que os alunos de quarto ano primário deveriam prestar para poder entrar no ginásio. Mas a angústia não tinha razão de ser: as aulas do Sr. Peixoto deixavam qualquer um preparado para a maratona. Lá para dezembro, ela faria os exames. As provas viriam mimeografadas, cheirando a álcool, com letras azuis, de bons augúrios. Se tudo desse certo, passaria e ganharia, do pai, uma máquina de escrever portátil, da Olivetti. Naquele ano, para os filhos, o pai comprara a Enciclopédia Barsa. Era para todos, mas ela sentiu que o presente era quase só dela: os irmãos não teriam paciência de ler doze volumes cheios de assuntos diferentes. Alguns até chatos.
Naquele ano, viveria sua primeira grande frustração. Na formatura, a professora viria lhe comunicar que o prêmio de Língua Portuguesa, que lhe cabia por merecimento e esforço, seria entregue a outra menina, não mais gabaritada que ela: com pedigree melhor. Ganharia, como ‘prêmio pela dedicação aos estudos’, o livro Alice no País das Maravilha que somente iria ler quando esquecesse a ofensa: ao começar terapia, trinta anos mais tarde. Eram mais ou menos assim, estudante e a escola risonha e franca, de Franca e região nos tempos antigos.
INSPIRAÇÃO
O texto de hoje foi inspirado em mensagem enviada por amigos, intitulada ‘Bons Tempos’. Não sei, ainda, se o título se refere à época - anos 50; à instituição escola - de antigamente, ou à ingenuidade da aluna - cuja foto ilustra a primeira cena do trabalho em PowerPoint -, menina que poderia ser qualquer uma de nós, com idade acima dos ‘enta’.
SUCESSO
Êxito editorial, a cartilha Caminho Suave, onde quase todos aprendemos a ler, nasceu em 1948 e até 1990 vendeu 40 milhões de exemplares. Era eficiente, até inventarem métodos cheios de letras, firulas, sons pra cá, sons prá lá: complicaram o que era simples. Onde erramos, não sei. Mas há quem se queixe da dificuldade de se expressar e comete erros básicos quando escreve.
BROCHURA
Biotônico Fontoura era o nome do fortificante que tomávamos. Vinha junto com o vidro grande e cheio de líquido de cor escura, a brochura com a história do Jeca Tatu. A parte que eu mais gostei? Quando Jeca Tatu pôs sapatos nos bichos da fazenda. Adorava ver o desenho do porco de botas, a galinha de saltos altos, o cachorro de mocassim. (Mostrei a cena para meus filhos e eles acharam que a mãe ficou doida, de rir de uma besteira dessas.)
LEGENDAS
Ir ao cinema e ver filme dublado é muito chato. Várias pessoas desistiram desse lazer em Franca. Em compensação, há muitas outras, a notar a quantidade de usuários, ou que não se importam ou preferem: alegam poder observar melhor a filmagem, cenários, performance dos artistas e diálogos.
DANUZA
É Tudo Tão Simples, oitavo livro de Danuza Leão é leitura simples de digerir. Nem podia ser diferente, já que a autora descomplicou-se e compartilha nova forma de encarar e viver seus (bons) momentos. Ilustrações preciosas, capa gloriosa, só não gostei do capítulo ‘beleza, as plásticas’. No mais, até o toque do papel da capa é gostoso. Combina com o conteúdo.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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